São Brás é reformada por grafiteiros e reeducandos
Texto: Adriana Rota
A capela São Brás, que abrange sete comunidades da região do Núcleo Édson Bastos Gasparini, está ganhando uma "cara nova" em todos os sentidos: a reforma do prédio vem sendo realizada com a colaboração voluntária de detentos do Instituto Penal Agrícola
(IPA) e grafiteiros da comunidade, numa tentativa de integrá-los
à sociedade, mostrando que têm talento e muito mais a oferecer.
O projeto teve início há cerca de 20 dias e deve estar concluído (ou bem adiantado) até o dia 19 de março, quando a capela será elevada à categoria de paróquia. Basicamente, os reeducandos estão recuperando as estruturas e fazendo a pintura, a princípio, da parte interna. Aos grafiteiros cabe reproduzir obras de cunho sacro no local, além da feitura de um painel alusivo aos 500 anos de evangelização no Brasil no exterior da capela.
O padre diocesano Antônio Carlos da Silva, 38 anos, responsável pela comunidade, disse que o prédio, construído há cerca de dez anos, estava deteriorado. Por isso, apelou aos fiéis que colaborassem na sua melhoria. Contatou o IPA - no qual já é feito um trabalho de evangelização, conseguindo cinco homens - e foi surpreendido pela iniciativa de seis rapazes, com idades entre 16 e 19 anos, que se ofereceram para grafitar.
O padre disse ter enfrentado a hostilidade dos mais tradicionais a princípio, mas, aos poucos, eles estariam aprendendo a valorizar a capacidade dos integrantes do projeto, que têm em comum o estigma da marginalidade. "Estou aprendendo com eles, entrando nesse mundo. É uma relação de troca. Essa aproximação fez com que eles passassem a freqüentar a comunidade. Até então, eram um grupo à parte. É um mundo muito rico culturalmente", exaltou.
O próprio padre disse ter sido discriminado de certa maneira, porque houve uma tentativa de afastá-lo da comunidade a qual preside por apenas seis meses. "Fizemos uma revolução aqui. Muitos ainda olham este padre de maneira negativa, porque não era o que esperavam. Começamos a buscar o diálogo e isso causou inquietação. Mas agora estamos superando", disse, animado.
"Porta-voz" dos grafiteiros, o estudante Douglas Luiz Molitor, 16 anos, falou da satisfação do grupo em poder colaborar com a comunidade mostrando sua arte, que prega, justamente, a integração. "É a filosofia hip-hop", enfatizou. Molitor esclareceu, ainda, que existe uma grande diferença entre a pichação e o grafite, "que é um trabalho bonito e exige esforço".
O padre, que "se engrupou", nas palavras do grafiteiro, conseguiu fazer o que o pai de nenhum deles tinha conseguido até então: mandá-los para a missa. "A melhor coisa do mundo é ir para o lado de Deus fazendo o que você gosta", ensinou o artista.
Serviço
Pessoas de todas as religiões estão convidadas a conhecer o trabalho. A capela fica na rua dos Radialistas, 1-5.