08 de julho de 2026
Geral

Trânsito

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

De olho no trânsito

Texto: Gustavo Cândido

Mauricéia Quinhoneiro Vicente vem, desde 98, fazendo um trabalho com alunos candidatos à Carteira Nacional de Habilitação, auxiliando-os quando existe alguma dificuldade durante as aulas ou nos exames. A proximidade com o mundo das quatro rodas fez com que ela voltasse seu olhar de psicóloga para as pessoas que estão no trânsito atualmente, seus problemas e o resultado deles nas ruas. Ela falou esta semana ao Caderno Ser sobre seu trabalho, trânsito, motoristas, homens e mulheres e estresse.

Jornal da Cidade - Como você começou a se interessar por essa questão do motorista no trânsito?

Mauricéia Quinhoneiro Vicente - Minha mãe

é instrutora de auto-escola e na época dos exames ela tinha muito problema com alunas que durante as aulas eram

ótimas mas no dia do exame faziam absurdos sem explicação. Ela não sabia o que estava acontecendo e eu comecei a atender estas pessoas e me interessei pelo assunto. O pessoal, geralmente, vem com a queixa de dificuldade para dirigir mas conforme vamos passando pelo processo terapêutico vamos vendo que o problema dele é outro, o medo e a dificuldade de dirigir são sintomas. Eu atendo muito os motoristas que não são os infratores mas sim aqueles que vêm as barbaridades que acontecem no trânsito e ficam com mais medo de dirigir. Depois surgiram pessoas que não conseguiam passar no exame psicotécnico na hora de tirar a carteira de habilitação, então comecei a estudar mais, me especializar, foram aparecendo mais pacientes... Hoje, algumas auto-escolas encaminham os alunos com dificuldades para mim e mesmo algumas pessoas que já têm a carteira e querem um acompanhamento para se sentirem seguras.

JC- Existe algum tipo de preconceito em relação

à figura da psicóloga no trânsito?

Mauricéia - Muita gente ainda tem preconceito porque vêm os psicólogos como avaliadores, como acontece no Detran. A imagem é daquela pessoa que vai colocar a pessoa numa situação constrangedora e vai julgar se ela é capaz de dirigir ou não, quando na verdade o nosso trabalho é ajudar a pessoa a ter um resultado melhor no trânsito.

JC - E o psicotécnico?

Mauricéia - No caso do psicotécnico, infelizmente existem casos que não dão certo. Nesse caso eu faço um trabalho voltado para descobrir outros significados e mostrar que é possível viver bem sem dirigir. A questão do dirigir tem muito a ver com auto-afirmação e auto-realização, se uma pessoa não consegue ela se sente destruída. Mas, às vezes, dirigir não

é para todo mundo, o que não quer dizer que um é melhor do que o outro. As pessoas são diferentes. Muitas vezes existe um problema neurológico ou até uma incapacidade intelectual, baixa escolaridade. Nesses casos o prognóstico

é até favorável, de repente uma pessoa fez até a segunda série e tem dificuldade de resolver problemas rápidos ou difíceis e acha dirigir complicado. Conforme ela volta a estudar pode tentar de novo e conseguir dirigir bem. Já atendi pessoas que não conseguiam dirigir porque não tinham aquela escolaridade que ajudava a desenvolver o processo cognitivo. Então a orientação era: voltar a estudar, pois assim pode voltar a dirigir, conseguir um emprego melhor, muitas coisas, dirigir passa a ser uma coisa pequena.

JC- A maneira como uma pessoa reage no trânsito é um reflexo de como ela é na vida?

Mauricéia - É muito diferente a maneira como cada um reage no trânsito, o adolescente é diferente do adulto, que por sua vez é diferente do idoso e, além disso, o homem é diferente da mulher. Tem também o motorista saudável e o que tem algum distúrbio de personalidade, que a gente encontra mais nos homens. Quando a gente ouve falar de psicopatas percebe que a maioria deles é homens. Existem mulheres mas o maior número é de homens, então existem diferenças muito grandes entre os sexos, tanto é que existem pesquisas que dizem que as mulheres dirigem muito melhor que os homens. Isso porque as mulheres estão mais ligadas à questão da regra e da responsabilidade por causa da educação. Então a lei e a instituição é muito mais forte na mulher do que no homem, que tem uma cultura em que há momentos em que a transgressão é possível. A própria maternidade dá para a mulher a questão do dever, do nutrir, do cuidar, muito mais forte do que o homem. O maior problema no trânsito são os homens de 18 a 30 anos.

JC- Existem pessoas que descontam suas frustrações no trânsito?

Mauricéia - Nós chamamos isso de catarse, porque no trânsito você tem uma arma poderosa na mão, que é o carro e uma pessoa insegura, mal-amada ou com problemas de desvio, usa essa oportunidade com o carro para se afirmar, para aparecer. É uma coisa de criança mimada.

JC- O número de pessoas com medo do trânsito é muito grande?

Mauricéia - É. E é muito bom trabalhar com essas pessoas, porque o medo é uma coisa muito boa.

JC- Como assim?

Mauricéia - Normalmente entre os mortos existem muitos corajosos e pouco medrosos. Na nossa cultura nós valorizamos o contrário, que é essa idéia de ser o desafiador, ir atrás... e quem tem medo acaba sendo subjulgado e se sentindo péssimo. A pessoa diz: "tenho medo de dirigir" e logo alguém despreza esse medo dizendo que dirigir é fácil e o medo é bobo. A pessoa se sente menosprezada porque os outros não entendem como ela pode ter medo de uma coisa "tão fácil" como dirigir. Eu gosto de trabalhar com essas pessoas porque se elas vindo a conseguir dirigir, é muito provável que sejam boas motoristas. O medo, muitas vezes, vem do excesso de responsabilidade, do excesso de cuidado e de insegurança. Se eu sou inseguro, uma forma de me afirmar é fazendo barbaridades outra forma é tentar melhorar a minha vida, aprender mais e conquistar essa segurança. O prognóstico do trabalho com pessoas que têm medo é interessante por causa disso, ele não vai ser aquele motorista que faz barbaridade, vai ser o motorista centrado.

JC- E as pessoas com desvios de conduta no trânsito?

Mauricéia - Essas são pessoas mal educadas, são pessoas mimadas e que não têm muito senso do cuidado que precisam ter com o próximo. Isso acontece com homens e mulheres adultas, mais homens. No caso do adolescente

é diferente. Ele tem uma necessidade muito grande de auto-afirmação, de aparecer em público e isso com o agravante de não ter tanta experiência, o que já não acontece com o adulto. Isso faz com o número de barbaridades no trânsito seja muito grande com adolescentes, que acabam se envolvendo muito mais em acidentes fatais por causa na inexperiência. Outro fator importante é o estresse (veja no boxe). De repente você é um motorista saudável, reconhece sua responsabilidade no trânsito e quer fazer as coisas da melhor maneira possível, mas está passando por uma situação na sua vida de muita pressão, de muita carga emocional. Isso te tira um pouco a sua capacidade de fazer as coisas direito, porque o estresse prejudica a concentração, a memória, dá uma irritabilidade enorme... Por isso que uma pessoa pacata que faz tudo direitinho numa situação de estresse pode fazer um absurdo. Isso é um caso que não tem a ver com desvio de conduta mas sim com uma situação do momento. É por isso que é importante enquadrar a pessoa corretamente e saber se ela não teve uma educação sobre ética e como agir com os outros, ou se está passando por algum problema. Agora imagine o que não dá uma pessoa com desvio de conduta que esteja estressada...

JC- Não seria ideal que as pessoas fossem examinadas desse modo antes de adquirirem a carteira de habilitação? O exame psicotécnico parece insuficiente...

Mauricéia - O problema do psicotécnico é que nós somos dinâmicos. Você faz o teste hoje e ele vai ter o resultado de você naquela situação específica e ele não pode prever, por exemplo, uma situação de estresse. Por isso muita gente com desvios terríveis passam no teste. É preciso investir mais e melhorar a qualidade da avaliação, De qualquer forma como raio-x, o psicotécnico é um teste muito bom. Pelo que eu percebo, quem não passa nele, geralmente não tem condições de dirigir mesmo. Algumas não passam porque no momento em que fizeram o teste estavam com algum problema emocional, outras não teriam condições mesmo. Mas no final das contas, realmente é preciso ter uma avaliação mais completa, mas para isso é preciso pesquisa porque a partir do momento que você aumenta a exigência, você pode estar tirando a oportunidade de pessoas que poderiam ser boas condutoras no futuro, pela questão da dinâmica, ela pode não ser boa hoje, mas pode ser diferente amanhã. Existem traços de personalidade que se mantêm, mas a partir deles é possível transformar muita coisa.

Estresse

O estresse e os transtornos de ansiedade são extraordinariamente freqüentes, estimando-se que 25% de toda a população irá experimentar seus sintomas pelo menos uma vez na vida.

Mais recentemente a Organização Mundial da Saúde descreveu o estresse como a maior epidemia mundial deste século. Estudos nos Estados Unidos indicam que aproximadamente 90% das pessoas adultas já experimentaram o estresse e quase metade dessas pessoas disseram que enfrentam altos níveis de estresse pelo menos uma a duas vezes por semana Pesquisas atuais destacaram uma série de trabalhos médicos que confirmaram a influência do estresse nas doenças do coração, de pele, gastrointestinais, neurológicas e de desordem emocional, e também relacionado a uma série de desordens ligadas ao sistema imunológico, de defesa do organismo, que vão desde o resfriado comum, passam pelo herpes, a artrite, o câncer e a própria aids.

A palavra estresse vem da engenharia, quer dizer a quantidade de peso sobre uma ponte. Se você põe muito peso sobre a ponte, a estrutura, as colunas de sustentação, desmoronam. Porém, se você retira algum peso, e deixa sobre a ponte uma quantidade suportável, as colunas não vão ruir. Primeiro é necessário identificar o tamanho da ponte e o quanto ela suporta. Depois, os estressores. Aí, tentamos retirar de cima da ponte os pesos que podemos eliminar. Por fim, podemos fortalecer a ponte para agüentar o que não pode ser eliminado. Realmente, não dá para eliminar tudo, fugir do mundo, da sociedade, de medidas econômicas, do trânsito,

etc...

A resposta ao estresse é um jogo de duas substâncias: adrenalina e cortisol, que são normalmente secretadas em situações de ameaça ou perigo. Essas substâncias produzem a resposta de "lutar ou fugir" que prepara todo o nosso corpo para enfrentar a ameaça ou procurar escapar dela.

Os mais recentes estudos relatam que uma das principais fontes de estresse está no trabalho e entre as causas mais específicas vale destacar o cenário altamente competitivo, mudanças freqüentes e radicais, desafios cada vez mais complexos, sobrecarga de trabalho, relacionamento interpessoais desagradáveis, insegurança, e o desemprego.

Os sintomas do estresse aparecem em três fases. Na primeira, conhecida como fase de alerta, a digestão fica ruim, aparecem as crises estomacais, tensão, ombros levantados, dores na nuca, perda de sono e apetite. Essa primeira fase não causa danos. Muitas vezes a pessoa elimina os sintomas com exercícios físicos ou ainda em momentos de lazer em companhia de pessoas amigas. Porém, se o estressor não vai embora, aparece a segunda fase, que é a de resistência. Ela apresenta dois sintomas característicos: dificuldade da memória e sensação de cansaço. Quando isso acontece, o corpo está dizendo que a mente está resistindo ao estresse, e é preciso fazer alguma coisa. Viajar, relaxar, fugir do estressor, são ações que eliminam o problema. Nesta fase, também é grande o número de pessoas que não percebem a presença da doença. Se não tomar medidas para melhorar sua situação, parte para uma terceira fase, chamada exaustão. Antes de chegar à exaustão, no fim da segunda fase, a pessoa começa a adoecer. Doenças de pele, vitiligo, gastrite, queda de cabelos, inclusive na barba, pressão alta... A pessoa está tentando resistir, mas a doença está latente.

Como reagimos ao estresse é mais importante que o estresse em si. Pesquisadores observaram que não são necessariamente as grandes tragédias que causam o estresse, mas os pequenos aborrecimentos do dia-a-dia.

As pessoas precisam aprender não somente a controlar o estresse, mas como usá-lo a seu favor. Sem nenhuma carga de estresse

normalmente ficamos desestimulados. Todos nós precisamos de um certo nível de estresse para estimular nosso máximo desempenho.

O mais importante é saber como estimular em nós mesmos o que os médicos chamam de "resposta de relaxamento", ou seja, saber como relaxar completamente após as situações estressantes diminuindo a secreção dos hormônios do estresse para que eles não destruam nossos corpos.

Através de exercícios físicos e de respiração diafragmática, relaxamento, alimentação rica em vitaminas e nutrientes anti-estresse, auto-conhecimento e atenção especial aos nossos conteúdos psicológicos e emocionais, podemos aprender a fazer escolhas menos estressantes e relaxar apesar dos contrariedades inevitáveis do dia-a- dia.