07 de julho de 2026
Geral

Vida de violeiro

Levi Ramiro
| Tempo de leitura: 4 min

Levi Ramiro: construir violas é como viver em paz

Texto: Marcos Zibordi

Levi Ramiro, violeiro e artesão, costuma contar os fatos de sua vida como uma sucessão de acasos. Nascido em Uru, logo cedo foi para a cidade grande (Campinas), onde passou 20 anos até descobrir que o que queria estava justamente no lugar que abandonou. Agora com 33 anos, sua vida é construir e tocar viola no bairro calmo de Estiva, distrito de Pirajuí. Levi conta que a viola sempre esteve em sua vida, desde quando via e ouvia rodas de violeiros, contadores de causos e festas de Folia de Reis. Um artista reconhecido pela qualidade do trabalho (musical e artesanal) Levi é a simplicidade em pessoa. Ao colocar gravações de companheiros para a reportagem ouvir, quase deixa de mostrar o seu primeiro trabalho gravado, "Maracanã", com modas de viola e grandes parcerias. "A gente dá umas triscadinhas nas cordas". Especialista em construir violas, ele cria seus instrumentos num pequeno "puxado" ao lado da casa. A oficina tem duas pequenas máquinas e o resto é feito artesanalmente, com o tradicional formão e outras ferramentas adaptadas por ele mesmo em facas ou canivetes velhos. Segundo Levi, não existe uma técnica única para a construção de violas. Fora as empresas que as fazem em série, os construtores artesanais acabam desenvolvendo sua maneira de criar formas e recursos novos para os instrumentos. Pequenos pedaços de madeira de lei ou de caixotes de frutas são as matérias primas trazidas por amigos. Mas também se recicla. "Gosto de fazer o braço da viola com madeira de batente de janela, que já sofreu todas as intempéries, entortou o que tinha que entortar e vai permanecer assim no instrumento". Casado, pai de uma filha e morando numa tranqüila e aconchegante casa de barro, Levi divide o tempo com o trabalho de agente penitenciário, cursos e shows. O mais interessante no trabalho de Levi não é simplesmente a construção, mas a criação do instrumento. Novos recursos são criados ou descobertos em cada novo trabalho, em cada nova reforma. Devagar, ele vai mostrando algumas rabecas por ele construídas e algumas violas. Em contato com outros violeiros de Minas Gerais e Mato Grosso, Levi diz que o Estado de São Paulo tem perdido muito da sua cultura caipira, caracterizada especialmente pela viola. Ele analisa que o forte processo de urbanização-mecanização pelo qual passou São Paulo foi decisivo para a perda mais rápida das raízes e da tradição. Mas ele mesmo é uma prova de que ela resiste, em locais distantes, quietos, em paz. Levi sabe da existência de outros violeiros na região, com os quais tem contato, troca informações, toca e conserta instrumentos. Para ele, o som da viola pode ser comparado ao de um mantra, pela constância do som que ressoa das cordas duplas da viola. A imagem é de uma cidade do interior de cujas ruas sempre se pode ouvir, ao final da tarde, um som característico de viola. O material utilizado e o desenho do instrumento, influindo diretamente no som resultante, não causam confusão para Levi. Ele não pretende patentear uma marca, um estilo. Parece preferir brincar com as possibilidades, testar uma madeira mais dura que resulte num som mais agudo, ou uma mais fina, que resulte num som mais grave. Instrumentos que não são necessariamente uma viola, mas que são inspirados por ela, também saem do ateliê de Levi. Ele tocou para a reportagem num desses instrumentos, com cordas de nilon, som de viola e mais alguns detalhes musicais indefiníveis mas belos, com certeza. A grande vantagem de ter um instrumento artesanal é a possibilidade de construi-lo de acordo com a anatomia e as aspirações musicais de quem encomenda. A construção de uma viola pode demorar um mês e o preço, às vezes, chega ao dobro das compradas em lojas. Mas Levi não é só construção e execução. Como bom violeiro, não deixa de conhecer "causos", especialmente os ligados à viola, tomar uma cachaça, "que é diferente de pinga", e tocar numa roda informal no seu quintal, com fogueira acesa e cercado de outros violeiros. "Esses dias eu sentei nessa mureta e pensei: eu sou feliz. Construo minhas violinhas, toco, estou aqui em paz, ao som dos passarinhos. Do que mais eu preciso?" Serviço

Contatos com Levi Ramiro podem ser feitos pelo telefone (014) 572-3334