Síndrome do pânico
Texto: Gustavo Cândido
O Instituto Nacional de Saúde estima que pelo menos 2,5 milhões de pessoas possam estar sofrendo de síndrome do pânico no Brasil. Aparentemente um mal do fim do século XX, a síndrome sempre existiu, mas só começou a ser pesquisada profundamente e tratada, há alguns anos. Ligada diretamente à ansiedade, a síndrome têm se espalhado em todos os lugares, sexos e idades. A criação correta dos filhos desde pequenos pelos pais é muito importante para que a síndrome do pânico não se manifeste mais tarde.
Geralmente, a síndrome do pânico se manifesta pela primeira vez no final da adolescência da pessoa, embora existam casos registrados em crianças e alguns poucos em idosos. As mulheres têm o dobro de probabilidade de sofrer da síndrome, enquanto muitos homens que sofrem deste distúrbio escondem-se atrás do álcool e de outras substâncias numa tentativa de aliviar os sintomas, já que culturalmente, o medo é mais aceitável para as mulheres.
Segundo a psicóloga Fernanda Ferrari, que trabalha com os chamados transtornos de ansiedade e humor, nos quais está incluída a síndrome do pânico, esse distúrbio
é o nome médico que se dá para uma grande reação de medo, acompanhada de sintomas desagradáveis
(leia no boxe), que surgem sem nenhuma reação aparente.
O "ataque" da síndrome acontece quando há uma espécie de confusão no cérebro da pessoa.
É uma reação que faz parte da constituição fisiológica e psicológica do ser humano. Normalmente, em resposta a uma informação transmitida por um dos sentidos, os neurotransmissores (substâncias químicas que as células do cérebro usam para se comunicar), desencadeiam uma série de mudanças fisiológicas. Quando essas mensagens se espalham do cérebro para o resto do corpo, elas podem causar reações e preparar o corpo para fugir ou lutar. O "erro" acontece quando, por alguma razão ainda não identificada com certeza
(pode ser por vulnerabilidade familiar, ritmo de trabalho, estressores externos, etc.), o cérebro recebe um "alarme falso" dos sentidos e prepara a pessoa para uma situação de perigo, quando na realidade não existe um perigo. O cérebro interpretou mal a mensagem e desencadeou um processo de pânico.
Depois da primeira crise, é comum que a pessoa associe o seu medo a tudo o que estava presente na primeira vez que sentiu o pânico, deste modo, quem teve a primeira crise dentro de um elevador, provavelmente pode sofrer um novo ataque num ambiente fechado e por isso vai evitá-los. Quem sofreu uma crise na água, por exemplo, vai ter medo deste líquido. O que se chama de agorafobia, quando a pessoa tem o medo de sentir o medo.
Alta ansiedade
Embora não exista uma explicação definitiva para a origem das crises de síndrome do pânico, é possível que ela se manifeste em pessoas que são mais ansiosas do que o normal. De acordo com a psicóloga Fernanda Ferrari, pessoas com uma pré-disposição maior à ansiedade, tem mais chances de desenvolver uma disfunção. "Existem técnicas de respiração e de relaxamento para que as pessoas fiquem mais controladas e menos ansiosas e, deste modo, fiquem menos vulneráveis
à sindrome", diz a psicóloga. A prevenção completa contra um ataque de síndrome, porém, é impossível.
De qualquer maneira, a psicóloga recomenda que os pais procurem não deixar seus filhos ansiosos demais. E para isso indica sensibilidade, sinceridade e diálogo, "o que faz uma criança ansiosa, geralmente, é a repressão dos pais em relação ao que chamamos de sentimentos negativos, que são a raiva, a irritação. Os pais reprimem a criança quando ela passa por essas sensações e ela passa a pensar que existe algo de errado com ela, já que efetivamente sente uma coisa que o pai disse ser errada", explica Fernanda Ferrari. "Isso aumenta a pressão interna na criança e aumenta também a sua ansiedade e suas manifestações (birra, choro, manha) o que, por sua vez gera mais pressão dos pais", conclui a psicóloga.
O ideal nesse caso é buscar um tratamento o mais rápido possível, mas Ferrari diz que nem sempre isso acontece e a pressão na criança acaba sendo maior ainda,
"no futuro ela vai ser uma adulta ansiosa e pré-disposta a sofrer de algum problema como a síndrome", alerta.
Tratamentos possíveis
Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, demonstra que a síndrome do pânico pode ser tratada sem remédios, através da técnica cognitiva comportamental. Esse método se baseia em informar o paciente sobre as características do seu distúrbio, suas crenças errôneas em relação aos sintomas fisiológicos e ensinar formas de evitar e controlar as crises quando elas aparecem. Isso tudo por meio de exercícios físicos, metais e respiratórios. Segundo Fernanda Ferrari essa técnica é ideal nos casos de pacientes que não toleram medicamentos, mas a psicóloga adverte que em casos mais graves, a medicação é o primeiro passo necessário para se começar um tratamento.
Sintomas da síndrome
Uma pessoa que esteja sofrendo um ataque de síndrome do pânico, geralmente sente:
* Falta de ar
* Palpitações
* Dor (ou desconforto) no peito
* Sensação de sufocamento
* Ondas de calor ou de frio
* Sudorese
* Tontura
* "Formigamento"
* Falta de realidade"
* Sensação de desmaio
* Medo de morrer, enlouquecer ou perder o controle
Nessa hora, não há muita coisa a ser feita. Quem estiver ao lado de uma pessoa em plena crise não pode fazer muito a não ser tentar garantir à pessoa que aquela sensação vai passar logo. Tentar convencê-la que não existe perigo não adianta, porque para ela, o medo durante a crise é real, dominador e incapacitante. Não é imaginário, embora não represente uma ameaça à vida.
Medo de água
Um jovem estudante de educação física de 23 anos, foi colocado à prova durante uma aula de natação do seu curso. O rapaz sempre teve medo de mergulhar mas diante daquela situação sentiu um medo muito mais intenso.
"Estava à beira da piscina, mas a ansiedade era tão grande que só pensava em fugir. Tive um ataque de pânico e falei ao professor que não faria os exercícios", diz. Para não perder o curso por medo de entrar na água, o jovem começou um tratamento de terapia-cognitivo-comportamental e já pode encostar o rosto na pia do banheiro. Logo depois virá uma fase onde ele poderá colocar a cabeça num tanque de lavar roupa.
Fonte: Revista Isto É