Álcool e drogas causam 50% dos acidentes
Texto: Rogério Louro/Auto Press
O pior condutor alcoolizado não é o que costuma beber, mas aquele que bebe apenas de vez em quando, em datas especiais
O Carnaval contagia grande parte dos brasileiros. Para o trânsito, isso representa dois perigos: além da alegria normal dos dias de festa, ainda há o reforço de euforia encontrado em doses generosas de bebidas alcoólicas e drogas. A injeção de ânimo químico, conciliada com a condução de um veículo, pode acabar transformando a festa em desastre. Com o novo Código Nacional de Trânsito, com a promessa de punições e multas pesadas, até fez alguns motoristas evitarem álcool e drogas. Mas, seguindo uma tradição brasileira tão antiga quanto o Carnaval, esta parte da lei "não pegou" e o temor já não é mais o mesmo.
"Não sei de nenhum motorista bêbado ter sido processado, como previsto na lei. O código não está sendo cumprido e as pessoas sabem disso", lamenta Roberto Scaringella, presidente do Instituto Nacional de Segurança no Trânsito. A média internacional de acidentes causados por ingestão de álcool e drogas varia de 35%, nos países mais rígidos como a Inglaterra, a 50%, em povos mais etílicos como o alemão. No Brasil, não se sabe nem quantos acidentes são provocados por substâncias tóxicas. Mas há a agravante de a lei não ser aplicada corretamente, a ponto do bafômetro ser um objeto raro. Os especialistas preferem ser otimistas e atribuírem ao Brasil a mesma média de 50%.
No papel, a lei brasileira proíbe a condução de veículos sob o efeito de drogas e de uma dose superior a 0,6 mg de álcool por litro de sangue. Segundo o médico Júlio César de Figueiredo, presidente do Anjos do Asfalto, isso equivale, numa pessoa de 70 kg, a beber ou três latas de cerveja, ou três doses de uísque, ou três taças de vinho. Quem ultrapassa este limite receberia multa de 900 UFIRs - R$ 958 -, levaria sete pontos no prontuário e ainda poderia ter a carteira apreendida e até ser processado. Só que a dosagem que leva à embriaguez varia de pessoa para pessoa. "A mesma dose pode causar reações distintas em pessoas diferentes", explica o psicólogo Salomão Rabinovich, presidente do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito.
O efeito varia também com a massa muscular do motorista, se ele comeu algo ou não, pelo estado de espírito e até pelo hábito de beber. O pior condutor alcoolizado não seria o que costuma beber, mas quem bebe apenas de vez em quando - e o Carnaval é uma época em que incursões esporádicas à bebedeira ocorrem mais. "O alcoólatra costumeiro já tem formas de lidar melhor com a bebedeira, mas a pessoa que bebe uma vez ou outra sofre mais os sintomas", afirma Fabio Racy, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Abramet.
O excesso de álcool no organismo, considerado pelos médicos o maior "vilão" nos acidentes, faz o motorista passar por três fases. A primeira é a euforia, que dá a sensação de poder e o torna confiante.
"A pessoa perde o medo", analisa o médico Alberto Sabbag, coordenador de cursos de capacitação para médicos examinadores de Detrans de Minas Gerais. Depois vem a confusão mental, que reduz o raciocínio e a autocrítica. A fase final é a depressão, que provoca cansaço, desatenção e sono. Normalmente, um motorista com mais de 0,6 mg/l de álcool no organismo demora mais de 2,5 segundos para ter uma reação, o dobro do tempo que o mais lento dos sóbrios leva para reagir.
Entre as drogas, as reações são diversas. A cocaína, segundo os médicos, age com mais intensidade que o álcool, mas apenas nas fases de euforia e depressão. Já maconha, ecstasy e crack se concentram na fase de confusão mental e prejudicam o senso de orientação. Uma droga típica de Carnaval, o lança perfume, cria euforia, porém tem duração curta. "O maior problema
é que as drogas quase sempre são consumidas com outras drogas ou álcool e potencializam o efeito", alerta Fabio Racy, da Abramet.
É a mistura de substâncias, anfetaminas e álcool, que cria uma droga comum entre os caminhoneiros: o rebite. O rebite serve como estimulante e evita que o motorista sinta sono ou cansaço. Só que, quando o efeito passa, todo o sono acumulado cai como uma pedra sobre o motorista, num verdadeiro ataque de sono.
Prova complicada
A tarefa de comprovar se um motorista está dirigindo bêbado ou drogado é mais complicada do que mandá-lo fazer um "4" com as pernas ou sentir seu bafo. A melhor maneira para saber qual a quantidade de álcool ou drogas uma pessoa tem no organismo é o exame de sangue, mas normalmente isso só é possível se a polícia prende o suspeito e o leva para um laboratório.
No caso do álcool, porém, a medição também pode ser feita pelos bafômetros, que avaliam a presença da substância pelo ar que sai dos pulmões. Os bafômetros mais comuns e baratos são os etilotestes. Eles funcionam através de reações químicas e são considerados pelos especialistas muito imprecisos e, por isso, não podem nem ser utilizados como prova judicial, caso queira se processar um motorista alcoolizado.
Mas existem bafômetros mais modernos e capazes de detectar com 99% de precisão a quantidade de álcool no organismo: os etilômetros. Estes aparelhos usam sensores eletrônicos sensíveis na medição do ar expelido pelo motorista, mas são caros e, no Brasil, pouco utilizados.
Já para constatar o uso de drogas, por enquanto, a única forma de ter precisão no resultado é o exame de sangue. Contudo, na Europa e Estados Unidos, está em teste um aparelho portátil, como um bafômetro, que consegue detectar o uso de maconha, cocaína, morfina e anfetamina através do suor ou saliva do usuário. O resultado sai na hora, sem necessidade de se esperar os demorados testes de laboratórios. O grande problema é que drogas como ecstasy e crack não são detectadas pelo aparelho.