07 de julho de 2026
Geral

Amor

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Amor platônico

Texto: Gustavo Cândido

Ficar olhando à distância, suspirar quando fala com ele ou ela, perder a calma e ser excessivamente atenciosa

(o) com o objeto do seu desejo. Esses são alguns dos sintomas de quem vive um amor platônico. Muito comum na adolescência, onde as emoções estão mais afloradas, esse tipo de sentimento também está presente, de uma maneira não muito positiva, na vida de muitos adultos, que preferem admirar de longe um pessoa e alimentar sonhos, para suprir suas carências afetivas, do que viver a vida real.

O filósofo grego Platão (de onde se origina o termo platônico), considera a paixão como uma qualidade inata nas almas de todos os seres humanos. Para ele este sentimento brota nas almas porque elas ficam desejosas de unir-se a alguma coisa bela e considera o verdadeiro amor o nascido de uma alma que busca o belo e o bem. Desta forma, para o mestre grego, o amor é o que conduz cada alma para a natureza do bem.

O amor platônico, explica a psicóloga Elaine Olmo, pode ser definido como aquele amor idealizado, ou seja, que está na nossa imaginação, que é sublime, está no mais alto grau de perfeição e é desprovido de interesses físicos. É inocente e puro e não pode se unir a um corpo. "Concluindo, o amor platônico

é um sentimento vivido intensamente sem que a pessoa amada possa compartilhar", diz a psicóloga, "a pessoa que ama assim não consegue diferenciar a realidade da fantasia", completa.

É assim que a dona de casa Clarice* (leia no boxe o seu depoimento) se sentia em casa quando vê o seu "amor", na televisão. "Às vezes vejo ele dando entrevistas e falando coisas como se estivesse falando comigo ou para mim. Por um minutos fico impressionada, mas sei que isso é loucura", admite.

Timidez e solidão

Na realidade não é uma loucura. O amor platônico, geralmente acontece para as pessoas na adolescência, quando elas vivem todos os sentimentos ao extremo, entregam-se aos pensamentos e criam fantasias. De acordo com Elaine Olmo, as pessoas que vivem esse tipo de sentimento são pessoas tímidas, que não possuem muitos amigos e passam a maior parte do tempo isoladas. "Como não conseguem obter carinho e atenção suficientes, buscam fantasias e consolo para as suas necessidades afetivas, procurando, diante de uma realidade insatisfatória, preencher o vazio interior através da fantasia", diz a psicóloga.

Geralmente são pessoas com baixa auto-estima, carentes de afeto, que não conquistaram maturidade emocional. "Essas pessoas não conseguem por para fora os seus sentimentos e, como não conseguem estabelecer vínculos muito profundos com as pessoas, tornam-se frustradas", explica Elaine Olmo.

Platônico virtual

O amor platônico tende a ser um sentimento repentino, que surge de forma intensa e acaba da mesma maneira. Não há um período de tempo específico para a sua duração. Em cada caso, depende do grau de amadurecimento emocional de quem está vivendo a situação. Quando passa da adolescência para a fase adulta, o amor platônico pode se tornar um problema mais preocupante, porque a pessoa tende a viver mais num mundo fantasioso do que real e pode, a qualquer momento, se chocar com a vida real e cair num profundo desapontamento.

"Demorei para perceber o quanto tinha perdido de ficar o tempo todo imaginando uma situação que nunca ia se tornar realidade. Continuo a admirar minha ex-paixão como antes, porque ela ainda é uma mulher maravilhosa, mas agora, sem fantasias", revela o professor Antonio Costa

*, que hoje se classifica como platônico virtual e de vez em quando dá "umas namoradinhas", pela Internet.

* Os nomes dos entrevistados foram alterados para que o seus amores continuem a ser apenas platônicos

Depoimentos platônicos

"Sou amigo de Alessandra* há uns cinco anos, Comecei achando-a só uma mulher bonita, mas não demorou muito para perceber que ela representava muito mais para mim. Durante esses anos todo tenho me mantido por perto, como amigo fiel. Ela já namorou alguns caras mas hoje está sozinha. Para mim isso não faz diferença, porque acho que nunca vou me declarar e dizer que a amo há tanto tempo. Tenho medo de que ela não retribua o meu sentimento e que isso acabe com a nossa amizade. Prefiro a garantia de tê-la como amiga, mesmo que só para admirar"

Carlos Alberto *, 23 anos, auxiliar administrativo

"Sou completamente apaixonada por um colega de trabalho desde que o conheci. Acho que ele nem desconfia, mesmo que algumas vezes ele fique sem graça com a maneira que eu o olho. Ele é um homem bonito e inteligente demais, vive sendo paquerado por todas as meninas do escritório e não sei se prestaria atenção em mim. Essa novela já tem quase dois anos e acho que vai durar ainda mais porque não vou me declarar"

Suzana *, 21 anos, secretária

"Acho que nem sempre dá para dizer a uma pessoa o que se sente por ela, por isso já tive muitos relacionamentos platônicos e continuo tendo vários, inclusive com algumas amigas próximas. Esse tipo de sentimento não me faz mal, é claro que se as coisas "dessem certo" poderia ser melhor, mas não vou arriscar"

Paulo*, 26 anos, estudante universitário

"Tenho uma admiração muito grande por um ator de televisão que acompanho há uns vinte anos. Ele sempre faz papéis de homens íntegros e honestos, além de ser bonito. É a imagem do homem ideal. Até já escrevi para ele e recebi uma foto autografada. Posso dizer que sou apaixonada por ele, mas sei que não vou conhecê-lo de verdade"

Clarice* , 54 anos, dona de casa

Para viver um grande amor

A psicóloga Elaine Olmo explica que a capacidade de amar

é de todos e promove a interação entre alma, mente e corpo. Mas amar plenamente não é uma coisa exatamente fácil. "É necessário ter boa condição interna para viver um sentimento estável, que mantenha carinho e respeito mútuo. O amor não pode vir acompanhado de auto-abandono, de anulação, pelo contrário é necessário ter uma auto-estima preservada, para esperar o momento ideal para estar junto. Quem consegue deixar o amor fluir naturalmente, preservando a lucidez e o bom senso, jamais será ansioso na sua relação.

Para amar é necessário ter boa condição interna, quem não se abre, acaba bloqueando seu processo evolutivo, portanto a integração desde cedo, dos familiares com a criança, ou seja, a troca de afeto na relação deve ser uma constante para que a criança possa desenvolver-se emocionalmente de maneira saudável. O modelo de relação familiar que a criança presencia estará influenciando na sua formação emocional.

Dependendo de como foi o desenvolvimento na infância e de como elaborou a passagem para adolescência, implicará num relacionamento saudável ou não.

Dificilmente as pessoas conseguirão libertar-se sozinhas dos problemas de relacionamento na infância e dificilmente serão superados sem ajuda profissional para que seja feito um levantamento da história de vida da pessoa, analisando suas mágoas e carências. A partir do momento que conseguir transpor suas carências e desprender-se de tudo o que houve de desagradável nos relacionamentos passados, terá na bagagem afetiva, a capacidade de amar e se relacionar", explica a psicóloga.