07 de julho de 2026
Geral

Linguagem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

A linguagem do amor

Texto: Gustavo Cândido

Fofura, benzinho, amoreco, filhinho, baby. Quantas vezes você não ficou prestando atenção na conversa daquele casal ao seu lado por causa da maneira como eles se tratavam? Criar uma linguagem particular com uma pessoa (ou animal de estimação) que se gosta muito é um comportamento muito comum para a maioria das pessoas. Muitas vezes engraçada, essa linguagem afetiva bastante particular pode trazer intimidade e demonstrar o tamanho do sentimento que uma pessoa tem pela outra.

Namorados há três anos, a vendedora Sônia Ribeiro e o estudante Cássio da Silva Pereira têm uma maneira muito particular de se tratar. "Eu o chamo de 'Fô', que na verdade é um diminutivo de fofo e ele me chama de

'Ca', que vem de 'catinha', que vem de gatinha, só que com cat, por causa do inglês", explica Sônia. Tentar entender a origem dos nomes pelos quais os casais se chamam não é tarefa fácil. Isso porque até chegarem ao nome definitivo que vão usar para se tratarem em particular (ou não), os casais passam por várias

"experiências", como conta Sônia: "antes chamava o Cássio de 'Amor' ou 'Amoreco', também já chamei de 'Paixão', até chegar ao apelido de hoje, que tem mais a ver com a nossa história".

Juntos há 1 ano e meio, Tatiana Gebara e Ricardo Fernandes não se chamam por nomes especiais, mas por apelidos, "ele me chama de 'Tati' e eu o chamo de 'Cado' ", conta Tatiana. Um detalhe na comunicação, porém, se assemelha a todos os outros casos em que a linguagem afetiva se estabelece: existe uma mudança na tonalidade, na altura e na velocidade da voz quando os dois se tratam. "Sinto que falo com ele de uma maneira mais doce, mais carinhosa", diz Tatiana.

"É engraçado porque é muito natural, quase inconsciente, mas quando falo com a minha namorada, mesmo que por telefone, sinto que falo com uma voz diferente, mais suave, como se eu estivesse falando com uma criança", conta Alberto Zacarias, "as pessoas que me ouvem falar ao telefone em casa até sabem quando estou com a minha namorada do outro lado da linha", revela. Alberto chama sua namorada Andréia de 'Chuchuzinho' e ela o chama de 'Amor'.

Cuti cuti

A mudança de voz e o uso de nomes particulares para se referir a bebês e crianças também é muito comum. "Chamo minha filha Laira Carolina de 'Carola' ou 'Botãozinho', o meu filho Lucas, de 'Fofinho' ou 'Gordinho'", conta a auxiliar de enfermagem Juliana da Silva. O marido, Esdras, ela chama de 'Moreco'. A maneira com que fala para os três, segundo Juliana, é sempre mais carinhosa do que o normal, com outras pessoas.

"É inevitável, quando vejo uma criança já começo a falar diferente e a chamá-la também de outra forma, não importa o nome ou o sexo dela", conta a estudante Patricia Cury, "geralmente as chamo de 'benzinho' ou qualquer coisa sem sentido como 'cuti cuti'. Parando para pensar é engraçado, até ridículo...", diz.

Mundo animal

Outra situação onde a linguagem afetiva se manifesta

é no relacionamento dos donos com os seus animais de estimação, ou animais em geral. Segundo auxiliar administrativo e estudante universitário Leandro Garcia, o seu respeito pelo animais

é tão grande que os trata como iguais e isso inclui a maneira de falar. "Já me peguei chamando cachorro vira-lata de 'filho'", revela Garcia, que não tem nenhum animal de estimação em Bauru porque mora em uma república, mas tem dois cães na sua cidade natal, Ribeirão Pires.

"Chamo o meu boxer Schiruder de 'menininho'", afirma a vendedora interna Flávia da Silveira Barbosa. "Trato ele como se fosse uma criança, inclusive mudo a minha maneira de falar. Acho que é porque ele preenche um espaço, o meu desejo de ter um filho", explica.

Silmara Carvalho da Silva também muda sua forma de falar com Tampinha, seu cachorrinho. "Falo como se ele fosse um nenê", diz. É também de "Nenê", que ela o chama ao invés de falar o nome, "é mais bonitinho", acredita.

Contratos secretos

A psicóloga, profª. Marilene Krom, afirma que as pessoas começarem a desenvolver um estilo de comunicação próprio, um com o outro, é uma maneira de criar uma maior proximidade, uma intimidade. Essa linguagem, segundo a psicóloga, surge quando as pessoas começam a criar um vínculo afetivo entre elas. "As pessoas criam um jeito próprio de falar e ser entendido e esse jeito fortalece os vínculos entre elas, cria um laço que as une", observa. Esse laço fica mais forte a medida que existe uma troca recíproca de afetividade.

A profª. Marilene Krom salienta que como as pessoas estão em constante interação com as outras, a maneira como elas se comunicam acabam transmitindo o que elas sentem umas pelas outras. "Por exemplo, os apelidos que se dão, têm muito a ver com o significado que tem a relação. Se você chama o seu cachorro de 'meu nenê', mostra a necessidade que você tem de proteger e de cuidar dele. Se você chama o seu namorado de gatão, está salientando o fato de achar que ele é carinhoso, manhoso. O que você está falando para o seu parceiro tem muito a ver com o que você valoriza na relação,

é um sinalizador do que pensa sobre ele", explica.

"Essa comunicação no relacionamento está relacionada aos contratos secretos que se estabelecem no início do relacionamento", afirma Marilene Krom. Por contratos secretos, a psicóloga entende o processo de aceitação e aproximação das duas pessoas que levam a conclusões iniciais do que vai ser a relação dali para frente.

"Elas vêem no que um vai responder as expectativas do outro e a partir desse conhecimento inicial é estabelecem alguns acordos internos, até mesmo sem que as pessoas percebam e um desses acordos é a forma como elas vão se comunicar afetivamente", afirma a psicóloga. Na opinião da psicóloga não é possível afirmar se esse tipo de comunicação é mais positiva do que negativa, mas ela acredita que se trata de um aspecto importante dentro de uma relacionamento.

Os campeões entre os casais

Veja as formas mais comuns de se referir ao parceiro (a) entre os casais entrevistados:

* Amor (e suas variações: amore, amoreco, amorzinho)

* Paixão

* Bem, benzinho

* Chuchu, chuchuzinho

* Fofo (a)

* Outros apelidos com o diminutivo do nome do parceiro