08 de julho de 2026
Geral

Agricultura

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 9 min

Agronegócio vai incrementar interior

Texto: Fábio Grellet

Essa é a opinião do secretário estadual da Agricultura, João Carlos Meirelles, que esteve na região anunciando projetos do governo

Ao invés de simplesmente cultivar um produto agrícola e vender, depois, como matéria-prima, fora do município

(às vezes, até no exterior), o ideal é organizar uma estrutura que permita industrializar e comercializar esse produto na própria cidade ou em sua região: essa

é a proposta que o secretário estadual da Agricultura, José Carlos de Souza Meirelles, trouxe à região, durante visita realizada na última quinta-feira. Alçada a grande meta do governador Mário Covas (PSDB) no setor agrícola, durante seu segundo mandato, a industrialização dos produtos agrícolas nas próprias cidades em que são cultivados é a forma ideal, conforme o secretário, de revigorar a economia do interior do Estado - que, ao todo, possui 645 municípios, dos quais cerca de 500 (77,5%) encontram na agricultura sua principal fonte de renda (curiosamente, segundo o secretário, cada um deles dedica em média apenas 1% de seu orçamento para projetos na zona rural). Apenas um dado estatístico já seria suficiente para comprovar que os planos do governo nesse setor atendem à expectativa mais promissora: em 1998, a agropecuária gerou R$ 68 bilhões do Produto Interno Bruto brasileiro (que engloba todas as riquezas produzidas pelo País durante o ano). Enquanto isso, o agronegócio

(ou seja, o produto agrícola industrializado) gerou R$ 290 bilhões. Esse valor surgiu a partir da transformação dos produtos agrícolas - portanto, as empresas responsáveis por esta industrialização compraram as matérias-primas por R$ 68 bilhões e, depois de transformá-las, venderam por R$ 290 bilhões (uma valorização de mais de 300%).

Para o secretário da Agricultura, organizando uma estrutura própria capaz de industrializar seus produtos agrícolas, os agricultores poderiam absorver ao menos parte dessa valorização. Por isso, o governo está incentivando a organização de cooperativas entre produtores da mesma matéria-prima. Segundo Meirelles, a Nossa Caixa e o Banco do Brasil já oferecem linhas de crédito aos agricultores, que podem ainda conseguir financiamento para a organização de agroindústrias através do Feape (Fundo de Expansão da Agricultura e da Pesca). Também é possível solicitar à Secretaria da Agricultura o treinamento em atividades de plantio ou industrialização dos produtos agrícolas (através de um projeto desenvolvido em parceria com o Sebrae, o Sistema Agroindustrial Integrado) e o desenvolvimento de estudos para indicar a melhor forma de aproveitar um cultivo. Assim, por exemplo, plantadores de mandioca vão receber do governo um estudo indicando qual é a forma industrializada dela que dispõe de maior demanda no mercado. E, também, devem ganhar um estudo que indique como aproveitar a casca do produto, evitando que seu destino seja o lixo.

Visita à região

Na última quinta-feira, o secretário permaneceu na região durante todo o dia: pela manhã, esteve em Dois Córregos, onde, acompanhado pelo prefeito João Maziero, esteve visitando áreas ocupadas pelo plantio de café. "Agricultura é uma atividade que não se pode dirigir de longe. É preciso conhecer a realizada da zona rural, visitar e conversar com agricultores", disse, explicando um dos motivos de sua visita. Meirelles ouviu as reivindicações de alguns agricultores e se comprometeu a auxiliar, através dos órgãos governamentais, a criação de uma torrefação no município: "Eu quero vir a Dois Córregos, entrar num bar e beber café cultivado no município. A população tem potencial para consumir ao menos parte da produção e, se a matéria-prima for transformada na própria cidade, vai criar uma série de novos empregos: além da torrefação, a atividade vai exigir uma pequena fábrica de embalagens, outra fábrica de rótulos, pequenas indústrias que acabam movimentando a economia da cidade e incentivando seu desenvolvimento", explicou o secretário. Essa atividade econômica "é a única forma", segundo Meirelles, "de manter nossos filhos nas cidades onde nasceram e cresceram, evitando que eles precisem buscar empregos nas metrópoles".

Após visitar Dois Córregos, Meirelles esteve em Jaú, onde foi recebido pelo prefeito Paulo Sérgio Almeida Leite. Durante essa passagem, o secretário ressaltou a importância de se evitar a monocultura (cultivo de um

único produto numa região extensa). Uma pesquisa da Secretaria da Agricultura indica que as regiões mais ricas do Estado são aquelas onde há diversidade de culturas. Isso evita que a queda do preço de um produto, no mercado nacional ou mundial, acarrete prejuízos gerais, porque a venda dos outros produtos cultivados compensa as perdas. Na região de Jaú, por exemplo, 63% da área cultivada é ocupada pela cana-de-açúcar, o que faz a economia depender do preço obtido pela comercialização dela. Quando o setor enfrenta crises - como a que se verificou no ano passado e perdura, embora com menos intensidade, até hoje -, toda a economia sofre as consequências - desemprego, criminalidade, aumento de gastos das Prefeituras, obrigadas a oferecer subsídios às famílias carentes, entre outras. Além de Jaú, diversos outros municípios da região sofrem com a monocultura - Pederneiras, Macatuba, Boracéia e Lençóis Paulista, por exemplo. Em todos eles, a indústria e especialmente o comércio sobrevivem em função do dinheiro gerado pela agricultura. Quando esse setor entra em crise, acabam mergulhados nela, também, a indústria e o comércio. Segundo o secretário, cabe aos agricultores se conscientizarem sobre a necessidade de diversificar o cultivo. Meirelles aposta na atividade dos Conselhos Agrícolas Municipais e Regionais para que seja iniciada essa mudança de conceitos: "Vamos incentivar a atuação dos Conselhos, para que eles se tornem fundamentais na definição da política agrícola de uma cidade ou região", disse. Para o prefeito de Jaú, Paulo Sérgio Almeida Leite, a monocultura é um hábito arraigado, que demanda muito esforço para ser alterado: "O cultivo de um só produto agrícola é um dado histórico: Jaú foi dominada pelo café, no início do século, e agora é a cana que ocupa o maior espaço. O café está voltando a ocupar um espaço, ainda pequeno, mas é preciso evitar que, com a crise da cana, não ocorra uma substituição em massa da cana pelo café. O ideal é criar e manter a diversidade, e os Conselhos de Agricultura são fundamentais para mostrar essa necessidade ao agricultor", disse.

Bariri

À tarde, o secretário esteve em Bariri, onde se reuniu com prefeitos de 15 municípios da região

- Agudos, Arealva, Bariri, Bocaina, Boracéia, Borebi, Brotas, Dois Córregos, Itaju, Itapuí, Jaú, Macatuba, Paulistânia, Tabatinga e Torrinha -, além de agricultores em geral, para discutir em quais setores da agroindústria a região deve investir. Durante o evento, Meirelles anunciou que o governo vai ceder máquinas agrícolas, para conservação de estradas rurais, aos municípios que se organizarem em grupos de seis. A cada consórcio, depois de organizado através da aprovação das Câmara Municipais dos seis municípios envolvidos, será concedido, para pagar em 50 meses sem correção monetária, um trator de esteiras, uma motoniveladora, uma pá-carregadeira e uma retroescavadeira. Os conjuntos, avaliados em R$ 500 mil cada um, vão começar a ser entregues aos municípios a partir de junho. O dinheiro pago pelos municípios vai compor um crédito rotativo: será guardado numa conta específica que, quando alcançar um saldo mínimo estipulado pelo governo, vai permitir que o dinheiro seja reutilizado pelos municípios, para aquisição de novas máquinas e desenvolvimento de outros projetos. Cada município vai poder utilizar as máquinas durante aproximadamente dois meses por ano (já que serão envolvidas seis cidades), definidos a critério de cada consórcio.

Os municípios vão ganhar pontes metálicas, para substituir aquelas de madeira, bastante frágeis mas ainda bastante usadas nas estradas rurais. As primeiras 200 pontes estão sendo construídas pela Cosipa, em Cubatão

(Baixada Santista) e devem ser entregues aos municípios entre abril e maio. Caberá aos municípios fazer apenas a cabeceira das pontes, onde elas serão encaixadas.

Campo foi abandonado nos últimos 50 anos, diz secretário

Ao propor incentivos ao agronegócio, o secretário estadual da Agricultura lembrou também que, nos últimos 50 anos, a atividade foi conduzida a segundo plano, porque predominava a concepção de que as cidades, especialmente as metrópoles, ofereceriam o melhor futuro para todos. Assim, o campo foi abandonado e as pessoas se mudaram para as cidades grandes, onde pretendiam se estabelecer, desfrutar de maior conforto e, se possível, conquistar riquezas. Esqueceram-se, porém, de que o Brasil tem vocação agrícola - como já destacava Pero Vaz de Caminha, que escreveu ao rei de Portugal, contando sobre o descobrimento: É uma terra em que, "se plantando, tudo dá". Países como o Japão e os tigres asiáticos se especializaram em desenvolver tecnologia para produtos eletro-eletrônicos até em razão da escassez de áreas cultiváveis

- a extensão deles é reduzida (ao contrário do Brasil, um país continental) e tem terras improdutivas. Ao Brasil, se não consegue alcançar o desenvolvimento de outros países nesse setor tecnológico, cabe explorar sua principal riqueza - a terra produtiva. O País sofre, porém, porque não se organizou o suficiente para industrializar sua produção agrícola. Como matéria-prima, os cultivos são muito pouco valorizados. Porém, quando se transformam, recebem preços bastante atrativos para quem os vende. As grandes indústrias de transformação dos produtos agrícolas, porém,

é que colhem os frutos dessa valorização

- um valor bastante alto, que se distribui entre poucos. Se os próprios produtores se organizassem entre si e conseguissem organizar uma estrutura para industrializar seus produtos, conseguiriam melhores preços e os lucros seriam distribuídos entre todos. Além disso, essa industrialização geraria uma reação em cadeia - fomentando a criação de empresas de embalagens e rótulos, por exemplo, e movimentando a economia dos pequenos municípios. Assim, como destacou o secretário Meirelles, o agronegócio é a melhor opção para se gerar empregos, atualmente.

Prefeita de Tabatinga alerta para concorrência

Contrastando com o otimismo exposto pelo secretário da Agricultura quanto ao futuro do agronegócio, a prefeita de Tabatinga, Mariângela Marquesi Costa Roque, demonstrou dúvidas quanto à possibilidade das agroindústrias organizadas pelos produtores rurais obterem sucesso. Em Tabatinga predomina o cultivo da laranja, e muitos agricultores já tentaram comercializar o produto (muitas vezes já industrializado) no comércio local e regional. Mas, segundo ela, quando aparece uma empresa multinacional fazendo concorrência, não há como competir. Ela citou o exemplo da venda de suco de laranja: um estabelecimento que vende suco produzido em Tabatinga deixa de registrar procura por ele quando a Parmalat resolve oferecer uma promoção do mesmo produto. Infinitamente mais capitalizada, a multinacional dispõe de condições para derrubar o preço do suco e acaba arruinando as pretensões do pequeno grupo de agroindustriais. Por isso, é necessário definir muito bem o produto agrícola a ser industrializado, qual será o produto final e quanto vai custar a atividade produtiva.