Ciência ajuda atletas a alcançar a "idade do lobo"
A ciência está ajudando os esportistas a superar a barreira do tempo. Com o desenvolvimento da medicina esportiva, nutrição e fisiologia, os avanços das técnicas de cirurgia, além da modernização dos artigos esportivos, muitos atletas estão conseguindo prolongar a carreira vencendo, até mesmo, a massacrante carga de exercícios e jogos competitivos. São os astros na
"idade do lobo".
Exemplos como os do zagueiro Mauro Galvão, de 38 anos, que na quarta-feira completou 1.002 partidas como jogador profissional, ou do alemão Lothar Matthaeus, também aos 38 anos recordista mundial de atuações por uma seleção nacional, com 144 partidas, tendem a tornar-se cada vez mais comuns.
A longevidade não se restringe só ao futebol. No vôlei, o atacante Carlão, de 34 anos, prepara-se para disputar sua quarta olimpíada como titular da seleção brasileira. Oscar Schmidt, astro do basquete, continua sendo o melhor jogador do país. Está com 42 anos e garante que joga até os 50. O nadador Rogério Romero alcançou o auge da forma aos 30 anos, quase o dobro da idade do maior astro da natação mundial, o australiano Ian Thorpe.
Receita
O fisiologista Renato Lotufo, da seleção brasileira e do Corinthians, atribui a longa vida útil de um esportista a quatro fatores: herança genética, dedicação aos treinos e à chamada "vida regrada", alta qualidade técnica, que pode superar uma queda no desempenho físico, e um pouco de sorte para conseguir passar por toda a carreira sem uma grave lesão. No último caso, os avanços nas técnicas de cirurgia e fisioterapia ajudam a diminuir o problema.
"Nos últimos dez anos, tivemos um grande avanço da medicina esportiva", destaca Lotufo. "Hoje, o atleta conta com uma série de cuidados que o ajuda a prolongar a carreira." O avanço das técnicas de cirurgia
é um desses ganhos dos esportistas.
Aos 18 anos, o ex-centroavante Reinaldo já tinha sofrido duas intervenções cirúrgicas. Teve de parar de jogar aos 30 anos. "Com o desenvolvimento da técnica de artroscopia, a cirurgia de menisco que o Reinaldo sofreu ficou mais simples e menos traumática", explica Lotufo. Esse desenvolvimento dá esperanças a Ronaldo, que se recupera de uma delicada operação no joelho. Com dedicação aos trabalhos de fisioterapia e acompanhamento da ciência, Ronaldo tem chances de passar mais de uma década dentro de campo.
Cuidados
A rotina de um atleta vai além das horas de treinos e das competições. A alimentação é preparada com a supervisão de nutricionistas e incrementada com vitaminas, proteínas, cápsulas de aminoácidos e carboidratos. Periodicamente, o esportista é submetido a exames de laboratório, avaliação física, controle de peso e taxa de gordura no organismo. O treinamento agora é individualizado: a idade do atleta está diretamente relacionada ao nível de esforço exigido nos exercícios.
A qualidade do material esportivo também evoluiu. Os tênis e as novas tornozeleiras são projetados para absorver melhor o impacto. Os modernos pisos das quadras de vôlei e basquete e das pistas de atletismo também poupam as articulações dos atletas. Tudo para dar vida mais longa aos grandes esportistas.
Craques tentam derrubar o tabu contra veteranos
O goleiro Hélton ainda usava fraldas quando Mauro Galvão conquistou o título brasileiro pelo Internacional, em 1979. Nem por isso o experiente zagueiro do Vasco sente-se um veterano toda vez que entra em campo e olha para o menino que está no gol. Para ele, idade não importa, o que vale é o desempenho e a dedicação do jogador em campo. Aos 38 anos, mais de mil jogos como profissional, Mauro Galvão está ajudando a derrubar o tabu que imperava no futebol, rotulando o atleta que passava dos 30 de "jogador em fim de carreira".
O segredo para estar sempre em forma, segundo Mauro Galvão,
é simples: dedicação aos treinos, boa alimentação, cuidados para evitar exageros na bebida, dormir cedo, evitar badalações, enfim
tomar conta do corpo, que é seu principal instrumento de trabalho. Galvão esperava que seu exemplo contagiasse o técnico da seleção brasileira, Wanderley Luxemburgo, mas o zagueiro tem consciência de que, como não foi convocado nos últimos anos, não deverá disputar as eliminatórias para a Copa do Mundo.
"O que deve ser analisado é o desempenho do jogador, não importa se tem 38 ou 20 anos", argumenta Mauro Galvão. Dificilmente será ele quem vai derrubar o tabu da idade na seleção brasileira.
Em outros países, os exemplos não faltam. O italiano Dino Zoff foi campeão mundial em 1982 como goleiro. Tinha 40 anos. O atacante Roger Milla brilhou na seleção de Camarões até os 42 anos. Na semana passada, o alemão Lothar Matthaeus, de 38 anos, tornou-se o jogador com maior número de participações em uma equipe nacional: 144 jogos por uma das mais importantes seleções do mundo. Matthaeus deverá aumentar essa marca com sua quase certa participação na Eurocopa, em junho.
Desconfiança
Um dos grandes desafios para o jogador de idade mais avançada
é vencer as desconfianças. "Quando começam a falar que você está velho, tiram todo o seu estímulo", comenta o ex-jogador Júnior, que atuou profissionalmente até os 39 anos e hoje, aos 45, é o maior astro do futebol de areia.
Ele explica que sua formação na praia deu a ele uma base muscular que o ajudou a ter vida longa no futebol. Mas os cuidados eram imprescindíveis. "Nunca deixei de ir ao samba e tomar uma cervejinha, mas sempre procurei ter uma vida regrada e era sempre o primeiro a puxar as filas nos treinos", orgulha-se o novo 'Rei da Praia'.
Júnior foi campeão brasileiro com o Flamengo em 1992, quando tinha 38 anos. Jogou por mais um ano, mas um dia notou que já não tinha a velocidade de antes para acompanhar os garotos. "Foi então que percebi que era a hora de parar e abrir espaço para os mais novos", comenta Júnior. "Chega uma hora que não dá para ir contra a natureza."
Maior desafio dos ídolos é nunca perder a motivação
Os cuidados com o corpo não são suficientes para um atleta perpetuar-se no esporte: a mente precisa acompanhar a evolução. Manter a motivação para treinar e competir em alto nível durante 20 anos de carreira
é um desafio duríssimo para os atletas. Principalmente para quem já ficou rico, famoso e ganhou tudo o que disputou.
Como explicar, por exemplo, a dedicação de Oscar Schmidt, o maior ídolo do basquete nacional, que religiosamente comparece aos treinos do Flamengo e é sempre um dos últimos a deixar a quadra? Oscar tem 1.425 jogos oficiais, já marcou 43.444 pontos na carreira, disputou cinco olimpíadas, é o maior cestinha da história dos Jogos Olímpicos, enfim, o que ainda pode faltar?
"Quero ir muito mais longe e, quem, sabe, jogar até os 50 anos", afirma Oscar. "Meu sonho é um dia atuar ao lado do meu filho, Felipe, que está com 14 anos."
Ele lembra que, nos últimos anos, o profissionalismo no basquete nacional evoluiu, os jogadores puderam dedicar-se somente ao esporte e todos passaram a ter um cuidado ainda maior com o preparo físico. Isso explica a presença de uma verdadeira seleção de 'quarentões' nas equipes do Campeonato Brasileiro, como Maury, Israel, Paulinho Vilas Boas, Pipoca, Cadum e Chuí.
Gerações
No vôlei, os jogadores de maior nível técnico têm de saber administrar o desgaste de atuar pelo clube e pela seleção brasileira, que todos os anos tem uma temporada extenuante. O atacante Carlão é um dos raros exemplos de quem sobreviveu ao tempo.
Aos 34 anos, Carlão já passou por três gerações de jogadores. Começou atuando com William, Montanaro, Bernard e Renan. Foi campeão olímpico em 1992 com Tande, Giovane, Marcelo Negrão e Maurício. Agora, é o capitão do time que conta com os jovens Nalbert, Giba e Gustavo.
"Sempre tive cabeça boa e procuro acompanhar a nova geração"
explica Carlão. "A energia deles me contagia e aumenta a minha vontade de continuar jogando." O atacante espera ajudar o Brasil a conquistar uma medalha olímpica em Sydney. Depois, vai pensar se continua ou não na seleção.
Persistência
Se Carlão soube manter o alto rendimento ao longo de toda a carreira, o nadador Rogério Romero conseguiu chegar ao melhor da forma física e técnica com a maturidade. Especialista no nado de costas, Romero passou sete anos sem conseguir melhorar suas marcas. "É muito difícil para um atleta continuar treinando se os resultados não aparecem", conta Romero, que está na Flórida (EUA) fazendo a preparação para a Olimpíada.
Ele procurou variar seu treinamento para sair da rotina, corrigiu alguns erros que cometia e, no ano passado, as marcas começaram a melhorar. Romero foi o brasileiro com melhor desempenho na última Copa do Mundo, ganhando 9 medalhas em 12 etapas da competição.
É o quarto colocado no ranking mundial dos 200 metros, costas. Aos 30 anos, Rogério Romero é sempre um dos mais velhos a entrar na piscina. Ele não se importa com as brincadeiras e provocações dos outros nadadores. Sua melhor performance foi a oitava colocação nos 100 metros, costas, na Olimpíada de Seul, em 1988.
Agora, 12 anos depois, o nadador tem ambições maiores:
"Vou nadar com condições de alcançar o pódio".