08 de julho de 2026
Geral

Ferrovias

Tânia Fonseca
| Tempo de leitura: 8 min

Precariedade põe transporte em risco

Texto: Tânia Fonseca

Além dos constantes riscos de acidente ao longo da malha, o transporte também é outro item que deixa a desejar

As causas dos seguidos acidentes com trens, na malha ferroviária da Ferroban (antiga Fepasa) está num somatório de problemas que vão desde dormentes podres e trilhos sem alinhamentos a pontes e viadutos com estrutura abalada. A própria empresa admite essas falhas e até afirma que não pode pôr o transporte a toda prova justamente pela precariedade da malha que teria que ser recuperada antes. Segundo a empresa, existe um cronograma de obras a ser cumprido, mas os problemas seriam muitos.

A Ferroban assumiu a malha há um ano e, segundo a assessoria de comunicação da empresa, o estado da linha já era precário. Um cronograma de obras para a recuperação dos cerca de 4,2 mil quilômetros de trilhos existe, mas segundo a empresa, há ainda muita coisa a ser feita. "Quando assumimos, encontramos dois milhões e meio de dormentes podres. É muita coisa...É uma série de problemas que a ferrovia tem, porque ela ficou 30 anos sucateada", frisa a assessoria.

Para a região de Bauru, a Ferroban ainda não dispõe de um plano de investimentos para este ano. O plano estaria sendo fechado e só deve ser conhecido em maio. No ano passado, no trecho entre Campinas e Panorama, a empresa informa que trocou 25 mil dormentes, realizou 40 mil metros de correção geométrica (alinhamento do trilho com o solo), trocou cinco mil metros cúbicos de lastro (pedras que envolvem o leito), substituiu três mil metros de trilhos e capacitou 31 obras de arte (pontes e viadutos). Para tanto, segundo a empresa, foi feito um mapeamento e recuperou-se os trechos mais precários, embora muita coisa ainda ainda tem que ser feita para que o transporte ferroviário seja feito em segurança.

Essa precariedade ao longo do leito, além de grandes riscos de acidente, impede que a empresa coloque o transporte a todo vapor. Hoje, o fluxo de tráfego de cargueiros pelas linhas da Ferrobam é considerado baixo, principalmente nesta época de entressafra, sendo que o maior filão é o acúcar, que sai de Tupã. "Tirando isso, a gente tem pouquíssima coisa", informa a assessoria.

Não existe uma programação fixa para o tráfego de cargueiros já que os trens são fechados de acordo com a demanda do dia anterior ou da semana. Mas, só para se ter idéia, em época de safra (maio a novembro para o acúcar), apenas 70 mil toneladas/ano são transportadas. Na entressafra esse número é reduzido em pelo menos 20%. No caso de farelo de soja, são aproximadamente 90 mil toneladas/ano, também em época de safra (março a novembro). De soja, são cerca de 180 mil toneladas/ano.

"O que para a ferrovia não é um número considerado muito grande não", diz a empresa.

Até por conta da precariedade em que se encontram as linhas, a Ferrobam diz que não pode estar captando clientes potenciais.

"A gente tem planos de investimento sim, para todas as malhas da gente e com a recuperação vamos poder estar atraindo mais clientes. Às vezes, a gente até tem demanda, mas não temos condições de tráfego... Como diz o nosso presidente, a gente não pode parar a circulação de total e trocar todos os trilhos e dormentes. Temos que ir fazendo aos poucos para poder ter um pouco de tráfego, a ferrovia não ficar no vermelho", argumenta a assessoria.

Passageiro

Hoje, a Ferroban mantém apenas dois horários, por semana, de trens de passageiros fazendo a linha Campinas/Panorama. Eles saem de Campinas às quartas e sextas-feiras, às 9 horas, com previsão de chegada ao destino final às 21 horas. Também são mantidos dois horários fazendo o percurso inverso, com saídas de Panorama às quintas e sábados, com partidas às 9h35 e previsão de chegada às 22 horas.

Ontem, por causa do descarrilamento do trem de passageiros na tarde de anteontem, que ia de Campinas para Panorama, a mesma composição que faria a viagem de volta ontem não pode correr. Aliás, ela nem havia saído do local do acidente até o começo da tarde de ontem.

Sindicância

O acidente com o trem de passageiros aconteceu próximo a Gália e além de danos materiais, deixou dois dos seis passageiros feridos sem gravidade. Depois de atendidos no Hospital Samaritano de Garça, eles prosseguiram viagem, através de meio rodoviária, providenciado pela Ferroban.

A locomotiva que tracionava três vagões saiu dos trilhos por causa de uma pedra que estava sobre a linha. A Ferroban informou ontem que vai instaurar uma sindicância interna para apurar as reais causas dessa pedra na linha. A empresa quer saber se foi apenas mais um desmoronamento pela falta de manutenção no solo ou se foi alguma sabotagem.

Em menos de uma semana, foram quatro acidentes com trens na região. No último domingo dois vagões de um cargueiro transportando soja tombaram próximo a Avaí. Anteontem, mais dois saíram dos trilhos, um da Ferroban e outro da Novoeste. Ontem de madrugada, um cargueiro da Ferroban que ia para Araraquara descarrilo e interditou a rodovia W. Luís.

Vagões descarrilam e interditam pistas da Washington Luís

Dois vagões de um trem da Ferroban, carregados com 40 toneladas de calcário, descarrilaram no início da madrugada de ontem, perto de Ibaté. O trem seguia para Araraquara. Um dos vagões saiu dos trilhos e caiu no Km 259 da Rodovia Washington Luís. O outro ficou pendurado e foi cortado ao meio para a remoção. Das três faixas da rodovia, duas ficaram interditadas até as 17 horas de ontem, para a limpeza da pista. (AE)

Vereador reage contra dormentes podres

Texto: Nélson Gonçalves

José Eduardo Ávila (PPB) fez uma vistoria com a Defesa Civil na malha urbana. Dormentes apodrecem sem manutenção

O mau estado de conservação dos trilhos ferroviários colocam em risco uma parte da população urbana de Bauru. O alerta está sendo levantado pelo vereador José Eduardo Fernandes Ávila (PPB) que visitou um dos trechos prejudicados pela falta de manutenção, ontem, em Bauru. O vereador acompanhou a vistoria feita pelo representante da Defesa Civil do Município, Álvaro de Brito. Em apenas alguns metros da verificação, em plena zona urbana, foi constatado que os dormentes estão podres e sem pinos de fixação.

O alerta do vereador José Eduardo Fernandes Ávila está contido em uma moção de apelo protocolada na Câmara Municipal. O levantamento nos trilhos que cortam a zona urbana da cidade veio um dia depois que mais dois acidentes de descarrilhamento aconteceram na região. O assunto já vinha sendo levantado pelo vereador que foi contatado por moradores da vila Antártica e Jardim Santana, sobre a precariedade dos dormentes na região.

José Eduardo Ávila cobra, em sua moção de apelo, providências por parte da Novoeste para a devida manutenção dos trechos. O vereador também pede que o Poder Público Municipal interceda para garantir a segurança do movimento ferroviário na zona urbana. Em relação aos trechos fora do perímetro urbano, o vereador solicita participação do deputado estadual Carlos Braga (PPB). "Estamos acionando o deputado estadual Carlos Braga e também o Ministério Público para que tomem conhecimento da situação. A preocupação inicial é com descarrilhamentos no perímetro urbano, que podem gerar catástrofes, mas também com os trilhos na zona rural, porque há prejuízo ao meio ambiente toda vez que um acidente acontece, com o derramamento de combustível", citou Ávila. O vereador contou que foi procurado por munícipes que relataram o estado de abandono da ferrovia.

O representante da Defesa Civil, Álvaro de Brito, acompanhou o vereador na vistoria por alguns trechos dos trilhos localizados entre a vila Antártica e o Jardim Santana. "A situação

é precária. Verificamos que os dormentes estão podres em sua grande maioria e sem os pinos de fixação. Está faltando manutenção e há muito tempo. A segurança não está sendo observada nesta área, que é urbana, com um tráfego intenso de cargas perigosas, com vagões de combustíveis, produtos inflamáveis e até explosivos", descreveu Brito.

Álvaro de Brito concorda com a preocupação do vereador Ávila e adverte: "Pode causar uma tragédia e próximo de escola e indústrias, em bairro populoso. Em alguns pontos o socorro seria até de difícil acesso". Brito falou que a Defesa Civil fez vários contatos com os representantes da Novoeste, mas a partir da privatização da ferrovia "a segurança tem ficado em segundo plano. O Poder Público tem que apertar o cerco na fiscalização, já que a Novoeste não reage aos chamados. Precisa trocar os dormentes e realizar obras de proteção urgente", citou.

Além de verificarem os dormentes apodrecendo, os moradores da região convivem com o alarme ligado na passagem de nível

(cancela). A Novoeste já tentou fazer o conserto do alarme várias vezes mas o equipamento continua ecoando som falso de chegada de trem, atrapalhando o sossego das pessoas. Ontem, por exemplo, o alarme funcionou durante toda a manhã. Um dos moradores que reclamou da situação, o comerciante Wilson Novelli falou que "do Carnaval para cá o barulho continua quase que diariamente, está insuportável a situação. O trem também apita a noite inteira e a cancela está sempre com defeito".

Nos últimos dias, o JC Regional noticiou a ocorrência de três acidentes com descarrilhamento de trens na região. Um deles aconteceu com um trem de passageiros, da Ferroban (antiga Fepasa), que descarrilhou próximo de Gália. O trem de passageiros saiu de Campinas. Outro acidente aconteceu anteontem, nas proximidades da fazenda Val de Palmas, em Bauru, com um trem da Novoeste (vagão-tanque). Domingo passado, dois vagões da Novoeste, que transportavam soja, também tombaram próximo a Avaí.