Vai muito além o "direito de abusar"
B. Requena
Em artigo publicado tempos atrás, fiz referência a que os Estados Unidos já estavam abusando do direito de abusar, com relação à não-devolução imediata, ao pai e aos quatro avós, em Cuba, do garoto náufrago Elián González, de seis anos. Naquela
época - talvez já há meses - não era o primeiro artigo que escrevia sobre o tema, mas já achava que a demora estava exagerada demais, em consideração
à tenra idade do menino.
O governo cubano tomou conhecimento dos meus artigos, portanto, da minha opinião sobre a injustiça, a iniqüidade que está sendo cometida. René Monte de Oca Ruiz, assessor do Consejo de Estado e do presidente Fidel Castro, escreveu, entre outros, o seguinte, para mim: os seus sentimentos "son los sentimientos de 11 millones de cubanos y el deseo de toda persona honesta y justa de este Planeta y estamos seguros que más temprano que tarde el niño habrá de regresar, pues la verdad y la ley estan de nuestra parte y es una batalla que sólo puede concluir con la victoria". Portanto, a nossa voz, o JC hoje correm mundo levando a nossa opinião sobre temas variados. Aumenta a abrangência, aumenta a responsabilidade.
É muito interessante que depois de tanto tempo acabamos entrando nessa história, nesse contencioso Cuba-EUA, cujo tempero só contém ideologias, mas num episódio que até certo ponto não deveria ter qualquer conotação ideológica. A não ser pelo fato de que os atores se movimentam num palco de hostilidades provocadas por quatro décadas de divergências fundamentais no aspecto político.
O garotinho Elián González, encontrado no mar, em novembro, então com cinco anos de idade, agarrado a um pneu, ainda não tem condições de analisar o que é comunismo, capitalismo, 1.º mundo, 3.º mundo, quem foi e o que fizeram Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Castro, Kennedy, Krushev. Não sabe o que ocorreu em Sierra Maestra, na Baía dos Porcos. É simplesmente uma criança e como tal precisa ser respeitada. Muito respeitada.
A questão do menino começa a colocar em dúvida a sinceridade, a coerência da política externa da grande nação do Norte. Elián naufragou em novembro e antes que chegássemos ao ano 2000, a Casa Branca e a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Janet Reno, já haviam se posicionado de que ele deveria ser imediatamente devolvido aos seus verdadeiros responsáveis, na bela ilha caribenha. De lá para cá, as duas avós viajaram a Miami, ao seu encontro, e não conseguiram levá-lo de volta ao seu país. Se há sinceridade e coerência no Ministério da Justiça e na grande mansão da avenida Pensilvânia, então é a - pasme
- grande e reconhecida Justiça dos EUA que está sendo um óbice para a reparação urgente desse bárbaro erro?
Será que ninguém percebe (quanto à decisão) que neste caso não há segunda alternativa? Que, como me comunicou o assessor de Fidel Castro, "este é o sentimento de toda pessoa honesta e justa deste Planeta"? Será que ninguém percebe (quanto ao tempo) que não se está discutindo uma demanda fronteiriça, nem a posse de um velho navio? Questões que podem levar décadas? Há psicólogos nos Estados Unidos? Aos EUA: além dos 11 milhões de cubanos, há mais gente no mundo impaciente com essa demora...