07 de julho de 2026
Geral

Meio ambiente

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 8 min

Risco de escassez de água aumenta a luta pelos rios

Texto: Fábio Grellet

Enquanto especialistas prevêem escassez de água potável no futuro, ONG's de Bauru e Barra Bonita tentam proteger Batalha e Tietê

Na última quarta-feira foi comemorado o Dia Mundial da

Água, data estabelecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) durante a Eco-92 - evento realizado no Rio de Janeiro, há quase oito anos. Desde então

(e até antes disso, durante a fase em que os movimentos ecológicos começaram a se disseminar), registra-se uma preocupação crescente com a escassez de água.

À primeira vista, o leigo pode considerar absurda esta preocupação, eis que dois terços do planeta Terra são ocupados por esse líquido. Mas a análise de alguns dados relativos ao tema demonstra que a inquietação

é justa: grande parte da água disponível na natureza está nos oceanos e não é utilizável, por ser salgada. E o crescimento populacional compromete boa parte da água potável: primeiro, porque o lixo industrial e doméstico produzido também aumenta e acaba sendo lançado aos rios (e o tratamento desse esgoto, se é comum nos países desenvolvidos, ainda não ocorre com a freqüência desejável no Brasil, ainda que já vigore lei exigindo isso). O aumento da população também exige a ampliação dos cultivos agrícolas, para produzir mais comida - e a irrigação, que absorve outra parcela considerável da água disponível,

é uma necessidade bastante usual para tornar as terras produtivas.

Enfim, o problema é real e, mesmo num país que dispõe de tantos recursos hídricos como o Brasil (que, apesar disso, até hoje não conseguiu solucionar o problema da seca no Nordeste), já é hora de pôr em prática projetos para restringir o consumo de água ao mínimo necessário. Para isso, está sendo votada, pelo Poder Legislativo Federal, uma lei que regulamenta o pagamento pelo consumo de água no Brasil. Se a população paga pela água que recebe em sua casa, tratada e medida, existem muitas indústrias que recolhem água diretamente dos rios, a consomem e não pagam nada por isso. É esse tipo de procedimento que a lei pretende regular.

Outra medida necessária para evitar que nos deparemos com a falta de água num futuro mais próximo do que imaginamos

é melhorar a qualidade de nossos rios. Nesse sentido, muitos projetos já foram desenvolvidos, mas as dificuldades na execução deles é grande e fazem com que eles caminhem lentamente. O Jornal da Cidade foi verificar o que está sendo feito pelos dois rios mais importantes de nossa região: o Batalha, que abastece 43% da população de Bauru, e o Tietê, um símbolo histórico do Estado de São Paulo e fonte de diversas atividades econômicas

(turismo, pesca, escoamento da produção agrícola e produção de energia, entre outros exemplos). A defesa desses rios é realizada por ONG's (Organizações Não-Governamentais) que desenvolvem um intenso trabalho pela recuperação e preservação dos rios - é o caso do Fórum Pró-Batalha, sediado em Bauru, e da ONG Mãe Natureza, criada em Barra Bonita.

Devastação de mata ameaça Batalha

Texto: Fábio Grellet

Plano para recompor mata ciliar nos 22 primeiros quilômetros do rio está orçado em R$ 3 milhões e é implantado por etapas

O Fórum Pró-Batalha é uma ONG (Organização Não-Governamental) criada em Bauru, em 1996, e que desde então desenvolve projetos para recuperar o rio, responsável por abastecer quase a metade dos bauruenses - exatamente 43% deles, sendo que o restante recebe água proveniente de poços perfurados no município. Segundo a atual presidente da entidade, engenheira Nilcéia de Fátima Paes Lourenço, 42 anos, ao contrário do Tietê - cujo principal problema

é o esgoto industrial e doméstico lançado em suas águas, especialmente no trecho em que ele atravessa a capital -, o rio Batalha sofre mesmo é com a devastação da mata ciliar - aquela vegetação nativa, situada

às margens do rio. Como os cílios para nossos olhos, essa mata é um dos dispositivos de proteção de que o rio dispõe. Sua destruição compromete o curso d'água porque deixa de evitar que, impulsionada pela chuva, a terra se deposite no leito e diminua cada vez mais o espaço para a água - esse fenômeno, chamado assoreamento, pode fazer o rio desaparecer, como já ocorreu, no Nordeste brasileiro, em alguns trechos do rio São Francisco. Outro problema proporcionado pelo desmatamento é a erosão. E, além da terra, a falta de mata ciliar permite que produtos químicos, como os agrotóxicos aplicados em cultivos

à margem do rio, sejam conduzidos pela chuva e acabem despejados na água, contaminando-a. A poluição absorvida pelo rio Batalha ainda não é suficiente para comprometer a qualidade de sua água, inclusive porque o tratamento aplicado pelo DAE (Departamento de Água e Esgoto) de Bauru

é adequado. Mas a engenheira destaca que, caso a mata ciliar do rio estivesse preservada, o tratamento a que sua água

é submetida, antes de ser distribuída à população de Bauru, poderia ser reduzida.

Para tentar recompor a mata ciliar, o Fórum Pró-Batalha desenvolveu um projeto que está sendo implementado por etapas, conforme são liberadas as verbas para financiá-lo

- através de recursos recolhidos do Fehidro (Fundo Estadual de Recursos Hídricos). Esse fundo é composto por dinheiro recolhido periodicamente pelas usinas hidrelétricas, as maiores usuárias da água do rio - eis que dela depende a movimentação das turbinas geradores de energia.

Iniciado em 1998, o projeto - que, em sua primeira etapa, consumiu aproximadamente R$ 85 mil - já viabilizou o plantio de milhares de mudas por 30 hectares ao longo das margens do rio. Para definir os vegetais a serem plantados, foram estudadas áreas ainda preservadas. Nelas, foi verificada com que intensidade está presente cada espécie vegetal. A proporção foi rigidamente seguida: são, ao todo, quase 30 tipos de plantas, classificadas em três grupos, conforme a velocidade com que se desenvolvem.

Mesmo contando com variedades que crescem rapidamente, porém, a recomposição da mata ciliar é uma atividade de longo prazo. Durante os cinco anos seguintes ao plantio, é necessário acompanhar as mudas, para verificar seu crescimento, retirar as ervas daninhas que se multiplicam em cada área e, se necessário, depositar adubo. Só após esse longo período as plantas adquirem capacidade de se desenvolver independentemente da influência humana. A primeira etapa do plantio das mudas terminou no ano passado - portanto, o crescimento dessas plantas vai ser acompanhado até 2004. As visitas às áreas recompostas são realizadas a cada três meses, pelos cerca de 40 integrantes do Fórum Pró-Batalha - aproximadamente 30 voluntários e dez funcionários contratados a cada projeto.

Nos últimos dias, foi assinado um novo contrato, desta vez para viabilizar a segunda etapa do projeto, a ser iniciada em abril próximo. Serão mais 50 mil mudas de vegetais, distribuídas por outros 30 hectares da área ribeirinha. Para a conclusão dessa etapa, serão gastos mais R$ 112 mil, R$ 89 mil deles provenientes do Fehidro. O restante será fornecido por empresas que colaboram com a ONG, como Aciflora, DAE e o grupo Zillo Lorenzetti. Essas empresas vão assumir várias responsabilidades, dentre as quais ceder parte do adubo e das mudas utilizadas.

Para a recuperação total das margens, desde a nascente do Batalha até o local onde o DAE faz a captação de água para distribuir em Bauru, devem ser gastos R$ 3 milhões. E observem que essa área corresponde a uma pequena parte da extensão do Batalha - só 22 quilômetros de um rio que, até chegar ao Tietê, se estende por outros 145, já que tem 167 quilômetros, ao todo. Segundo a presidente do Fórum Pró-Batalha, praticamente toda a extensão das margens do rio precisa de alguma recomposição vegetal - senão generalizada, ao menos de alguma das espécies nativas. Mas ainda não há um projeto prevendo a recuperação de todos os 167 quilômetros por onde se estende o Batalha - a engenheira Nilcéia não tem previsão sequer sobre o templo necessário para concluir o trabalho nos 22 primeiros quilômetros:

"Depende da liberação de verbas pelo Fehidro, o que é feito por etapas", explicou.

Rio tem 6 nascentes, todas em Agudos

O rio Batalha tem seis nascentes, todas situadas no município de Agudos. Dali, segue para o interior do Estado, em direção ao Tietê. Sua extensão total é de 167 quilômetros, durante os quais o Batalha atravessa dez municípios. Cerca de 22 quilômetros separam as nascentes do local onde o DAE capta água para distribuir em Bauru. Nesse trecho, não há - ao menos oficialmente - lançamento de esgoto doméstico ou industrial no rio. Após o ponto de captação, porém, o rio recebe o esgoto produzido pela cidade de Piratininga - devidamente tratado, segundo a presidente do Fórum Pró-Batalha. A única cidade que se serve da água do rio é Bauru - depois dela, a

água não é mais aproveitada para abastecer nenhum dos outros municípios que o Batalha atravessa. Segundo a engenheira Nilcéia, conforme se aproxima do Tietê, o rio se torna menos poluído, eis que recebe a água de alguns afluentes ainda límpidos.

Dos 30 hectares a serem recuperados nesta segunda etapa do projeto de recomposição da mata ciliar do rio Batalha, 15 correspondem a nascentes de córregos situados nas fazendas São Benedito e São João, ambas em Agudos, e outros 15 referem-se a áreas próximas ao Córrego do Ventura e Córrego do Veado.