Fatec vai projetar barcos para ONG
Texto: Fábio Grellet
Entidade firmará parcerias para construir três barcos: um de pesquisa, um para eventos e o outro para colher lixo
A Organização Não-Governamental Mãe Natureza foi criada no ano passado, em Barra Bonita, por um grupo de pessoas preocupadas em defender o rio Tietê de toda a poluição que o assola, principalmente na capital. O grupo desenvolve propostas para evitar que os detritos lançados ao rio em São Paulo cheguem à região de Barra Bonita, onde o rio, por enquanto, ainda é razoavelmente limpo, e serve como fonte de diversas atividades econômicas. Se a produção de energia elétrica e o transporte de produtos agrícolas não dependem da limpeza do rio, o turismo fluvial e a pesca só sobrevivem se as águas forem preservadas da poluição. Por isso, a ONG, liderada por Hélio Palmesan, 44 anos - e que há 30 anos viaja pelo rio e o conhece plenamente, em especial na
área próxima a Barra Bonita -, luta para solucionar o problema da sujeira no rio. Em setembro do ano passado, quando foi comemorado o Dia do Tietê, Palmesan denunciou, através do Jornal da Cidade, a situação em que se encontravam as margens do rio - áreas que se tornam, durante o período de seca, depósitos para todos os tipos de materiais sólidos lançados ao rio (desde garrafas plásticas até pára-choques de automóveis, pneus, chinelos, frascos de produtos de limpeza e até eletrodomésticos). O presidente da ONG luta, há muito tempo, para que sejam instaladas telas de proteção, capazes de reter o lixo sólido, num trecho do Tietê próximo à capital. Mas o tempo passa e esse projeto, que está previsto como uma etapa do plano de rebaixamento da calha do rio, em São Paulo, não sai do papel...
Cansada de ficar na dependência de fatores políticos, para conseguir obras capazes de minimizar a poluição do Tietê, a ONG procurou alternativas para viabilizar serviços paralelos que vão contribuir para a melhoria da qualidade de sua água. Na última quinta-feira, foi formalizado um convênio entre a ONG Mãe Natureza e a Fatec (Faculdade de Tecnologia), de Jaú. Através dessa parceria, os alunos do curso de Tecnologia em Construção e Manutenção de Sistemas de Navegação Fluvial daquela faculdade vão projetar três embarcações, com finalidades distintas, cuja construção deve ser viabilizada através de outras parcerias. Embora já existam os primeiros desenhos desses barcos, seus projetos definitivos só devem estar prontos no final deste ano, porque ainda vão ocorrer diversas discussões para adequar os desenhos dos barcos às necessidades funcionais e ao custo previsto para a construção deles. Se o desenho das embarcações fosse um serviço prestado a uma empresa particular, não sairia por menos de R$ 20 mil. Sendo um projeto de interesse público e da comunidade, será feito de graça - e vai servir, ainda, como uma experiência prática para os alunos responsáveis por desenvolvê-lo. (leia mais no boxe)
Quando os projetos estiverem concluídos, será hora de construir os barcos, o que deve consumir cerca de R$ 1 milhão e demorar aproximadamente 12 meses, conforme calcula Palmesan. Para obter esses recursos, a ONG planeja estabelecer parcerias com universidades, órgãos do governo e empresários.
Barcos vão ter utilidades diferentes
Hélio Palmesan explica que uma das três embarcações projetadas por alunos da Fatec é voltada para a pesquisa. Assim, deve dispor de laboratórios com equipamentos necessários para a análise da água do rio, de peixes e vegetais que vivem nela ou às suas margens (no caso das plantas). O objetivo é reunir, no barco, universitários e pesquisadores já graduados dispostos a desenvolver projetos de pesquisa sobre temas referentes ao rio. Assim, a embarcação deve facilitar estudos em diversas áreas do conhecimento, como batiometria, hidrografia, biologia e meteorologia, entre outras. Segundo Palmesan, só existe um barco como esse navegando em rios brasileiros: está no Amazonas e é usado por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), que desenvolvem projetos naquele rio. O presidente da ONG acredita que o barco vai despertar interesse das universidades, já que estará à disposição de seus alunos:
"Coube à Mãe Natureza oferecer a proposta, mas o barco, depois de projetado, vai pertencer às universidades e entidades que se interessarem por ele. A ONG está apenas lançando a idéia e tentando viabilizá-la, mas o projeto vai ficar à disposição dos pesquisadores, cabendo a nós oferecer apenas eventuais instruções para navegação", explicou.
A outra embarcação vai ser usada para recolher o lixo sólido do rio Tietê. Com características bastante peculiares - silos para reter o lixo recolhido, por exemplo, esse barco deve despertar o interesse do próprio governo, conforme Palmesan: "Para a construção dele, vamos tentar estabelecer parcerias com secretarias de Estado e outros órgãos que têm o dever de lutar pela limpeza do rio", explicou.
O terceiro barco deve funcionar como sede da ONG e palco de palestras, seminários e outros eventos relativos à ecologia. Sendo uma embarcação visitada por um público bastante variado, deve despertar interesse de empresários, dispostos a colaborar com o projeto, em troca de publicidade na embarcação. Aliás, a propaganda pode se estender a todos os barcos, conforme prevê Palmesan: "Fico imaginando cascos cheios de logomarcas, porque os barcos vão navegar constantemente e devem chamar a atenção, em cada município por onde passarem. Assim, os empresários podem usá-los para anunciar seus produtos e serviços, também", completa.
Projeto proporciona experiência prática a alunos
Se, para a ONG Mãe Natureza, a parceria com a Fatec vai permitir uma economia bastante considerável, também será bastante útil para os alunos da Fatec. Conforme o engenheiro naval André Luiz Berardi, professor da área de projetos da Fatec e responsável por coordenar os projetos das três embarcações, em geral os barcos desenhados pelos alunos não chegam a ser construídos - servem apenas como treino, mas não se consolidam fisicamente. Os projetos solicitados pela ONG, ao contrário, devem se tornar realidade, ainda que isso demore vários meses - eis que é necessário obter os recursos financeiros para a construção. Além disso, trata-se de um projeto de cuja importância todos têm ciência
- e isso é incorporado ao espírito dos alunos, como um incentivo a mais para que a aplicação ao projeto seja ainda maior. O coordenador dos cursos de Navegação Fluvial da Fatec em Jaú, professor Luiz Alberto Sorani, também destaca a importância do projeto: "É fundamental que os alunos estejam praticando seu conhecimento, especialmente quando aplicados a projetos de cunho social, como
é o caso".
Durante o evento realizado na última quinta-feira, os alunos já apresentaram os primeiros desenhos dos barcos, desenvolvidos ainda antes de qualquer reunião entre os alunos e os responsáveis pela ONG. Portanto, são projetos que tendem a se alterar, conforme for considerado conveniente pelas partes envolvidas.
Segundo os desenhos feitos inicialmente, o barco para pesquisa deve ser um catamarã que pese 60 toneladas, tenha 21 metros de comprimento e capacidade para navegar a 10 nós (18,5 km/h), abrigando 10 pessoas (segundo a previsão inicial, seriam quatro tripulantes e seis pesquisadores). Já o barco que funcionaria como sede da ONG teria 27 metros de comprimento e capacidade para abrigar até 16 pessoas, em quatro camarotes.
O barco capaz de recolher o lixo não bio-degradável do rio deve ter 45 metros de comprimento, capacidade para abrigar oito tripulantes e um reservatório onde ficariam recolhidas 300 toneladas (ou 470 metros cúbicos) de lixo. Como esse lixo, em geral, fica depositado nas margens dos rios, um barco com capacidade para carregar esse materia não teria o calado
(espaço em que o casco fica submerso) necessário para chegar próximo o suficiente das margens, permitindo que os detritos fossem recolhidos diretamente do barco. Para atender a essa necessidade, a embarcação deve dispor de botes, com os quais seria feita a coleta do lixo nas margens. Para isso, os voluntários disporiam de redes (como aquelas usadas para caçar borboletas, por exemplo). O barco maior deve dispor de um sistema de prensas, porque a maioria do lixo recolhido pode ter seu volume reduzido e ocupar muito menos espaço. Posteriormente (eventualmente ainda dentro da embarcação), deve ser realizada a separação do lixo, porque é possível reaproveitar a maior parte dele.
Poluição de São Paulo matou peixes, segundo Palmesan
Para Hélio Palmesan, a morte de peixes registrada no rio Tietê, em janeiro deste ano, na área próxima
à barragem de Barra Bonita, não foi causada por produtos químicos usados na limpeza da eclusa, mas sim pela poluição vinda de São Paulo: "Sempre que há um período de estiagem, em que a água do rio praticamente não flui, a sujeira fica concentrada na região em que é produzida. Depois, as primeiras chuvas fortes fazem com que a água flua bastante, proporcionando uma espécie de lavagem que leva a sujeira para o interior. Nessas ocasiões, a poluição trazida até Barra Bonita faz a oxigenação da água se reduzir drasticamente - dos habituais 4 ou 5 miligramas de oxigênio por litro d'água, para até 0,78". Segundo ele,
"não tem como negar essa causa, que é evidente, e só quem ignora o sistema usado na limpeza das eclusas pode atribuir a ela a mortalidade dos peixes".
Bacias vão definir valor da água
O advogado Cid Tomanik Pompeu, consultor jurídico de diversas entidades, para questões relativas ao Direito Administrativo, de Águas, de Energia Elétrica e Ambiental, alerta para a preocupação que a escassez de água no futuro está causando, em todo o mundo. Ele acompanha a evolução das leis que regem o uso das águas, no Brasil, e ressalta que não existe um problema de água, mas sim de gerenciamento do líquido. O Brasil, porém, está avançando no tratamento da questão, ao adotar uma filosofia que envolve a sociedade na discussão de soluções para economizar água e conseguir o melhor aproveitamento dela. Assim, em São Paulo, por exemplo, são os Comitês de Bacia que definem a aplicação das verbas destinadas ao setor. Quando for aprovada a nova legislação sobre o assunto, atualmente em discussão no Senado, o preço a ser cobrado pelo uso das águas deve ser estipulado por cada um dos Comitês de Bacia.
Reservatórios de água subterrânea estão sendo contaminados
Apesar de abundante na natureza, a água potável está se tornando um bem escasso, em grande parte devido
às repetidas intervenções do homem no meio ambiente. Uma tese desenvolvida pelo professor Manoel Carlos Toledo Franco de Godoy, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Presidente Prudente, mostra como nossos reservatórios estão vulneráveis
à contaminação. O estudo abrangeu uma área de 220.540 metros quadrados na região de Presidente Prudente. A área do reservatório de água pesquisado tem um total de 104 mil quilômetros quadrados e pertence ao chamado Grupo Bauru.
No reservatório estudado, as análises químicas da água revelaram resíduos de nitrato muito superiores ao limite máximo permitido para que a água ainda seja considerada potável. Ali também foi detectada a presença de cloro e sódio em quantidades que já caracterizam contaminação. O nitrato é proveniente do esgoto e do chorume derivado do lixo doméstico, que também libera uma ampla variedade de substâncias tóxicas.
Ação do homem
O estudo também mostrou até que ponto a zona superior ao nível freático é capaz de retardar o curso das águas contaminadas rumo ao aqüífero Bauru, que tem sido intensamente explorado na região de Presidente Prudente. Antes desses estudos, prevalecia a crença de que a água que fica entre o solo e o nível freático
(a chamada "zona não-saturada") pudesse exercer a função de filtro químico e impedir que os poluentes descessem aos reservatórios mais profundos
("zona saturada"). O professor Godoy demonstra, por meio de análises químicas e testes estatísticos, que, na área pesquisada, a zona não-saturada é ineficiente como filtro químico da contaminação causada pelo homem. O resultado disso é que os poluentes vão direto para o aqüífero.
A zona não-saturada serve como um caminho para as águas das chuvas, que vão alimentar, mais abaixo, a zona saturada ou aqüífero subterrâneo, onde todos os espaços vazios das rochas são ocupados por água. "Os resíduos decorrentes das atividades humanas se infiltram continuamente na zona não-saturada. Como ela não consegue reter ou neutralizar todos os contaminantes, a água formadora dos reservatórios naturais vai sendo comprometida", afirma o professor Godoy. Na opinião dele, a grande contribuição deste trabalho é chamar a atenção para detalhes da atuação do homem sobre o meio ambiente, sem levar em consideração as regiões aqüíferas.
Na área pesquisada, foram encontrados um pomar abandonado, cujas cavidades das raízes mortas das árvores provocam a fuga de água contaminada para o aqüífero. Também foi registrado uma cultura de hortaliças, onde se aplica adubo com estrume de bovinos e de suínos, uma fossa de rejeitos de análises químicas de solo e um açude. Também há no terreno dois poços abandonados e um terceiro, tubular, com 198 metros de profundidade, este ainda em funcionamento e sem dispor de revestimento completo em suas paredes internas, o que serviria para evitar a contaminação do aqüífero.
Embora o aqüífero estudado esteja situado em Presidente Prudente, o professor Godoy alerta que este estudo é representativo da região onde o sistema Bauru já é considerado um recurso importante do abastecimento de água à população.
Sabe-se que o aqüífero Mercosul ou Guarani, mais conhecido no Brasil como Sistema Botucatu, é uma alternativa de abastecimento de água para a região de Presidente Prudente e grande parte do oeste paulista. Trata-se de um reservatório que atravessa as fronteiras do Paraguai, do Uruguai e da Argentina. E, em Prudente, ele está localizado a 1,7 mil metros de profundidade. No entanto, nesta cidade, o seu aproveitamento foi inviabilizado pelo alto conteúdo de flúor existente na água por ele fornecida.
Este flúor em excesso é decorrente da própria natureza. Mas existem formas de tratá-lo. Atualmente, após anos de pesquisas, foi identificada a área do aqüífero onde este elemento é liberado. Com base nesta descoberta, busca-se um meio tecnicamente viável de isolar esta zona, com o objetivo de reduzir a presença de flúor na
água produzida.
O professor Godoy alerta que, para enfrentar os problemas focalizados por sua tese, existem medidas preventivas, tanto em forma de legislação referente à disposição dos resíduos tóxicos e ao aproveitamento dos recursos da água subterrânea, como pela orientação técnica que deve fundamentar os projetos de instalação de poços tubulares.
"A solução, no entanto, depende de uma ação mais efetiva do Poder Público", diz o docente Godoy.
"No Estado de São Paulo, ainda não estão traçados os rumos para a implementação de uma política voltada para a gestão dos recursos de água subterrânea", completa.