Jararaca é cobra mais comum na região
Texto: Sabrina Magalhães
"Truques" para se reconhecer uma cobra venenosa pelo formato da cabeça e cauda foram até ensinados nas escolas décadas atrás. Todos já foram desmentidos
"Aqui em Bauru, o problema maior nosso com animal peçonhento
é a jararaca, que são as cobras de cerrado. A maioria dos acidentes com serpentes é com jararaca. Em segundo lugar vem a cascavel", afirma o biólogo Luiz Antonio Pires, diretor do Zoológico Municipal de Bauru.
Mas ele lembra que nem todas as cobras são peçonhentas.
É preciso fazer diferença entre um animal que tem veneno e aquele que consegue injetar esse veneno em outro, ou seja, há três tipos de cobra: a que não tem veneno, a venenosa e a peçonhenta. E só esta última
é realmente perigosa para o homem.
"Devido à falta de conhecimento e à grande quantidade de lendas e histórias absurdas, alguns destes animais, independentemente de serem ou não venenosos ou peçonhentos, são tidos como terríveis. E a primeira coisa que uma pessoa faz quando vê uma cobra
é matar, sem saber se essa cobra seria ou não até
útil ao ser humano, como diversos animais o são. Resultado, estamos tendo sérios problemas com o desequilíbrio da cadeia alimentar, justamente por se tirar esses animais, que são predadores."
Pires conta que 90% das cobras que são levadas, já mortas, ao zôo para identificação, são cobras de jardim, cobras d'água, que se alimentam de peixes e insetos e não representam qualquer risco ao homem. Segundo ele, há na região de Bauru entre 20 e 30 espécies diferentes de cobras. Destas apenas três são peçonhentas: a jararaca, a cascavel e a coral. Estas sim podem causar acidentes com seres humanos quando se sentem ameaçadas.
Desequilíbrio
Na opinião de Pires, é preciso avaliar também o lado positivo das cobras, antes de matá-las. "É lógico que não estamos dizendo que se entrar uma cobra numa casa, a pessoa vai chamar de queridinha e passar a mão. Não é isso. Entrou em casa, não tem conversa. Agora, o que nos preocupa é que as pessoas chegam dizendo que estavam andando na fazenda, viram a cobra e mataram, porque ela poderia vir a fazer algum mal a alguém."
Essa matança indiscriminada tende a transformar outros animais em problemas para o futuro, como está acontecendo com as capivaras. Conforme Pires, há regiões onde esses animais estão invadindo e destruindo plantações.
"Mas por quê? Porque matamos o jacaré, que comia capirava. Matamos a sucuri, que se alimentava da capivara. Matamos as onças, que se alimentavam de capivara e eram bichos de que todo mundo tinha medo, porque viram nos filmes os crocodilos gigantes da África que matavam o Tarzan e imaginaram que nosso jacaré de papo amarelo, que está em extinção, também. Nosso jacaré não mata ninguém, a sucuri não come gente, tudo balela. E hoje a capivara está deixando muita gente de cabelo em pé. O que vai acontecer? Vão matar a capivara e o ratão do banhado também está atacando as plantações, tudo pelo desequilíbrio que nós estamos provocando."
Perímetro urbano
Na verdade, qualquer animal está presente onde há abrigo e comida para sua sobrevivência. Então, se há cobras na cidade, no quintal, dentro de casa, é porque tem ratos por perto. Se há ratos, é porque tem lixo. E se há lixo, é porque alguém jogou.
"Apesar de Bauru ter hoje uma coleta de lixo em quase 100% da cidade, é incrível as pessoas ainda virem em qualquer bolsão de entulho, qualquer terreninho, jogar seu lixo. O lixo tem matéria orgânica, que atrai ratos. Ou seja, você cria condições para que esses animais saiam das matas e venham para a cidade. Mas os animais não são culpados. Eles estão se aproveitando de um modo de vida errado nosso. Tendo comida, o animal está ali. Porque ele evidentemente não vai existir onde não houver comida."
Outra coisa que está acontecendo é o crescimento acelerado das cidades, que vão invadindo as matas. Em volta de cada novo núcleo habitacional, há mata de cerrado, ou seja, o homem está entrando no lugar que antes era dos animais. É óbvio que ele vai estar ali, afinal, aquele foi seu habitar durante centenas, milhares de anos. Para acabar com as cobras na área urbana é preciso que os munícipes de preocupem com a higiene nas ruas, com a limpeza dos terrenos baldios, com uma destinação adequada para seu lixo.
"Dentro da área urbana, esses animais peçonhentos passam a ser um problema de saúde pública, lógico. Mas fora, não. Então, se aparecer uma cobra dentro de casa, o melhor a fazer é chamar os Bombeiros, a Polícia Florestal ou o Centro de Zoonoses, para capturá-los ou mesmo matá-los. Mas na zona rural não, ali ele deve ser preservado."
Reconhecer cobras
Saber se uma cobra é peçonhenta ou não é uma tarefa para poucos. Antigamente, os livros escolares ensinavam estas diferenças como se fossem absolutamente certas. Mas hoje já se sabe que elas de nada valem. Um dos itens observados antigamente era o formato da cabeça. Dizia-se que cobras com cabeça triangular eram venenosas, ao contrário daquelas que têm cabeça arredondada. No entanto, a jibóia tem cabeça triangular e não é venenosa. Outro item era o rabo: os que iam afinando indicavam que a cobra seria venenosa. Também esta teoria foi desmentida.
Segundo Luiz Pires, a única diferença que existe, de fato, é um buraco que existe entre o nariz e o olho das cobras venenosas, chamado fosseta loreal, que é um
órgão sensitivo, através do qual o animal percebe o calor de seres vivos próximos. Ainda assim, essa regra só vale para cobras do Brasil e excluem as corais, que podem ser venenosas mesmo não apresentando este órgão sensitivo. Na dúvida, o melhor é estar longe delas e chamar um profissional para reconhecê-las.