08 de julho de 2026
Geral

Animais peçonhentos

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Soro antiofídico é único antídoto eficaz

Texto: Sabrina Magalhães

Torniquetes, sangrias, querosene, teia de aranha, urina - nada disso funciona contra o veneno

De acordo com os especialistas, o único antídoto eficaz para veneno de cobras é o soro antiofídico. Todas as outras práticas de que se ouve falar não passam de crendice, sem qualquer validade. Ao contrário. Em alguns casos, o uso de sangrias e garrotes, por exemplo, pode agravar - e muito - o quadro da vítima.

"É comum ouvir coisas, como que urinar sobre a ferida ajuda a combater o veneno, beber querosene, colocar teias de aranha no local da picada, cortar e chupar o sangue com veneno. A pessoa não deve aplicar esse métodos alternativos de cura. Porque existem algumas cobras cujo veneno tem efeito anticoagulante. Então, você corta o local da picada e não consegue estancar a hemorragia. Outras cobras têm veneno com ação proteolítica, ou seja, ele causa uma necrose no local da ferida. Se você faz um garrote (também chamado de torniquete), você acaba concentrando esse veneno naquele local e a pessoa pode ter que amputar o membro. Isso não aconteceria se o veneno tivesse de espalhado. Então, o

único tratamento que existe é a soroterapia. O resto

é besteira e é o que causa, infelizmente, grande parte das seqüelas no acidente com cobras", explica o biólogo Luiz Antonio Pires, diretor do Zoológico Municipal de Bauru.

Entre essas seqüelas, além do risco de amputação por lesão necrosante, pode haver comprometimento em vários

órgãos nobres, como o sistema nervoso central, coração e rins. Grande parte dos venenos causa insuficiência renal grave, o que pode ser percebido pela alteração na cor da urina da vítima, que chega a ficar marrom. Nesses casos, não há como reverter o quadro.

Socorro imediato

O médico veterinário Mário Ramos de Paula e Silva, diretor da Divisão de Vigilância Sanitária de Bauru, explicou que não se sabe ao certo quanto tempo a vítima tem, com segurança, para receber o soro antiofídico para ficar sem seqüelas. "É difícil falar que a pessoa vai agüentar duas horas, um dia, 48 horas. Isso é uma incógnita." Vai depender do tipo de animal que causou o acidente, da idade e condições de saúde da vítima e da quantidade de veneno que foi inoculada através da picada. Em crianças e idosos, os efeitos são sempre mais sérios.

"A primeira providência é a pessoa não estar se movimentando. Houve o acidente, a vítima deve ficar deitada, quieta, mexendo-se o mínimo possível." Claro que isso só vale para quem pode contar com o socorro de terceiros. Não havendo ajuda, a própria vítima tem que dar um jeito de se deslocar até um hospital. Segundo Luiz Pires, sendo atendida em até duas horas depois do acidente, há grandes chances de que a vítima não fique com nenhuma seqüela.

Existe uma preocupação muito grande de se capturar o animal responsável pelo acidente e levá-lo para o reconhecimento médico. "Se der para identificar o animal, ótimo. Muito melhor para quem está atendendo, pois existe um soro específico para cada tipo de veneno. Mas se o animal se esconder no mato, não se deve perder tempo tentando encontrá-lo." O veterinário lembra que profissionais de um pronto-socorro são devidamente treinados para reconhecer de que tipo é o veneno e administrar o melhor antídoto, bastando observar o formato da picada e os sintomas apresentados.

Tratamento complementar

Depois que o paciente é devidamente medicado com o soro antiofídico adequado, ele fica um ou dois dias internado em observação, para que os médicos façam um controle dos sintomas. Geralmente, ele recebe drogas complementares ao antídoto. Uma delas é a vacina anti-tetânica, usada quase sempre, para eliminar os riscos de infecção local ou generalizada. E em algumas pessoas o próprio soro pode causar reações alérgicas, então entra-se com medicação.

Na verdade, existe uma certa polêmica quanto ao uso ou não de um teste alérgico antes da administração do soro antiofídico. Alguns acham que ele deve ser feito, outros não. Um estudo realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu (www.botunet.com.br) concluiu pela não realização do teste de sensibilidade, devido à urgência na aplicação do antídoto. Já o Manual do Ministério da Saúde preconiza que, 15 minutos antes da aplicação do soro, o paciente deve receber remédios para prevenir reações. Na prática, o que vale é a gravidade do caso.

Estoque limitado

Mário Ramos salienta que muitas pessoas vão ao pronto-socorro pedir ampolas de soro antiofídico para levar para fazendas e sítios. Ele destaca que esta não é uma prática correta, pois para ter validade, o soro tem que ser mantido sob temperatura adequada e é preciso saber a quantidade certa de soro deve ser administrada à vítima, coisa que um leigo é incapaz de determinar. Por isso, a ordem é, realmente, correr com a vítima ao pronto-socorro o mais rápido possível.

Bauru: 8 casos

De acordo com a diretora da Divisão de Vigilância Epidemiológica de Bauru, Hilsa Emília Meza, de janeiro deste ano até agora, foram atendidos oito casos de acidente com cobras venenosas na cidade. Mas ela afirma que todos eles aconteceram em zonas rurais, principalmente nas cidades menores, envolvendo trabalhadores do campo ou pessoas que pescavam nas horas de lazer. "Não tivemos nenhum caso de picada na área urbana, dentro da cidade. Todos os acidentes aconteceram no mato, ou seja, no habitat da cobra."