Cadeia de Bauru implanta sistema mais humano para tratar presos
Texto: Rita de Cássia Cornélio
A cadeia pública de Bauru está adotando uma nova política de tratar os presos. Mais diálogo e compreensão em troca de bom comportamento. O novo método já surtiu efeitos positivos, desde dezembro que não há fugas. Para comemorar o avanço, os 155 presos participaram de um churrasco de confraternização patrocinado pela iniciativa privada.
As mudanças, incluem também reformas físicas no prédio e a adoção de um sistema inédito de controle carcerário. O programa Cade 2000, (administração carcerária), desenvolvido há dois anos pela empresa Docsystem, que permite que as 10 cadeias da Seccional de Bauru estejam interligadas e a movimentação de presos seja monitorada.
O sistema dá uma visão ampla sobre toda a vida do preso, explica o diretor da cadeia, delegado Ronaldo Divino. "Através do sistema é possível conhecer o número de presos , o tipo de crime que cada um deles cometeu, se há vagas ou se a cadeia está superlotada etc."
Pelo cade 2000, o cálculo da folha de alimentação não demora mais que 20 segundos. "O sistema é
ágil. Antigamente, o cálculo era feito manualmente e demorava de 15 a 20 dias."
A segurança da cadeia também foi reforçada. Foi ampliado o sistema de circuito interno de TV, pelo qual os carcereiros vigiam a movimentação dos presos. "Antes da ampliação nós tínhamos um sistema de cobertura parcial. Foram instaladas seis novas câmaras e a cobertura é total."
A iluminação da cadeia e as grades de proteção passaram por um check-up e foram reforçadas. Foram instalados também, TV a cabo e internet, promovendo maior comunicação entre os presídios. Para melhorar o aspecto físico do presídio, o prédio está sendo pintado.
Segundo Divino, as modificações atendem o que está previsto no decreto 44448 de 24 de novembro de 1999. " O decreto diz que todo controle carcerário é de responsabilidade de cada seccional."
As transferências para as cadeias da sub-região ficaram mais ágeis, segundo o diretor. "É mais fácil consultar o número de vagas e tentar a transferência. A seccional de Bauru tem 10 cadeias: Agudos, Lençois Paulista, Cabrália Paulista, Pirajuí, Pederneiras, Duartina, Reginópolis, Avaí, Piratininga.
Líder
Cada uma das celas da cadeia tem um líder. Aquele preso que consegue deter o poder sobre os demais. E é com esse preso que diretor está trabalhando para adotar um comportamento exemplar, evitar as fugas e os movimentos de revolta."Ampliamos o contato com o preso lider. Implantamos um sistema de responsabilidade disciplinar para ele. O preso "lider" se tornou responsável pela disciplina dos demais que estão na cela."
O diálogo entre presos e diretoria do presídio tem deveres de ambas as partes. "Os presos se comportam e em troca ampliamos a convivência deles com os seus familiares, promovendo assim a ressocialização do encarcerado."
Segundo o delegado, as festas poderão se repetir todas as vezes que os presos apresentarem avanços no setor disciplinar.
"Pretendemos incentivá-los. Podemos promover festas na Páscoa, Dia das Mães, dos Pais etc, só depende deles." Ontem, os filhos dos presos foram presenteados com brinquedos.
2 ª Fase
Embora os presos da cadeia pública de Bauru estejam sempre em trânsito, isto é não são presos condenados e podem ser transferidos para um presídio da rede Coespe, Divino pretende oferecer alguma atividade laborativa para ocupar o tempo ocioso deles. " A ociosidade incomoda o preso. Ele precisa ter uma atividade para ocupar o tempo livre e não pensar em besteira."
A superlotação da cadeia é outro fator que tira a paciência do preso, segundo Divino. "As penitenciárias estão lotadas e as transferências não são rápidas. Estamos com 155 presos sendo que a capacidade
é para 73. Isso significa que 83 presos estão sem camas, dormindo no chão. Não temos espaço para aumentar o número de celas. "
Sem foto
A fotografia e a identificação estão fora de cogitação para alguns presos. Embora, não queiram aparecer eles confessam que o novo tratamento adotado pela diretoria da cadeia é muito bom. O preso, Renilson Santos é um dos presos que incentiva o novo método de tratamento. "Para nós é super importante a convivência com os nossos familiares. A solidão faz a gente refletir sobre os erros cometidos."
Para ele, a confraternização faz com que o preso fique tranqüilo. "É um dia diferente na cadeia. Um dia a menos de solidão."
O preso Carlos acredita que o novo método favorece ambas as partes. "É bom para o preso que tem a oportunidade de conviver mais com sua família e para a cadeia, que se mantém calma."