Brasiliatas brasilienses
(Artigo abaixo do editorial, página 2, edição de sexta-feira, 31 de março de 2000)
(*) B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade
Volto a este espaço para registrar o Brasil. Explico, se a gente demora muito para registrar o Brasil, como num diário, ou numa ata, ele se torna irreconhecível. Então
é preciso acompanhá-lo com mais detalhes, mais de perto. Caso contrário, os fatos bizarros que ocorrem nesta terra de Stanislaw Ponte Preta cobrem o País de uma tal maneira que até brasileiro não reconhecerá o Brasil dentro em breve.
Não sabemos bem se a Pátria irá comemorar seus 500 anos "de chuteiras", como disse Nelson Rodrigues, ou de algemas, como dizemos todos nós, quando abrimos os jornais ou ligamos rádio e televisão. Vamos a alguns fatos que deixam boquiabertos de siri até crocodilos.
a) O general Newton Cruz diz que durante os episódios que marcaram o fim dos governos militares e a passagem para o sistema democrático, quando Tancredo Neves se impôs sobre Paulo Maluf, tornando-se presidente do Brasil, o ex-governador de São Paulo o visitou para propor um golpe de direita. Cruz (credo!) teria pedido a Maluf que passasse na próxima semana. Na revisita teria dito ao ex-prefeito de São Paulo:
"Como você vê, uso button do general Silvio Frota e esta medalha na minha correntinha é a figura do general Pinochet. Mas, por favor, me dê mais uma semana." Uma semana depois, Maluf bate palma. "Olha, Maluf, sinto muito, mas não poderei atender o teu pedido, dando o golpe de direita." "Por que, general?" "É que eu sou canhoteiro..."
b) Nicéa Pitta transita dentro dos tribunais e no Congresso brasileiro com o tato e a delicadeza de um búfalo que levou uma picada de marimbondo naquela região que fica sob o rabo e solto dentro de um setor de cristais de um grande magazine. A metralhadora giratória da mulher parece uma roda gigante adaptada à arma e girando na horizontal. O curioso é que o jato de merda parece suprapartidário e não respeita ideologia. A não ser que... Bem, deixa pra lá...
Enderecei minhas orações ao Barão de Itararé e a Sérgio Porto quando liguei a TV e vi a mulher depondo na CPI, em Brasília. Quando um deputado pediu um aparte, a mulher, com sua especial deferência, disse-lhe incontinenti:
"Quando um burro fala, o outro cala a boca." A frase, para sempre, ficará de Nicéa Pitta, entre "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever", "Sigam-me os que forem brasileiros", "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, diga ao povo que fico", "Independência ou morte!". O povo dizia sabiamente: "Quando um burro fala, o outro abaixa a orelha." Mas da maneira como foi dita, a frase ficará na História como de Nicéa. Como se vê, o prefeito de São Paulo e sua mulher se merecem. A persistir por mais alguns dias a ação desse tornado, colocarão uma placa diante da Prefeitura de São Paulo: "Aqui não há Pitta mais."
c) O Cade reuniu os gigantescos donos da AmBev e os mais gigantescos ainda donos da Kaiser. Portanto, na mesa, três marcas famosas de cerveja. Discordando de tudo, a Kaiser foi embora. Ficaram a Brahma e a Antarctica na maior das confraternizações. Faltava algo, mas o Cade mandou buscar e tudo terminou deliciosamente em pizza e cerveja.
Agora falando sério: num país como os Estados Unidos, uma demanda como essa vergonhosa fusão da Brahma com a Antarctica jamais terminaria como terminou aqui. Simplesmente porque não teria iniciado.
Não só nos EUA, mas na maioria dos países sérios, esse tipo de fusão contra os concorrentes e os consumidores é crime no qual não se pode nem falar, quanto mais levar adiante e ainda terminar vitorioso, como aqui. Agora, imaginem uma seleção de futebol que recebe os melhores ordenados, que treina anos, nos melhores estádios, hospeda-se nos melhores hotéis, recebe a melhor fisioterapia. Dois anos depois, quando vai enfrentar o primeiro grande jogo, dá WO. Assim foi o Cade. Deu WO diante daquilo que seria o melhor jogo de sua história. Uma pergunta: como era uma questão de cerveja, os membros do Cade estavam sóbrios? Quando o Brasil mais precisava do Cade, cadê o Cade? Em tempo, no título temos lá "brasiliatas". O termo não existe. É neologismo ou algo para cada qual imaginar o que queira, virtual. Mas não tem problema, o Brasil, este país que tanto amamos, há momentos em que também não existe, é virtual. Mas, felizmente, quando ele fecha para balanço, temos Cruz, Nicéa e o Cade no picadeiro para ir divertindo a platéia.
(*) B. Requena é editor de Internacional do JC