08 de julho de 2026
Geral

Alfabetização

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 8 min

Policiais apostam na educação para mudar realidade da periferia

Texto: Adriana Rota

Ao invés de uma arma, um giz. Ao invés de um cassetete, uma troca de idéias. Com essa nova tática, composta por um curso para alfabetização e outro para complemento da escolarização de jovens e adultos, desenvolvido no Ferradura Mirim, um dos bairros mais carentes da cidade, a PM pretende ampliar o conceito de policiamento preventivo em Bauru. A iniciativa partiu de um sargento que, desde o ano passado, procura estreitar os laços com a comunidade, assessorado por um soldado.

O primeiro passo foi conseguir um espaço para começar o projeto. O proprietário de uma chácara, localizada na avenida Santa Beatriz da Silva, 6-16, foi o primeiro parceiro. Ele permitiu que fossem feitas adaptações na casa, de modo que pudessem ser montadas três salas de aula. A linha telefônica também foi cedida pelo benfeitor.

Em seguida, a necessidade era colocar professores para ministrar as aulas. Como a validação do diploma depende da ligação do professor a um órgão oficial, a solução foi pedir à Prefeitura que cedesse profissionais. Mesmo que o objetivo fosse alcançado, o esforço de um voluntário não permitiria a legitimidade da alfabetização.

Há pouco mais de três semanas tiveram início as aulas de complemento da escolarização de 5.ª

à 8.ª série, pelo programa do Telecurso 2000. Quem as ministra é o sargento Edvaldo Francisco Minhano, 35 anos, apoiado pelo soldado José Roberto da Silva, 30 anos, ambos da Base Comunitária Sudeste da Polícia Militar. A Universidade do Sagrado Coração (USC) colaborou oferecendo treinamento intensivo para que as aulas fossem ministradas, além de fornecer as fitas do Telecurso.

O trabalho é desenvolvido de segunda a sexta-feira, a partir das 19 horas, e tem duas horas de duração. O curso de alfabetização de adultos, dividido em duas salas

- uma de 1.ª e 2.ª e, outra, de 3.ª e 4.ª séries - segue até as 22 horas. Excepcionalmente nesse mês, as aulas do Telecurso estão sendo ministradas três vezes por semana, devido às férias do sargento.

São 65 alunos da 1.ª à 4.ª séries e 30 no programa complementar de educação. As idades variam de 14 a 59 anos, embora a maioria esteja na casa dos 20, e a proporção é de cerca de três mulheres para cada homem. A maior parte da clientela vive de bicos: na classe do Telecurso, por exemplo, apenas três têm emprego formal.

As três salas estão equipadas com carteiras escolares e cadeiras, doadas por instituições da cidade e pela Diretoria de Ensino, e lousas cedidas pela empresa fabricante

(Souza). A televisão e o vídeo cassete foram repassados pelo Rotary Clube, além de parte do material didático e livros arrecadados numa campanha. A Prefeitura fornece merenda para as turmas de alfabetização. Para o pessoal do Telecurso, eventualmente, é possível conseguir algum tipo de doação do gênero, como o suco que a Sukest entregou há pouco tempo. As despesas mensais, na casa dos R$ 300,00, estão em dia. O dinheiro é obtido através de pessoas que apostam e investem no trabalho.

Necessidades

No momento, a maior luta dos policiais é conseguir patrocínio para que os alunos façam a prova do Telecurso, que custa cerca de R$ 10,00 para cada um. Outro objetivo é conseguir mais carteiras e cadeiras, de modo a procurar atender a demanda crescente.

Material de construção também é bem-vindo, porque as obras de adaptação ainda não foram concluídas e o único banheiro disponível

é insuficiente para a quantidade de pessoas. Outros dois começaram a ser feitos, mas não houve verbas para terminá-los.

Para quem tiver disponibilidade, a escola está aberta a receber voluntários que fiquem com os filhos de alguns alunos enquanto eles assistem às aulas, como chegou a ser feito no ano passado, mas não houve possibilidade de dar continuidade. Mais uma meta é tentar firmar acordos e conseguir vagas gratuitas em cursos de computação. Quem quiser conhecer o trabalho ou colaborar de alguma forma pode ir até a escola ou ligar para 230-0899.

Projeto é espécie de policiamento preventivo

Minhano explicou a iniciativa como uma forma encontrada para fazer um policiamento diferente, de forma que pudesse aproximar-se mais da comunidade, conquistando sua confiança. "A gente tira o marginal do local e logo ele está de volta. Quem vai confiar na PM desse jeito? Agora, sim, temos uma presença permanente, desde junho do ano passado", contou. A corporação aprovou o projeto, que acaba tirando o soldado da rua, numa espécie de policiamento preventivo diferenciado e muito mais eficaz.

Orgulhoso, ele disse, ainda, que em 1999 dez pessoas analfabetas chegaram à 4.ª série, e a grande parte dos alunos continuou este ano. "A surpresa foi ver mais pessoas chegando". Dentre esses, estão dois menores que viviam no mundo do crime. Juntos, eles chegaram a realizar 54 furtos num mês.

Quando decidiram matricular-se, Minhano propôs um acordo: eles levariam o estudo a sério, trabalhariam na horta da chácara (ficando com o dinheiro da venda dos produtos) e não se envolveriam mais em crimes. Um deles acabou sendo preso recentemente, por uma pendência judicial anterior, mas teria deixado clara sua intenção de mudar de vida. Minhano chegou a fazer um documento para o juiz, expondo isso. Detalhe: a pedido dos colegas de classe que, a princípio, temeram a aproximação dos garotos.

Um deles afirmou que estava num caminho errado, movido pelo "embalo" de amigos que, mais tarde, constatou serem "da onça".

"Decidi mudar de vida porque não ganhava nada com aquilo. Quando estava nesse mundo achava que todos os policiais eram ruins, agora sei que não é bem assim. Quero mudar, estudar e parar enquanto é tempo", confidenciou. Satisfeito em cuidar da horta, só lamentou o fato de a bomba do poço estar quebrada, impedindo que as plantas sejam molhadas. Disse, também, que precisaria de mais esterco. Quanto ao ex-companheiro de crimes, garantiu que ele está disposto a sair da cadeia, onde está em custódia, e "ficar limpo".

Doação de vida

Mais do que conhecimento, o trabalho realizado por Minhano e Silva

é uma doação de vida. Ambos ocupam o tempo que seria dedicado à família para tentar mudar a dura realidade de um bairro da periferia. "Vale a pena lutar por alguma coisa. O projeto veio de encontro ao que eu já pensava e sentia. Hoje, eles estão mudando os valores e já não olham mais a gente com desconfiança. Trocaram o medo pelo respeito", disse Silva, satisfeito.

Para Minhano, o start veio com a história de um menino de 12 anos, que freqüentemente causava problemas na escola onde estudava. O sargento, que atua também no policiamento escolar, teve curiosidade em conhecer sua história de vida e chegou até a família, moradora do Ferradura. Diante da desestrutura encontrada, constatou que o crime tem raízes bem mais profundas do que prega o senso comum. "Como eu ia resolver? Pegando 15 viaturas e invadindo os barracos?", questionou.

Convivendo com as dificuldades dessa comunidade e, por vezes, tendo de investir do próprio bolso, ele vem se convencendo a cada dia que não basta dar uma cesta básica, um prato de comida ou uma roupa, porque isso não opera mudanças significativas. "Quem vai progredir na vida somente com isso? Se eles não podem mudar de bairro, por exemplo, têm de mudar o bairro, a partir de suas próprias vidas. É com educação e cultura que se faz isso".

Apesar da postura decidida, no entanto, Minhano expôs as dificuldades. Disse que cogitou a possibilidade de desistir do trabalho no final do ano passado. "Estava comentando com uma das professoras quando chegou uma das alunas - que tem hidrocefalia, vai para a aula de cadeiras de rodas e é sempre a primeira a chegar - e perguntou, ansiosa, quando as aulas recomeçariam", emocionou-se.

Maioria deixou de estudar para trabalhar

A dona de casa Benedita Gonçalina Moreira, 48 anos, disse ter freqüentado apenas até a 6.ª série, 31 anos atrás. Embora gostasse de estudar, teve de deixar a escola porque não conseguiu conciliar com o horário de trabalho e tinha de ajudar na criação dos sete irmãos mais novos. Hoje, viúva, conta com o apoio da filha para retomar seu sonho. "Desde o ano passado eu queria, já estava ansiosa", contou.

As aulas uniram a comunidade. Muitos reúnem-se para estudar e tirar dúvidas. Benedita e outros entrevistados ressaltaram que o clima no bairro melhorou muito. "Até as outras vilas estão sabendo", gabou-se. Houve, também, unanimidade quanto à visão que existia sobre a PM.

"Tem gente dentro da polícia que está tentando fazer diferente", resumiu Douglas Vieira Ferreira, 18 anos.

Todos têm o mesmo objetivo: evoluir. Ninguém sonha alto demais, com carros possantes ou mansões de novela, apenas em dar melhores condições de vida às suas famílias. "Agora ficou mais fácil levar a vida", comentou um deles. Um bom exemplo é o de Silvana Dias, 22 anos, e seu marido, que também voltou a estudar. "Um é professor do outro. Ele está na 3.ª e eu na 5.ª série. A gente tem até mais assunto", contou.

Rogério Mattos da Silva, 20 anos, e o irmão Reginaldo, 19 anos, também mostram que o projeto está colaborando para um melhor relacionamento em família. "Lá em casa, todo mundo está percebendo a diferença", disseram.

Alex Sandro de Souza, 19 anos, falou da satisfação em ver que o bairro já não está mais tão esquecido quanto antes. "A gente se sente mais valorizado. Hoje eu sei que posso batalhar. Está bom demais. Eles só não podem desistir", disse, torcendo.