Tratamento não cura, mas alivia sintomas
Texto: Sabrina Magalhães
Psicóloga explica que muitas insatisfações afloram no período pré-menstrual. Elas devem ser bem examinadas, pois não são fruto da imaginação
De acordo com a ginecologista Carla Bonjorno, a síndrome da tensão pré-menstrual não tem cura. "Na verdade, na TPM não existe um hormônio para ser dosado. O que existe são oscilações na liberação de hormônio. E isso não é anormal, portanto, não pode ser modificado." Mas a doença pode ser bem controlada com um tratamento sintomático, quando atacam-se diretamente as alterações comportamentais e físicas. Neste sentido, a paciente tem que observar cinco itens.
O primeiro passo do tratamento, conforme a especialista, é promover uma reeducação alimentar, no intuito de diminuir a retenção de líquidos e o inchaço. Então, é preciso retirar ou reduzir drasticamente a quantidade de sal da comida, evitar gorduras e os carboidratos de ação rápida (açúcares, chocolate, frutas secas). E aumentar o consumo de fibras, que facilitam o metabolismo.
O segundo item é a redução de peso, com controle da compulsão e adoção de atividade física regular. "Porque a pessoa acima do peso tem muito mais chances de sofrer com TPM. A gordura é um foco de produção de hormônio, ou seja, quem tem excesso de gordura no organismo libera mais estrógeno, agravando os distúrbios durante o ciclo." Além disso, os exercícios físicos promovem a liberação de endorfina (hormônio do prazer), que auxilia também no controle das alterações emocionais.
O terceiro tópico do tratamento é corrigir os distúrbios menstruais propriamente ditos. O ideal é que o ciclo tenha duração de 28 dias entre uma menstruação e outra. Mulheres com esse padrão "reloginho" raramente sofrem de TPM. Mas naquelas que menstruam de 15 em 15 dias ou a cada dois meses, certamente vão apresentar a síndrome, pois há uma nítida disfunção hormonal.
O quarto tópico a ser investigado é se há alguma alteração hormonal associada, como um problema de tireóide, por exemplo. Neste caso, a paciente vai apresentar um quadro longo de TPM, sem estar no período pré-menstrual.
É preciso tratar a parte endócrina.
E por fim, é adotado o tratamento medicamentoso, com analgésicos, diuréticos ou mesmo suplementação de vitaminas e minerais, o que tem sido muito defendido pela medicina ortomolecular. De todos estes itens, à exceção do controle de peso, que pode ser obtido com força de vontade da paciente, os demais exigem acompanhamento médico. A automedicação
é absolutamente contra-indicada.
Autoconhecimento
Na opinião da psicóloga Maria Sílvia Pessoa, a melhor maneira da mulher lidar com a explosão de emoções que acontece nos dias de TPM é buscar o autoconhecimento. Isso para que ela perceba as alterações logo no início. Porque senão, só depois que passar
é que ela vai entender porque estava tão nervosa, por exemplo. Mas aí ela já ofendeu quem não queria, tomou decisões precipitadas, chorou onde não devia. Adquirindo o autoconhecimento, ela poderá lidar melhor com esses sentimentos, passando de dominada a dominadora da situação.
"Eu costumo dizer às minhas pacientes que os conteúdos emotivos que aparecem na fase da TPM não são fantasmas que vieram do nada. São conteúdos reais, da sua história pessoal. Só que eles vêm com mais intensidade neste período, porque toda a estrutura psíquica da mulher está fragilizada."
Quando fala em conteúdos, a psicóloga está se referindo, principalmente, aos medos e insatisfações que normalmente vêm à tona durante a TPM. Daí surgem as discussões com filhos, marido, chefes e colegas de trabalho.
Paralelamente a isso, ela ainda vive um conflito com seu companheiro no setor da sexualidade. Primeiro porque ela está inchada, sentindo-se gorda e feia e extremamente dolorida. E segundo porque, durante a síndrome, há uma queda natural na libido
(desejo sexual). Se não houver compreensão por parte do parceiro, este vai ser mais um estopim para brigas. O ideal
é que ele acompanhe o ciclo da mulher, que saiba em que fase ela se encontra, para perceber quando deve relevar esta ou aquela reação da companheira.
Questionada a respeito do comportamento ideal que deve ser adotado pelas pessoas que cercam a mulher, Sílvia afirma que isso varia muito conforme a proximidade destas pessoas. No caso de pais, ela sugere que não se questione o comportamento da adolescente ou jovem nesta fase, porque ela vai estar na defensiva, sentindo-se a mais desprezível das mortais. No caso do patrão e colegas de serviço, vai depender muito do tipo de relacionamento que eles têm. Se for amigável, a mulher em TPM pode simplesmente dizer que não está num bom dia e tentar adiar aquela conversa séria ou aquela piadinha, digamos, para outro dia.
Identificando TPM
"Cerca de 70% das pacientes que chegam ao consultório vêm com queixas de TPM. Mas apenas 40% das consultas recebem realmente este diagnóstico. Porque muitos dos sintomas deste período são comuns também em outras patologias, exigindo tratamentos diferentes", explica a ginecologista endócrina Carla Bonjorno.
Segundo ela, na TPM os sintomas aparecem entre uma semana e 10 dias antes da menstruação, obedecendo a um ciclo. Então, a mulher menstrua, depois de 14 dias há a ovulação, dois ou três dias depois aumenta a produção de progesterona (hormônio que provoca as alterações da síndrome), com mais 10 dias, em média, vem uma nova menstruação e os sintomas desaparecem.
"Então, aquela TPM que continua após a menstruação ou começa logo depois que ela termina, não é tensão pré-menstrual. É algum outro distúrbio que tem que ser investigado."
Resumindo, o sintoma pré-menstrual antecede a menstruação e desaparece quase que imediatamente após seu início. Qualquer alteração nos dias de menstruação ou nos 16-18 dias seguintes, são indício de alguma outra alteração hormonal, que pode ser, inclusive, pelo estresse.
Nas ruas
A vendedora Roseli Braga, 27 anos, disse sofrer um pouco com cólicas, dores de cabeça e irritabilidade. "Mas não muda meu relacionamento com as pessoas. A gente tem que ir em frente, de cabeça fria. Eu tento esquecer. Às vezes
é fácil."
O marido dela, Osni Braga, 37 anos, lembra que quase todas as mulheres sofrem com a TPM. "A gente tem que entender, né? Tem que ter paciência, tranqüilidade, cabeça fria, senão o casamento não vai para a frente."
Nas ruas...
"Minha noiva tem muitas dores de cabeça, enjôos. A gente tem que ter calma. Às vezes é duro de agüentar, mas geralmente não chega a atrapalhar o relacionamento. Pelo menos até hoje não..."
Tiago Luiz Mosquim, 19 anos, comerciário