Pais e filhos
Texto: Gustavo Cândido
O conflito de gerações é inevitável entre pais e filhos. Geralmente associado à adolescência, quando os filhos são mais contestadores e rebeldes, o conflito, porém, tem mostrado seus primeiros sinais bem antes, ainda na infância, quando surgem os primeiros "nãos" na boca dos pequenos. Quando não é bem trabalhado e resolvido pelos pais, esse conflito pode acabar gerando problemas na relação e na educação futura dos filhos.
As crianças de hoje são muito diferentes das crianças do passado, que não tinham tanto acesso à comunicação e não tinham o lado criativo tão desenvolvido como têm atualmente, segundo a matéria publicada no JC, no último domingo, sobre a nova postura dos pais em relação
à educação dos filhos. Hoje em dia elas estão mais ativas, mais espertas e, conseqüentemente, mais contestadoras e rebeldes, mais cedo. "A educação no passado era mais rígida, hoje os fatores ambientais em geral influenciam muito, fazendo a criança se desenvolver mais rápido e os pais ficarem despreparados para enfrentar essa nova geração, já receberam uma educação dos seus pais que não pode ser aplicada atualmente", diz a psicóloga Ivani Andolfato Bailoni sobre essa constatação. A solução apontada na matéria do último domingo pela psicóloga Ana Cláudia Comegno, visava o equilíbrio na relação: os pais não devem ser tão rígidos como antigamente, mas também não devem ser tão liberais a ponto de não impor limites aos filhos.
Mas a questão não se resume na forma sobre como os pais educam os seus filhos. Quando atingem uma certa idade,
é comum que as crianças comecem a protestar com freqüência, contra todas as restrições que são impostas pelos pais, inclusive as que visam a sua proteção e segurança. Isso acontece por volta dos cinco anos, segundo a psicóloga Cláudia Gomes Manaia, devido a uma série de fatores, entre eles: o início da descoberta de outras relações; o teste de autoridade com os pais; a necessidade de sentir que tem quem cuida deles
(segurança); a habilidade motora que está muito mais firme e desenvolvida (andar, subir, correr, etc) e também porque seu mundo exterior está muito mais amplo, havendo muitas vezes a necessidade de exploração (curiosidade). Do quinto ao sétimo ano, de acordo com a psicóloga, uma das transformações mais importantes que ocorrem
é que as restrições partem cada vez mais freqüentemente da própria criança, pois a sua compreensão está muito mais clara, ou seja, na maioria das vezes ela já sabe o que pode ou não fazer, o que os pais gostam ou não que elas façam, etc. "Isso claro, quando estamos falando de crianças que são ouvidas e ouvem seus pais, ou seja, quando existe diálogo, explicações, e postura firme e segura, sem contradições e nem abuso de autoridade, por parte dos adultos", diz Cláudia Manaia, "ressalto porém que deve-se sempre buscar o equilíbrio entre a atenção, o
ouvir a criança, o explicar e também os limites devem sempre existir entre pais e filhos".
O impulso infantil de superar antigos sentimentos, medos e modo de viver, varia de acordo com o passar do tempo e a criança for crescendo. "O impulso de crescer e, com o crescimento, mudar, é particularmente marcante entre o sexto e oitavo ano de vida, diz Cláudia Manaia. De acordo com ela, na maioria das crianças, há uma acentuada diferença de comportamento durante o primeiro ou segundo ano escolar. No período de apenas algumas semanas elas parecem sair da tenra infância para uma fase mais amadurecida. "Essa mudança está estritamente ligada a um crescente interesse pela escola e pelos novos amigos e podem ser observadas fala, nas brincadeiras e nas histórias que contam. É importante falar que a criança começa a se sentir mais independente dos pais, da casa, e muitas vezes isso é confundido com negação de autoridade ou desobediência. Os pais tem que estar sempre atentos e saber diferenciar entre o que é autoindependência e o que é desobediência", explica.
Fazendo bico
Quando uma criança faz birra, ou seja, está acostumada a brigar, pular, chorar e bater o pé para obter alguma coisa, podendo ser desde um brinquedo, quanto atenção, o que é mais comum. É necessário que os pais comecem a entender quando esse comportamento se instalou, o porque da sua existência e comecem a conversar com a criança. Esse comportamento às vezes está associado também aos pais muito permissivos, que sentem-se culpados da pouca disponibilidade de tempo para os filhos, e acabam esquecendo a questão de limites, que é muito importante para a criança.
"Os pais devem gostar de seus filhos, mas não devem ter a necessidade de serem amados por eles todas as horas do dia. Com medo de perder o amor dos filhos, muitos pais não ousam negar nada às crianças, principalmente em casa, onde elas tomam conta da situação, gerando agressividade, falta de respeito e indisciplina. Algumas crianças chegam até a fazer chantagem e dizer que não gostam mais dos pais", aponta a psicóloga Ivani Bailoni.
"A criança birrenta, ela sempre se comporta assim não só socialmente, mas provavelmente dentro de casa também. Os pais costumam ou ignorar, ou agredir a criança quando este comportamento aparece. Raras vezes isso adianta, pois a 'falha' na educação deve ter iniciado muito antes", diz Cláudia Manaia. O que deve ser feito, na opinião da psicóloga, é iniciar um acompanhamento psicológico, tanto com a criança quanto com os pais (leia o boxe sobre psicoterapia infantil). Cláudia destaca, porém, que esse tipo de tratamento deve ser seguido quando o padrão já está patológico e não é esporádico, onde os pais muitas vezes devem colocar de imediato o limite, escutando o que a criança quer, e explicando se é possível ou não e o porque. "Se a criança for acostumada a esse tipo de atitude dos pais, ela vai se controlar", afirma.
Bater não é a solução
Alguns pais acreditam que podem resolver qualquer tipo de diferença com os filhos na base do tapa. "O ideal é que nunca se precise usar deste tipo de interferência no trato com a criança", aponta Cláudia Manaia. Antes de usar as palmadas, a psicóloga diz que é bom tentar outros tipos de "controle" e também saber diferenciar umas palmadas no bumbum, de uma surra sem nexo, onde a violência
(e muitas vezes a raiva/frustração dos pais) está embutida.
Se a criança está acostumada a obedecer somente desta forma, é porque alguma coisa não está bem resolvida com ela e com seus pais. Na correção de crianças, o importante também é que os pais, não entrem em conflito, ou seja, se um corrigiu, o outro não interfira. O mesmo deve valer para a interferência de avós e demais parentes. É preciso haver concordância entre o casal, sobre a melhor maneira de educar seus filhos e que haja respeito entre o casal. Pais contraditórios, ou seja, que falam uma coisa mas agem de outra maneira, são uma influência péssima para crianças.
Psicoterapia ajuda as crianças brincando
Quando os pais devem procurar a psicoterapia infantil para ajudar o seu filho? Segundo a psicóloga e psicoterapeuta infantil Marly Rodrigues Bighetti Godoy, o que acontece, geralmente, é a procura de um especialista quando o filho apresenta algum tipo de comportamento muito diferente do considerado natural, como medo excessivo, hiperatividade ou mesmo alguma atitude que pareça um sintoma de problema físico mas não é, como urinar na cama com uma idade um pouco mais avançada.
Mas a psicoterapia pode ser um poderoso auxílio para os mais diferentes casos, "se a criança apresenta comportamentos diferentes, que levam os pais a perceberem que ela tem dificuldade de enfrentar certas situações, seja em casa ou na escola, e isso não é trabalhado o mais cedo possível, provavelmente essa criança vai se tornar um adulto que vai procurar a psicoterapia ou vai fica de mal com a vida", diz Marly Godoy.
A abordagem da psicoterapia infantil se dá pelo uso da ludoterapia, na maioria do casos. Essa técnica permite ao profissional conhecer a criança através da maneira como ela brinca ou joga. "É claro que em casos de crianças um pouco mais velhas é possível conversar", ressalta Marly Godoy.
A psicóloga explica que a durante a brincadeira a criança mostra como o mundo lhe foi apresentado e como é a sua relação com as pessoas e com as coisas dentro desse mundo. "Por exemplo, se uma criança está jogando e todas as vezes no jogo ela vai ludibriando e mostrando que quer ganhar a todo custo, essa situação está indicando que a criança tem uma dificuldade naquele momento de perder e está usando todas as formas de ganhar o jogo", diz Marly Godoy. De acordo com a psicóloga isso pode ser sinal de que ela apresenta uma baixa resistência à frustração, não consegue lidar com a perda e com o "não". A brincadeira é uma maneira de mostrar isso e também uma forma da psicóloga apresentar uma nova visão do mundo para a criança.
A psicoterapia infantil pode ser aplicada em vários casos. Primeiro é feita uma avaliação lúdica para verificar como a criança se relaciona com o mundo e, em seguida, começa o tratamento, que inclui muito diálogo e, é claro, brincadeiras. A conversa do profissional de psicoterapia com os pais da criança também é fundamental para poder se estabelecer formas de reorientação e reorganização que devem ser tomadas para a solução do problema.
Segundo Marly Godoy, geralmente as crianças que passam pela psicoterapia infantil têm até 11 anos de idade, ou seja, ainda não estão na pré-puberdade, mas não existe uma idade limite para se determinar quem
é ou não criança, "muitas crianças com 11 anos ainda estão brincando de carrinhos e boneca, mas isso não quer dizer que estão fora do 'natural', tudo depende do tipo de família e de criação que tiveram", diz a psicóloga.