07 de julho de 2026
Geral

Patrimônio

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 9 min

Parque ferroviário será tombado

Texto: Daniela Bochembuzo

Aprovação do processo de tombamento assegura que imóveis só poderão ser utilizados se a função não representar danos

Depois de sete anos de trâmite, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) aprovou no início do mês a abertura do processo de tombamento do Parque Ferroviário de Bauru. O documento inclui a antiga Estrada de Ferro Noroeste

(atual Museu Ferroviário), a Estação Central da Novoeste, as oficinas e a Vila dos Funcionários, totalizando 40 mil metros quadrados de área.

Desde já considerado patrimônio histórico do Estado de São Paulo, o Parque Ferroviário de Bauru somente poderá sofrer reformas após autorização do Condephaat, que exige a preservação do estilo arquitetônico dos imóveis.

Dessa maneira, ficam proibidas intervenções que possam descaracterizar vãos, alturas, materiais, volumes e demais itens originais dos imóveis.

A aprovação do processo de tombamento também assegura que os imóveis somente poderão ser utilizados se a função for compatível com a estrutura física do prédio.

Nilson Guirardello, professor de história da arquitetura do departamento de arquitetura da Universidade Estadual Paulista

(Unesp) de Bauru, avalia o tombamento como uma conquista de cidade.

"Com o tombamento, o Condephaat afirma que o Parque Ferroviário tem histórica importância para o Estado, o que para nós, bauruenses, deve ser motivo de orgulho. São edifícios de grande valor histórico e arquitetônico, cuja importância agora extrapola os limites locais", afirma Ghirardello.

Segundo o professor, que também é ex-conselheiro do Condephaat, o tombamento dá poder à população para acionar a Promotoria do Estado ou a Polícia Militar em caso de demolição ou descaracterização do patrimônio ferroviário bauruense. "Os bens estão protegidos por lei", diz.

Arquitetura

O conjunto tombado é composto por três partes: antiga Estrada de Ferro Noroeste (atual Museu Ferroviário); Estação Central da Novoeste; e oficinas e Vila dos Funcionários. Cada uma delas foi construída em uma época e com projetos arquitetônicos diferentes.

A antiga Estrada de Ferro Noroeste, por exemplo, foi construída em 1905, representando o início das atividades da Companhia Noroeste em Bauru. "É o testemunho do início da história da cidade", explica Ghirardello.

A Vila Ferroviária, como relembra o historiador e ex-ferroviário Gabriel Pellegrina, também é de 1905. "No início, o local era chamado de Vila Emiliana, depois passou a ser conhecido como Vila Machado e Vila Noroeste. Hoje chama-se rua Nóbile de Pinheiro", diz.

Já as oficinas foram construídas em 1918. Nelas, a empresa montava os carros de passageiros e outros vagões. Lá, os ferroviários faziam os serviços de carpintaria, funilaria, estofamento e pintura.

Nessa mesma época, parte do comando da empresa é instalado em Bauru. Até então, a ferrovia era dirigida do Rio de Janeiro, onde estava localizada sua sede.

A vinda de engenheiros e funcionários cariocas e de outras cidades, promove a introdução de novos hábitos culturais e sociais, como a realização de saraus.

"Culturalmente e politicamente, Bauru ganha muito com isso", conta Ghirardello.

Em 1935, a Noroeste constrói a sua imponente sede, a Estação Central, que seria inaugurada em 1939. O edifício traz como inovações as linhas arquitetônicas em estilo art-décour e o uso de concreto.

"De todos os prédios tombados, a Estação Ferroviária é o mais interessante, seja pelo valor da sua arquitetura, pelas suas características construtivas ou pelo porte", opina o professor de história de arquitetura.

Para Ghirardello, o tombamento reforça o Movimento S.O.S. Ferrovias, da qual é membro, que luta pela preservação do patrimônio ferroviário bauruense. "Não podemos parar nossas ações porque houve o tombamento. Precisamos continuar a luta pela preservação do Parque Ferroviário da Noroeste", defende.

A repercussão

"O tombamento é uma medida muito importante e de grande relevância para o Município. Agora, a administradora desse patrimônio precisa adotar medidas para preservá-lo, já que ele está se deteriorando."

Nilson Costa, prefeito, jornalista, advogado e ex-ferroviário

"É uma boa notícia, não há dúvida.

É um fato histórico e alvissareiro. Tudo o que se faz para preservar a história de Bauru é importante, mas devemos nos preocupar também com o restauro e a manutenção do Parque Ferroviário."

Gabriel Pellegrina, historiador, diretor do Núcleo de História da USC e ex-ferroviário

"Com o tombamento, o Condephaat afirma que o Parque Ferroviário tem histórica importância para o Estado, o que para nós, bauruenses, deve ser motivo de orgulho. São edifícios de grande valor histórico e arquitetônico, cuja importância agora extrapola os limites locais."

Nilson Ghirardello, arquiteto, professor de história da arquitetura da Unesp, ex-conselheiro do Condephaat e membro do S.O.S. Ferrovias

"O tombamento vai proteger o aspecto arquitetônico de todo Parque Ferroviário. A partir dessa medida, qualquer empresa ou órgão público que vir a ocupar o local não poderá mudar sua fachada ou seu interior.

É uma maravilha para Bauru."

Fábio Pallotta, professor, membro do Movimento S.O.S. Ferrovias e presidente da Associação dos Amigos dos Museus de Bauru

"É uma vitória muito importante para Bauru. Lutamos muito para que isso fosse concretizado. Não dá para falar de Bauru sem citar a ferrovia, é como negar nossa identidade. O Parque Ferroviário tem um valor arquitetônico e histórico importante e precisa ser preservado. Infelizmente, não vemos perspectiva do governo retomar esse tipo de transporte."

Sérgio Losnak, secretário municipal da Cultura, geógrafo e membro do Movimento S.O.S. Ferrovias

"Esse resgate é muito importante e vem de encontro aos anseios do povo bauruense, principalmente da antiga classe ferroviária, que assistia estarrecida à depredação do Parque Ferroviário. Espero que o tombamento não fique só no papel, é preciso recuperar os imóveis e torná-los novamente um cartão de visitas de Bauru, como era antigamente."

Luciano Dias Pires, historiador, diretor do Instituto Histórico Antônio Eufrásio de Toledo e ex-ferroviário

Ocupação ajudaria na preservação

Texto: Daniela Bochembuzo

Para especialista, a melhor forma de preservar o patrimônio histórico seria uma ocupação racional dos espaços

Abrangendo construções com quase um século de fundação, o Parque Ferroviário de Bauru possui várias áreas depredadas. Vidros quebrados, cupins, paredes despedaçando e estruturas de ferro corroídas fazem parte desse cenário desolador.

Agora, com o tombamento, especialistas nas áreas de história, geografia e arquitetura acreditam ser possível catalisar o movimento pela preservação do patrimônio ferroviário da cidade.

O primeiro passo para a preservação, concordam os especialistas, é a ocupação do imóvel.

"Um edifício desse porte e desocupado pode sofrer rápida degradação. Deixá-lo abandonado

é a melhor forma de estragá-lo. É imperioso iniciar a ocupação desse patrimônio", afirma Nilson Ghirardello, professor de história da arquitetura e membro do Movimento S.O.S. Ferrovias.

Ghirardello defende que o Parque Ferroviário seja sede da Administração municipal e tenha seus espaços livres transformados em áreas culturais e esportivas.

Projeto semelhante tem o geógrafo Sérgio Losnak, secretário municipal da Cultura. "O Parque Ferroviário poderia se tornar uma área de multimeios. Depois do tombamento, essa é a nossa próxima batalha", garante.

Losnak também concorda que a ocupação é a melhor maneira de preservar o imóvel. "Infelizmente, a Rede Ferroviária Federal ainda insiste na venda do parque. Não conseguimos ainda sensibilizá-los sobre a importância desse patrimônio pertencer a Bauru", conta.

Em Piracicaba, por exemplo, a antiga Estação da Paulista foi recuperada e transformada em local para feiras e exposições. Aos domingos, pequenos produtores rurais vendem lá seus produtos. Em Curitiba, uma antiga estação foi ocupada pela iniciativa privada e transformada em centro de lazer, com cinemas, parque de diversões e lojas. Até mesmo uma locomotiva foi restauradas para ficar no local.

Em Bauru, no entanto, a rede tem feito muito pouco para preservar as locomotivas e outros itens que pertenceram à Noroeste do Brasil, como são os casos dos vagões. Felizmente, o Movimento S.O.S. Ferrovias tem conseguido reverter esse quadro por meio de parcerias.

Uma delas foi firmada com uma empresa de Campinas, que irá orientar ex-ferroviários de Bauru na recuperação de uma composição, que encontra-se em local descoberto, sofrendo a ação de chuvas e do sol.

O ex-ferroviário Gabriel Pellegrina, hoje diretor do Núcleo de História da Universidade do Sagrado Coração

(USC), vê com tristeza o estado a que foram reduzidos os imóveis e vagões da antiga Noroeste do Brasil.

"Acho que, a partir do tombamento, a população precisa se preocupar em lutar pela preservação desse patrimônio. Não podemos deixar que o Parque Ferroviário chegue ao estado das antigas Indústrias Matarazzo, em São Paulo, que tiveram que ser demolidas", argumenta.

Para Pellegrina, a população bauruense precisa se unir para cobrar o restauro, a preservação e a manutenção do Parque Ferroviário. "Quem irá restaurá-lo, fazer a manutenção e fiscalizar tudo isso? Essas são perguntas que devem ser feitas", diz.

Para sensibilizar a população sobre a importância de se preservar o patrimônio ferroviário de Bauru, Sérgio Losnak estuda, por meio do Condephaat municipal, a implantação de um projeto de conscientização sobre o tombamento junto a crianças.

"É preciso mudar a idéia de que o tombamento pode trazer prejuízo financeiro. As questões sobre manutenção e preservação devem ser salientadas e a preocupação com o patrimônio, generalizada", defende Losnak.

Primeiros ferroviários chegaram em 1904

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi instalada em Bauru a partir de 1904. A construção dos prédios, no entanto, começou em 1905. Um ano depois, mais exatamente em 27 de setembro, a cidade inauguraria seu primeiro trecho de ferrovia, que ia até Lauro Miller.

Com a ferrovia, a Noroeste visava integrar a fronteira Oeste do país e propiciar uma interligação com as ferrovias bolivianas. O traçado original, que se estenderia de Bauru a Corumbá, foi limitado em 1908 ao trecho Bauru-Itapura, sendo dada concessão do prolongamento à Estrada de Ferro Itapura-Corumbá. Em 1914, foi aberto o tráfego até Porto Esperança, ampliando sua extensão para 836 Km.

A segunda etapa da ferrovia foi encampada pela União em 1915 e a primeira, em 1917. Ambas foram reunidas em1918 sob a denominação de Estrada de Ferro Bauru-Porto Esperança. Em 1919, tomou o nome atual. Quatro anos depois, inaugurou-se o ramal Pirajuí e, em 1926, a ponte Francisco de Sá, sobre o rio Paraná.

Em 1944, a ferrovia entregou ao tráfego o trecho entre Indubrasil e Maracaju, no Ramal de Ponta Porã. Em 1947, ocorreu a inauguração da ponte Barão do Rio Branco sobre o rio Paraguai. Os trilhos chegaram em Corumbá em 1952, quando finalmente realizou-se a junção com a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia. Essa união propiciou, cinco anos, que a empresa fosse incorporada à Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (R.F.F.S.A.).

No início dos anos 90, a ferrovia sofreu várias transformações. O serviço de transporte de passageiros foi suspenso e iniciou-se uma restruturação administrativa para que pudesse ser iniciado o processo da privatização das ferrovias no Brasil.

A privatização ocorreu no dia 5 de março de 1996 e no dia 1º de julho de 1996 iniciou-se a administração da ferrovia pelo Noel Group, um fundo de investimentos de Nova York (EUA). A empresa passou a ser chamada de Ferrovia Novoeste S.A.. (DB)