08 de julho de 2026
Geral

Filhos especiais

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Mãe do coração

Texto: Gustavo Cândido

Com 29 anos de experiência como professora, Olga Bicudo Tognozzi, foi uma das responsáveis pela formação de centenas de crianças, seus alunos, de quem sempre se considerou um pouco mãe. À frente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Bauru (APAE - Bauru) desde 1982, ela têm hoje outras centenas de "filhos". Especialmente para o Dia das Mães, essa notável mulher, conversou com JC sobre a APAE, sua vida e a maternidade em algumas de suas formas.

Jornal da Cidade - Qual a sua formação?

Olga Bicudo Tognozzi - Eu fiz magistério, dei aula até 1979, quando me aposentei. Comecei a dar aulas em 1950. Fui professora de 1ª a 4ª série na zona rural onde fiquei até 1962. Era um tempo no qual a professora andava a pé, a cavalo, tomava chuva e fugia de marginais, tudo isso. Foram 12 anos acordando de madrugada para dar aula. Depois fui removida para a cidade, onde dei aula até me aposentar. Me aposentei por causa da APAE.

JC - Como a senhora conheceu e entrou para a diretoria da APAE?

Olga - Eu considero a minha estada na APAE um desígnio de Deus. Eu tive uma vida bastante acidentada profissionalmente e jamais pensei em fazer parte de alguma entidade, queria me aposentar e ficar em casa, desfrutando dos meus familiares, viajando. Mas meu marido tinha um gosto pela filantropia e ajudava muito o Rafael Maurício. Como professora eu sempre levei os alunos para passeios e também os levava no Rafael Maurício, que eu continuei ajudando após o falecimento do meu marido, já que além das minhas doações, toda vez que levava minhas crianças lá, elas levavam algum alimento não-perecível. Tenho uma amiga, que também lecionou comigo, que têm uma filha na APAE. Em 1976, quando eles foram mudar a diretoria da entidade, que era presidida pelo Sr. Alberto Segalla, uma pessoa muito íntegra, cuja memória eu respeito muito, a APAE precisava de elementos para compor o novo quadro. O Sr. Alberto achava que as mulheres tinham mais habilidade para trabalhar conseguindo doações do que os homens e queria mais mulheres na diretoria da APAE. Como eles achavam que eu tinha espírito de liderança, queriam que eu fosse para lá para conseguir algo mais para a entidade. Relutei muito para aceitar esse convite, coloquei muitos impecilhos, disse que tinha que tomar conta de um sobrinho que morava comigo, disse que tinha compromissos profissionais

(porque na época ainda dava aulas) e que com isso não tinha tempo para me dedicar, já que nunca tinha feito algo parecido antes. Comecei a procurar pessoas para assumir o cargo no meu lugar e não encontrei. Até que no dia 19/02/76, o Sr. Alberto escreveu na "Coluna do leitor" do JC, um artigo falando sobre a rejeição pelo excepcional. Na mesma época a televisão exibia a novela "O Grito", que era a história de um excepcional e o texto dele falava que rejeição não era só não querer conviver ou ouvir os gritos, mas também se negar a dar um pouco de si. Senti que o texto havia sido bem direto para mim, mas relutei, não achei que essas palavras fosse fazer a diferença. Mas à noite ele foi em minha casa junto com o tesoureiro da entidade, Sr. Fernando Carvalho Pinto e me convidou de novo. Achei que seria muito deselegante dizer não e aceitei com a condição de apenas ficar responsável por montar grupos de arrecadação e pensar em novas fórmulas. Deixei bem claro que era uma coisa temporária. Estou na APAE há 24 anos.

JC - A senhora se aposentou por causa da APAE?

Olga - Em 1979 achei que já tinha feito a minha parte como professora e já estava ficando muito estafada por fazer dois trabalhos muito pesados, então me aposentei e fiquei só me dedicando à APAE, fui abolindo todas as minhas atividades, acredito que quando se abraça uma bandeira é preciso fazer de tudo para deixá-la sempre no alto, fazendo todo tipo de trabalho bem feito, com dedicação. Sou presidente desde 1982, quando, infelizmente, o Sr. Alberto faleceu e me deixou o cargo. Desde então trabalho sem interrupções, todos os dias, sem férias, pela APAE. Já coloquei o meu cargo à disposição várias vezes mas até agora ninguém quis ser presidente, acho que é preciso haver uma renovação. Enquanto isso eu procuro corresponder ao máximo a confiança que a comunidade tem depositado em mim. Deus desviou o meu destino e me colocou na APAE então também tenho uma responsabilidade com ele, por isso estou há tanto tempo na presidência da entidade.

JC - As pessoas sabem exatamente qual o trabalho da APAE hoje em dia? Fazem muitas visitas?

Olga - Existe uma passagem, da época em que eu dava aula, que eu acho importante falar, porque mostra como as visitas

às instituições são necessárias. A gente recebe muitas visitas na APAE, mas muita gente também não conhece o nosso trabalho. Não somos uma escola com um amontoado de crianças que só se alimentam e brincam. Nós procuramos dar o melhor tipo de atendimento possível para os nossos usuários, através de vários programas. Nós também nos preocupamos muito com os adolescentes e os adultos que precisam de cuidados especias. Primeiramente nossa preocupação e reabilitação da criança, hoje nós já pensamos até a fase adulta e trabalhamos com projetos de profissionalização, escolaridade, integração, área de saúde. Era importante que as pessoas pudessem conhecer esse trabalho, porque nós dependemos basicamente da comunidade para tocar a entidade, já que não temos tido muitas ajudas governamentais. Mas a passagem a qual eu me referi sobre a importância das visitas é a seguinte: os pais que têm filhos sadios possuem a maior riqueza que existe. Isso é mais valioso que qualquer propriedade, qualquer carro do último tipo, mas nem sempre eles se lembram disso. Um dia, quando dava aula, levei uma turma de alunos para o Rafael Maurício, vimos as crianças, ficamos lá um bom tempo e meus alunos gostaram muito. Muito tempo depois, na sala de aula, eu falava sobre a felicidade, quando um aluno (cujo primeiro nome eu não lembro), me disse que era infeliz. Fiquei espantada com essa afirmação de uma criança de 10 anos na minha sala de aula. Pedi para que ele se levantasse e disse que como ele havia dito o que sentia, tinha me dado liberdade de poder saber o que acontecia com ele. O aluno começou a contar a sua vida e falou que morava só com o avô, que a mãe não parava em casa e, conseqüentemente, ele era o responsável por cuidar de tudo, fazer café da manhã, limpar a casa, fazer almoço. Ele ainda vendia "laranjinha", que era aquela laranja plástica com suco dentro. Com isso o menino ia dormir muito tarde, depois que já tivesse feito o jantar e a tarefa de casa. Depois que ele contou a sua história, perguntei: esse é todo o seu problema? Essa é toda a sua tristeza? Ele disse que sim. Dai fiz ele lembrar da visita que tínhamos feito ao Rafael Maurício e, especialmente, de um menino que não andava, não falava e tinha convulsões e por isso dormia em duas camas juntas porque tinham medo que ele caísse. Fiz meu aluno refletir sobre o fato de ter uma família, de, apesar de tudo, ter comida em casa, ter a oportunidade de estudar. Perguntei: "Quem é mais feliz, você ou ele?". Ele viu que realmente existiam tristezas e problemas maiores que os dele. Me propus a ser sua segunda mãe e ajudá-lo em tudo o que fosse preciso. Ele disse que ia rever a sua vida e agradecer a Deus por ser saudável todos os dias. Dai eu vejo a importância de se fazer uma visita, levar os filhos para ver, porque muitas crianças têm de tudo na vida e ainda sim reclamam. As crianças na APAE são muito felizes, eu aprendo muito com elas... não sei dizer se nós é que somos os especiais ou se são eles. A criança especial é pura, não fala nada por maldade, mas nós somos hipócritas

às vezes, escondemos muita coisa que queríamos externar...

JC - Quantas crianças estão na APAE hoje?

Olga - Estamos com 370, quando o número deveria ser um pouco maior do que 200. Existem, mais ou menos, 80 crianças esperando uma vaga mas não podemos atendê-los porque não temos condições. Mas assim que surge uma oportunidade, eles entram para a APAE.

JC - A senhora não tem filhos, mas poderia dizer que, além do seu sobrinho, que morou na sua casa, seus alunos e as crianças da APAE foram (e ainda são) seus filhos?

Olga - Meu sobrinho é filho de uma irmã, ele veio morar comigo para estudar em Bauru e acabou ficando. Na realidade ele pretendia ir embora depois de terminar a faculdade mas ficou depois que o meu marido faleceu e só saiu da minha casa quando se casou. Eu o considero como um filho sim. Eu nunca tive filhos mas não tenho frustrações por isso. A mulher foi criada por Deus para ser a procriadora e muitas mulheres sentem revolta por não terem tido um filho, mas eu não me sinto assim. Se eu não tive filhos é porque Deus achou que eu teria outra missão para seguir, não fui uma mãe uterina mas sou uma mãe do coração. Eu avalio o que é ser uma mãe uterina mas também ser o que é uma mãe do coração.