07 de julho de 2026
Geral

Manicômios

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 4 min

Dia da Luta Antimanicomial tem atividades variadas

Texto: Adriana Rota

O Dia Internacional da Luta Antimanicomial, comemorado ontem, contou com discussões a partir de relatos de experiências, com a formação de um núcleo de luta antimanicomial em Bauru e de uma associação que pretende reunir familiares e usuários dos serviços de saúde mental de Bauru e região. Na Sociedade Beneficente Cristã

(Paiva), os atendidos puderam expor seus artesanatos, tocar, cantar e dançar durante a tarde.

Partindo do pressuposto que saúde mental não é a simples ausência de conflitos, angústias e crises

- porque estas fazem parte da própria existência

- mas a dificuldade de superar essas situações, profissionais de diversas áreas empenharam-se durante toda essa semana para repensar o tratamento ao qual as pessoas com transtornos mentais são submetidas.

A Comissão de Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica de Bauru e o Conselho Municipal de Saúde, apoiados pela subsede do Conselho Regional de Psicologia, pelo Conselho Regional de Serviço Social, pela Secretaria Municipal de Saúde e pela Associação Brasileira de Psicologia Social, está desde o dia 2 de maio realizando conversas informativas nas unidades de saúde do Município e do Estado e veiculando informações sobre saúde mental através da mídia.

Nesta semana, uma programação especial contou com debates, manifesto na Câmara Municipal e palestras. Para finalizar, ontem à noite, representantes dos serviços de saúde mental em Bauru estiveram presentes na Associação dos Aposentados, dentre outros objetivos, para formar o Núcleo de Luta Antimanicomial de Bauru e a Associação dos Familiares e Usuários dos Serviços de Saúde Mental de Bauru e Região.

A Associação dos Psicólogos de Bauru e Região fez um encontro para relatos de experiências, com a participação de psiquiatras, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistentes sociais. O objetivo foi difundir a conscientização de que as pessoas com transtornos mentais precisam de um tratamento digno e humanitário, com vistas a retornarem à sociabilidade.

Paiva tem domingo em plena quinta-feira

Uma dessas profissionais, a enfermeira Laudicéia Crivelaro, colaborou para que os pacientes do Paiva tivessem um dia de domingo em plena quinta-feira: eles passaram a tarde em diversas dependências da instituição, cantando, dançando e tocando instrumentos que eles próprios fabricaram sob instrução de um voluntário. Também houve exposição do artesanato produzido por eles, que rotineiramente ocorre somente aos domingos, das 14 às 16 horas.

Laudicéia falou das dificuldades enfrentadas no ano passado entre os próprios colegas de trabalho, devido à bandeira levantada contra os manicômios. Amenizada a situação, pela primeira vez a discussão adentrou os portões do Paiva. "O doente mental, antes de tudo, é humano. Ele precisa somente de respeito", disse.

Trajando uma camiseta com os dizeres "De perto ninguém

é normal", a enfermeira contou da luta pela ressocialização pelo menos de parte dos 278 pacientes crônicos atendidos pelo Paiva e 140 agudos (que permanecem somente em períodos de surto).

À medida que o tratamento vai surtindo efeito, os que têm possibilidades deixam o quarto comum da enfermaria e passam a viver nas alas, com menos pessoas - hoje, são 20. "Eles são treinados para viver numa casa", explicou. Mais tarde, passam para o Lar Abrigado, que conta com 24 pacientes divididos em duas casas para homens e duas para mulheres, próximas da instituição, onde passam a viver em repúblicas, sob supervisão diária dos profissionais.

A comemoração no Paiva só termina hoje, com uma palestra sobre o trabalho do terapeuta ocupacional voltado para os profissionais da instituição. Segunda-feira, a palestra foi sobre a área de Serviço Social (aproveitando a comemoração do seu dia). Ao longo da semana, o pessoal da enfermagem e da psicologia também palestraram.

O movimento

Uma existência saudável pressupõe a participação consciente na sociedade, conhecer a realidade e querer modificá-la.

É um processo de natureza coletiva, construído socialmente nas relações que estabelecemos com as outras pessoas, sejam as mais próximas (família, amigos, vizinhos, etc.) bem como as mais distantes (colegas de trabalho, colegas de transporte coletivo, etc.).

Com essa compreensão de saúde mental, foi criado aqui em Bauru em 1987, o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial. Ele formado por usuários, familiares, trabalhadores da

área de saúde mental, universidades, conselhos da

área de saúde, parlamentares e artistas, enfim, todas as pessoas que lutam pelo fim dos hospitais psiquiátricos como forma de tratamento aos portadores de transtornos mentais.

O movimento defende a existência de Modelos Substitutivos de Atenção à Saúde Mental, como Equipes Mínimas nos Núcleos de Saúde formadas por um psiquiatra, um psicólogo e um assistente social, Emergência Psiquiátrica junto ao Pronto-Socorro Geral, Núcleo de Apoio Psicossocial, Hospital-Dia, Lar Abrigado e leitos em Hospital Geral, investindo na prevenção e promoção de saúde/saúde mental.

Fonte - Movimento Luta Antimanicomial - Bauru - 2000.