07 de julho de 2026
Geral

Adoção

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 10 min

Falar abertamente sobre a adoção evita problemas

Texto: Adriana Rota

Qual o momento certo de revelar ao filho que ele é adotivo? Dúvida que parece um "bicho-de-sete-cabeças" para a maioria das pessoas, ela mostra-se inofensiva para os protagonistas das histórias reais. O segredo deles para driblar eventuais dificuldades é confirmado pela Psicologia: jamais esconder a verdade, ainda que com a intenção de proteger os filhos, para tornar o processo natural.

A psicoterapeuta infantil Marly Rodrigues Bighetti Godoy explicou que a adoção, assim como o nascimento biológico,

é um fato, e como tal deve ser tratado abertamente pelos pais e com a mesma intensidade. "Então, se ele for pequeno e você for comentar que ficou feliz com seu nascimento, diga que ficou feliz quando foi buscá-lo no hospital, momento em que ele nasceu no seu coração".

Ainda segundo a entrevistada, à medida em que a criança for crescendo, a pergunta geralmente acaba surgindo, não por desconfiança, mas porque entre as rodas de amiguinhos surgem assuntos sobre nascimentos. "Seja adotivo ou não, um dia o filho vai perguntar como nasceu. Nessa hora deve-se responder que ele nasceu de uma barriga, sim, mas de outra mãe".

Ela alerta que o segredo é agir com honestidade. "Ninguém gosta de ser enganado, especialmente quando trata-se dos pais. A situação é ainda mais complicada na adolescência, quando os conflitos estão mais presentes, é uma

época de contestação. O assunto deve sempre ser colocado de forma natural. Não se pode subestimar a capacidade afetiva do filho", alertou.

A terapia, de acordo com Marly, é indicada somente quando a criança tem dificuldades de relacionamento com o mundo ou quando os pais sentem-se inseguros. A troca de idéias com outras pessoas e a informação, especialmente antes da decisão de adotar, são fundamentais, na sua opinião. "A pessoa tem de passar por muitos questionamentos, para ter a certeza do que quer. As crianças, adotivas ou não, precisam de cuidados, como todo ser humano", disse.

Dose tripla

A contadora Ana Keila Toledo, 37 anos, segue a mesma linha de raciocínio. Casada com o administrador Mauro Leite Toledo Filho, 44 anos, ela é mãe de três crianças adotivas: Mariana, Yuri e Bárbara, de 9, 7 e 2 anos, respectivamente. Após dois anos de casamento eles souberam que não poderiam ter bebês e tomaram a decisão de adotar. Do primeiro para o segundo, o intervalo foi de 1 ano e dez meses

- o bebê teria "acontecido" na vida deles, não estava nos planos. A terceira veio após 5 anos, a pedido dos irmãos.

"Nunca escolhemos pelo sexo, raça ou condições de saúde. Costumo dizer que, quando a gente gera, não tem como devolver para ninguém. Por que seria assim com um adotivo?", questionou. Os dois maiores já sabem. O segredo foi enveredar pelo caminho do lúdico: muita leitura, muito filme e desenho animado que aborde o tema, como Tarzan, Ratinho Detetive, O Cão e a Raposa, A Vaca e a Galinha.

Sempre respeitando o grau de entendimento e esperando que as crianças perguntassem sobre o assunto (respondendo exatamente o questionamento feito), o casal fala abertamente: a mãe não podia gerar, então precisava de uma barriga emprestada, portanto, tornou-se mãe do coração. Uma das reações, considerada positiva pela mãe, foi quando Mariana vibrou por ter duas mães. Outra, quando na escola um amiguinho tentou depreciá-la e ela questionou: "Sou adotiva, algum problema?".

Ana Keila contou que nunca quis fazer tratamento para engravidar, porque acha que "Deus prepara o caminho". "Se não posso ser mãe desse jeito, vou ser de outro. Sou uma mulher realizada. Se Deus escolheu Maria para ser mãe de Jesus e José para ser seu pai adotivo, nós fomos escolhidas para cuidar dos filhos dEle, a dedo".

Harmonia

Um empresário e uma dentista, que preferiram não ser identificados, são pais de um garoto de 5 e uma garota de 9 anos de idade, ambos adotivos. O casal ainda não sabe como e quando vai contar, embora já tenha conversado muito sobre o assunto. Mas isso está longe de ser um problema para a família. "Para falar a verdade, nós vivemos numa harmonia tão grande que só lembramos que eles são adotivos quando falamos com alguém sobre isso", disse. O pai não acredita que vá enfrentar dificuldades quando o momento chegar, porque acha que o amor, aplicado na convivência diária, vai indicar o caminho. "Tudo vai da forma como você conduz as coisas", disse.

As adoções também ocorreram sem programação, embora o casal já soubesse de impedimentos naturais que dificultariam a geração de uma criança. Da garota, o casal soube através de uma vizinha que a família não ficaria com ela. Com o menino foi mais ou menos a mesma coisa: uma pessoa comentou que ele estava na maternidade à disposição de uma nova família. "Nem fomos ver, já pedimos para trazer. Era tudo o que a gente queria", contou, emocionado.

Sobre a possibilidade de outras adoções, o pai disse não estar descartada. "A gente acha que parou, mas achou isso também na primeira...". Indagado sobre possíveis dificuldades, ele não hesitou. "Os nossos filhos são tão especiais que, graças a Deus, nunca tivemos problemas. É maravilhoso. Eu recomendo".

À primeira vista

A médica nefrologista Maria Regina Trotta Pinheiro, 48 anos, compartilha o mesmo sentimento. Ela já era mãe de um adolescente de 17 anos quando decidiu adotar os gêmeos Vitor e Bruna, 8 anos, que na época tinham seis meses. A paixão à primeira vista ocorreu ainda no hospital, onde trabalhava. A mãe biológica já havia assinado um termo alegando que não tinha condições para criar as crianças, o que a deixou mais segura.

As únicas dificuldades encontradas por Maria Regina foram referentes à criação de gêmeos. "De resto, só tive vantagens". Vitor e Bruna sabem que são adotivos, processo que teve início quando tinham pouco mais de 1 ano. "Comecei falando que eles não eram filhos da minha barriga. Se a criança sentir-se segura e amada, não vai haver problema", acredita.

A razão para a adoção foi um problema de saúde que a impedia de ter mais filhos. Mas o exemplo veio de casa: sua mãe sempre tratou de crianças cujos pais não podiam criá-las. Mais dinheiro e menos trabalho poderiam resultar em novas adoções, embora a médica ache que "já está meio tarde,

é preciso acompanhar o crescimento". Sobre possíveis diferenças entre o filho biológico e os adotivos, ela comparou a uma loteria: independentemente de sua "origem", ele pode ser bom ou mau.

Divorciada há seis meses do enfermeiro José Aparecido Humberto, nesse ponto ela acredita que o fato de serem adotivos pesou. "Talvez tivéssemos nos separado antes". Mas Maria Regina não acredita que esse seja um fator prejudicial para as crianças. "Temos de prepará-las para o mundo", ensinou. O ato da adoção, para ela, não tem nada a ver com caridade: "Oferecemos uma oportunidade para duas pessoas, e elas preencheram uma necessidade nossa. Meu filho está nos Estados Unidos. Se não fossem eles, hoje eu estaria totalmente sozinha", disse, satisfeita.

Duas mães e um pai

O comerciante Vilson Bosqui, 43 anos, viveu a mesma situação. Separado há quatro anos, teve a felicidade de o filho Rafael, 11 anos, optar por morar com ele. Adotado aos nove meses, desde pequeno o garoto foi informado sobre a sua condição.

"Se você quiser saber quando, exatamente, ele perguntou pela primeira vez, não saberia dizer". Sobre a iniciativa de adotar uma criança, Bosqui também não soube precisar o porquê. "Tenho uma filha biológica de 21 anos, mas sempre quis adotar alguém. Como ela também participou dos planos, não houve problemas, a não ser aqueles normais de família".

A separação, por exemplo, trouxe preocupações, não especificamente com Rafael, mas com ambos os filhos. Houve também alguns inconvenientes, especialmente quando o garoto era menor, como aquelas perguntas "sua esposa é morena?", pelo fato de Rafael ser um pouco mais escuro que seus pais, mas a família tirou de letra. "Basta ter amor, carinho", ensinou o pai.

Sobre eventuais preocupações, como se a criança seria saudável ou não, se teria propensão a desenvolver determinados vícios, dentre outros, referentes a eventuais características hereditárias, Bosqui foi preciso. "A gente nunca tem garantia que o filho natural será 100% perfeito. Por isso, nunca me preocupei".

O comerciante contou que, um belo dia, Rafael disse que queria conhecer sua mãe biológica. Como Bosqui mantinha contato com ela desde a adoção - ela telefonava para acompanhar o crescimento do garoto - o pai providenciou um encontro entre os dois, em outubro do ano passado. Desde então, Rafael teve de aprender a dividir-se entre a casa de seu pai, a de sua mãe adotiva (onde também mora sua irmã) e de sua mãe biológica (que tem duas outras filhas pequenas).

Hoje, ele disse entender que sua mãe biológica não teve condições de criá-lo, e fala abertamente sobre o assunto. Afirmou, ainda, considerar-se sortudo por ter duas mães e um pai que o amam. O garoto descreveu seu encontro com uma frase simples. "Fiquei feliz". Contou que o coração "bateu forte" na ocasião e, indagado sobre o que gostaria de dizer para sua mãe biológica, não hesitou. "Eu te amo, de coração". Rafael relatou, ainda, que esse sentimento é bem diferente de algum tempo atrás. "Quando eu tinha 7 anos, achava que minha mãe biológica era seqüestradora". Descrita como "magra, pequena e chata", a mãe manteve apenas os dois primeiros adjetivos depois que estreitou os laços.

Pais reúnem-se para troca de experiências

Ana Keila e Mauro fazem parte de um grupo formado por dez casais e uma pessoas solteira, pais ou futuros pais de crianças adotivas, que se reúnem uma vez por mês para discutir o assunto, assistir a palestras, dentre outras atividades.

Esse grupo foi formado a partir de uma reunião convocada em dezembro do ano passado pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude, Ubirajara Maintinguer, que pretendia eliminar dúvidas e despertar o interesse dos candidatos pelas crianças maiores e os adolescentes.

O sonho de Ana Keila é que esse pequeno grupo transforme-se num movimento no qual as crianças que estão sendo adotadas hoje possam falar sobre suas experiências para os demais. Ela disse que os pais questionam a si mesmos "por que não fiz isso antes?", tamanha a satisfação após a adoção.

De acordo com Maintinguer, um novo encontro está programado para o início do próximo mês, do qual participarão as pessoas cadastradas para adoção (hoje, são 56). A maior parte das crianças aptas para a adoção, sem embaraços legais, tem mais de dois anos de idade, faixa preferida pelos candidatos.

Embora a situação esteja modificando, de acordo com informações obtidas no Setor Técnico do Fórum, ainda é necessário que as pessoas percebam que adotar crianças mais velhas pode ser tão gratificante quanto bebês, embora os desafios sejam maiores. Há também o caso de crianças com doenças variadas, como portadores do vírus HIV, que também aguardam um lar.

Maintinguer informou, também, que Bauru está se organizando para propiciar adoções por parte de casais estrangeiros, através de cadastramento. Embora não seja o ideal, na sua opinião, essa é uma chance para as crianças e adolescentes que não conseguem ser adotados aqui. "A regra é viver com a família. A exceção é ser colocada para adoção. A exceção da exceção é ser adotado por uma família estrangeira", explicou.

Como adotar?

O candidato a pai precisa cadastrar-se no Setor de Serviço Social e Psicologia do Fórum, munido de atestado de saúde física e mental, certidão de casamento (quando casado), RG ou certidão de nascimento (quando solteiro), certidão de antecedentes cível e criminal, foto 3x4, comprovante de renda e de residência.