Iluminando a língua do Oriente
Texto: Gustavo Cândido
Bauruense por adoção, o empresário, professor e escritor Chafic Elia Said é o responsável pelo mais recente best-seller made in Bauru: o livro "Árabe Coloquial Com Caracteres Ocidentais - Sem mestre", onde ensina de uma maneira fácil e prática, como dar os primeiros passos no idioma da sua terra natal, o Líbano. Seu livro, que já vendeu 5 mil cópias em todo o Brasil e já está para ser reeditado, fez um sucesso muito grande desde o lançamento, surpreendendo até mesmo o próprio autor, que começou a desenvolver um método de ensinar o árabe para resolver um problema familiar: a comunicação entre seus filhos brasileiros e seus pais libaneses. O sucesso do livro tem feito Chafic Said receber agradecimentos e honrarias por todo o País. O JC, conversou com o escritor sobre o seu trabalho.
Jornal da Cidade - Este é o seu primeiro livro?
Chafic Elia Said - Sim. Isso aconteceu porque meus pais não conseguiam conversar direito com os meus filhos. Sempre lembro da frase: "Só o amor constrói". Foi por isso que comecei a ensinar meus filhos a falarem o árabe, depois ensinei meus sobrinhos, abri uma escola. Fui adquirindo experiência com as apostilas do curso e tudo isso acabou no livro. Eu nunca pensei em fazer esse livro mas o amor dos meus pais e o amor dos meus filhos me inspirou.
JC - Qual é o segredo para o sucesso do livro?
Chafic - Desde de 1912, mais de trinta autores escreveram sobre a forma coloquial da língua árabe, com caracteres ocidentais, como eu fiz no meu livro, a diferença é que as pessoas dizem, inclusive um rapaz que tem todos os livros publicados desde essa época, é que o meu é o mais simples e prático. Por isso foi bem aceito, uma pessoa sozinha pode ter uma noção boa da língua pelo livro. JC - O livro é composto de gramática e vocabulário e é bem completo. Como o senhor idealizou a estrutura, sem nunca ter escrito antes?
Chafic - Fiz o livro colocando o caminho mais curto para o aluno aprender a língua. Levou quatro ou cinco anos para organizar o método final. No período em que dei aula fui aperfeiçoando tudo. Não foi fácil não. Só o dicionário de 100 páginas no final do livro eu levei mais de um ano para fazer.
JC - Existe muita gente interessada em aprender árabe no Brasil?
Chafic - Tem sim. O número de brasileiros que procuram aprender a língua árabe, sem ter nenhum parentesco é o mesmo dos brasileiros que são descendentes de árabes ou libaneses. Isso me surpreendeu, porque a procura pelo livro também é grande por parte dos que não são patrícios.
JC - Quantas pessoas falam árabe no mundo?
Chafic - Só no Líbano são 4 milhões, mas fora do país existem 12 millhões de libaneses. Mas são muitos milhões de pessoas que falam o árabe.
É uma das línguas mais faladas do mundo, com o inglês, francês...
JC - É uma língua fácil?
Chafic - É, o método que eu coloquei no livro
é bom por isso. Quem viu disse que é mais fácil do falar inglês, que é considerada a mais fácil das línguas. Mas não o árabe clássico, só o coloquial. O você demora três meses para aprender em árabe, demoraria um ano em inglês. Todos os alunos que tinham dúvida se iam aprender a língua no curso, depois de três meses já acreditavam. Isso me deixou muito satisfeito.
JC - O árabe do Líbano é o mesmo da Argélia e da Arábia Saudita? A língua tem muitas variações?
Chafic - Tem sim, de uma cidade para outra, de um país para outro também. O meu livro serve principalmente para o Líbano, a Síria, a Jordânia, a Palestina, O Iraque, a Arábia e os Emirados Árabes. As diferenças nesses lugares é mínima, como se fosse do português do nordestino ou do gaúcho, para o português do carioca. Já nos outros países, como a Argélia, a Tunísia ou o Egito, onde a língua é bem difícil, a diferença é maior, como se fosse o português de Portugal com o português do Brasil. JC - Mas as pessoas já estão usando esse livro para viajar, não estão?
Chafic - Sim. O número de viagens para o Líbano aumentou em 30% depois do lançamento do livro. Essa informação
é oficial, do Embaixador do Líbano no Brasil. Outro dia recebi uma carta de um senhor que, com cinqüenta anos, nunca tinha ido ao Líbano, a terra dos seus pais. Ele me escreveu para dizer que, com o livro, ele se sentiu pronto para viajar para lá pela primeira vez, sem passar vergonha por não saber como falar a língua. Imagine o número de pessoas nessa mesma situação... O livro facilitou muito.
JC - O senhor tem recebido muitas cartas de pessoas de todo o Brasil falando do seu livro. O que sente quando um jovem diz que o seu livro é uma "jóia rara" ?
Chafic - Quando um não-descendente, como no caso desse menino, que é japonês, diz isso sobre o meu livro eu fico muito emocionado e isso me estimula a fazer mais coisas ainda. Estou escrevendo mais dois livros, um com caracteres
árabes e outro de bolso, para viagem. Os dois devem ficar prontos até o final do ano.
Brasil: segunda pátria
Chafic Said nasceu em 1936, em Ebel El Saki, no sul do Líbano. Iniciou os estudos na sua cidade mas mudou-se para Sidon, onde concluiu o ensino médio e cursou a Escola de Belas Artes. Seguindo o irmão Georges, veio para o Brasil em 1956 e desde 64 está em Bauru, onde fundou a "Casa Alvorada"
(mais tarde "Denytex", na Batista de Carvalho. Estudou na Faculdade de Ciências da Fundação Educacional de Bauru, onde se formou em 1973, em Desenho, Plástica e Educação Artística e atuou por oito anos como professor na rede estadual. Hoje dedica-se ao comércio e à administração dos seus negócios, além de escrever sobre a língua árabe.