08 de julho de 2026
Geral

Hospital infantil

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Boldrini é centro latino de referência

Texto: Sabrina Magalhães

Especialista afirma que o diagnóstico depende exclusivamente do médico e que nem todos estão preparados para identificar as doenças

O Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A. Boldrini, mais conhecido como Centro Infantil Dr. Boldrini, é referência latino-americana no tratamento de crianças com câncer e doenças do sangue. Por ele já passaram cerca de 10 mil pacientes, com índices de cura de até 80% em alguns tipos de câncer. Números comparáveis aos do Primeiro Mundo.

Fundado em 1978, saiu de um porão para transformar-se num grande hospital, onde o paciente encontra quase tudo de que precisa no mesmo lugar. E o que ele não encontra já faz parte dos projetos que devem ser executados num prazo de três anos.

De acordo com sua fundadora e presidente, a pediatra Sílvia Regina Brandalise, o Centro surgiu de uma necessidade. Ela foi procurada pela família de um garoto de cinco anos de idade

(hoje com 27 anos) que tinha leucemia. Para cuidar da criança, ela achou necessário criar um ambulatório específico para esse tipo de doença. Então, montou a primeira unidade, no porão de uma casa vizinha à Santa Casa de Campinas (SP).

A partir dali, mais pacientes foram aparecendo e foi preciso transferir a unidade para outra casa e para outra e outra, até que, já na década de 80, o Centro conquistou seu espaço atual, contando com 63 leitos, 15 consultórios e capacidade para atender a 100 pacientes/dia, vindos das mais diversas regiões do Brasil e de outros países, somando cerca de 30 mil consultas por ano. Deste total, cerca de 80% dos atendimentos é feito através do Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com Brandalise, uma das marcas do hospital é conseguir reunir, em um mesmo ambiente, quase todos os exames e tratamentos de que o paciente pode precisar. Para isso, foi criado, em 1998, o Laboratório de Biologia Molecular, onde são feitos exames de DNA para investigar a origem das doenças. E há também o Centro de Transplante de Medula Óssea, com capacidade para fazer 60 transplantes por ano.

O único recurso que tem que ser feito fora do Centro é o tratamento radioterápico, mas o projeto de construção de um Centro de Radioterapia e Medicina Nuclear já está sendo desenvolvido e a promessa é de que o setor esteja funcionando, no máximo, até 2003.

E ainda nas metas para 2003 estão a construção de uma nova unidade de alojamento para pais, mais perto do hospital, e o Centro de Reabilitação e Esportes, que vai abrigar o Projeto Nadar e deve tornar as atividades de fisioterapia mais interessantes para o paciente.

Tratamentos

De acordo com o Ministério da Saúde, a cada ano, cerca de 6 a 8 mil crianças têm o diagnóstico de câncer no Brasil. Estima-se que 60% delas poderiam ser curadas, mas o diagnóstico tardio e a falta de acesso da população aos centros especializados inviabiliza esse resultado. No Boldrini, os índices de cura destas doenças chega aos 80%. Ali são tratados todos os tipos de câncer infantil conhecidos na literatura médica.

Em 1999, o Centro atendeu 888 casos novos, sendo 30% de câncer e o restante de doenças hematológicas. Do total de casos oncológicos, 77 pacientes eram portadores de leucemia

(80% de cura), 34 casos de tumores no sistema nervoso central

(60% de cura), 23 com linfomas (70% de cura) e 25 com tumores

ósseos (50% de cura).

Diagnóstico

Apesar dos números altos, ao contrário do adulto, o câncer infantil pode ser vencido, desde que detectado no início. E é aí que está a dificuldade. Segundo Brandalise, os primeiros sintomas do câncer são muito parecidos com os de várias outras doenças, como palidez, febre baixa ou dores localizadas. Para o leigo, portanto, perceber a doença é extremamente difícil.

No entanto, questionada a respeito do preparo dos pediatras para diagnosticar o câncer, Brandalise levantou um problema:

"Em geral, eles não estão preparados. Porque o currículo do curso de graduação em Medicina dedica poucas horas de sua grade para o estudo de câncer. Na Unicamp, por exemplo, são quatro horas para o câncer infantil nos seis anos de curso. Fica difícil trabalhar com diagnóstico precoce".

Segundo ela, o currículo de Medicina foi definido há 40-50 anos, época em que as doenças eram outras e as prioridades também. "É difícil você mudar o currículo, principalmente nas faculdades públicas. Prova disso são as ligas estudantis, que vêm sendo criadas nos últimos oito anos. Então, os alunos fazem liga de aids, de DST, de câncer e começam a ter aulas à noite, durante as férias, aos finais de semana, para suprir o que eles sentem que está faltando no currículo."

Para driblar essa situação, a pediatra sugere que os pais observem os sintomas dos filhos com cuidado. "E sempre que a avó não conseguir identificar um sintoma - porque diagnóstico de avó é 100% certo -, procure um médico. Cabe a ele saber que dois sintomas específicos, sem causa aparente, levantam a suspeita de um câncer."

Depoimento

"Olhando para trás, eu me sinto no meio. Sinto que algumas coisas já foram conquistadas, mas que tem um caminhão de outras coisa que eu conquistar. E o fato de estar no meio me dá mais pressa, porque se Deus me der mais 20 anos de vida, pelo menos tenho que completar... Porque não é só levantar paredes. Tem que levantar parede, pôr para funcionar e normatizar (...) Aqui, a gente tem um pouco de tudo, como a estátua que vi em Viena: as mães dizem que sou um anjo. Eu respondo que não é bem assim... tenho um terço de anjo, mas dois de leoa e uma pitada de mulher."