08 de julho de 2026
Geral

Hospital infantil

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

Equipe multidisciplinar trabalha com o todo

Texto: Sabrina Magalhães

Os pacientes internados recebem reforço escolar e podem até fazer provas no hospital. Tudo para garantir vida normal

à criança

Outra filosofia do Boldrini é que o paciente tem que ser tratado como um todo, respeitando-se não só suas limitações físicas, mas suas emoções e suas necessidades. "Quando você cuida do fígado de um paciente, você não está cuidando só de um fígado. Está cuidando de um ser, que é tão humano quanto seu cuidador", comenta a dentista e coordenadora da equipe multidisciplinar, Kátia Cappellari.

Segundo ela, a equipe é formada pelos mais diferentes profissionais, incluindo psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, professores de educação física, dentistas e artistas. Isso, sem contar os médicos e enfermeiros, que fazem um trabalho à parte, mas sempre em contato com os demais. Profissionais que se reúnem semanalmente para avaliar seus pacientes e bimestralmente para avaliar o funcionamento da equipe.

"Essas reuniões são importantes porque são os mais diferentes profissionais, com enfoques e olhares diferentes para o mesmo paciente. Então, temos abordagens diferentes para os mesmos problemas." Desta forma, trocando informações, cada cuidador acaba assumindo alguma característica do outro e acaba passando a avaliar o paciente como um todo. Então, o enfermeiro, na hora de dar o banho, também vai investigar se o paciente tem ido ao dentista. O dentista, quando observar um andar diferente, vai encaminhar o paciente ao fisioterapeuta, e assim por diante, sempre com o intuito de manter a saúde integral do indivíduo.

Fisioterapia

Sendo um hospital para tratamento de cânceres e doenças do sangue, a fisioterapia tem papel fundamental no tratamento. No caso dos pacientes hemofílicos, por exemplo, as hemorragias são uma ameaça constante às articulações

(cotovelos, joelhos, etc.). Por isso, o paciente tem que exercitar criteriosamente sua musculatura e fortalecê-la, tanto para prevenir danos, como para reabilitar o movimento dos membros.

A fisioterapia é necessária também para pacientes que têm câncer ósseo; para aqueles que tiveram um tumor extraído em determinadas regiões do corpo; ou mesmo para quem teve parte do membro amputada e precisa aprender a viver com uma prótese. Cabe a este setor determinar o tipo de exercício que pode ser praticado pela criança e ainda buscar alternativas para que ela não acabe sendo absolutamente excluída das atividades físicas.

"Neste sentido, foi criado o Projeto Nadar, uma iniciativa de professores de educação física, desenvolvido fora dos muros do Boldrini e voltado para os pacientes de hematologia

(doenças do sangue), pois, dentro da água, eles podem fazer movimentos que fora da água trariam riscos

às suas articulações. Na água não existe impacto. Sem contar que, com isso, você está dando vazão a uma energia que é inerente à criança e ao adolescente, principalmente aos meninos."

Cappellari destaca que a maioria destes pacientes acaba sendo excluída das aulas de Educação Física na escola, pois atividades como futebol e vôlei podem oferecer riscos à criança. Adaptando essas atividades físicas, o fisioterapeuta permite que o paciente que tem uma limitação seja normalmente inserido ao seu próprio meio, "que

é o que realmente se deseja".

Serviço Social

De acordo com a assistente social Maria de Lourdes Rezende Borges, por se tratar de um hospital onde cerca de 80% dos pacientes pertencem ao Sistema Único de Saúde (SUS), é comum que as famílias tenham dificuldades financeiras para seguir

à risca o tratamento, tornando o serviço social indispensável para a qualidade do trabalho.

Segundo ela, o transporte é a dificuldade mais comum para as famílias de baixa renda, sendo freqüente para aquelas que residem em outras cidades e precisam estar no Boldrini regularmente. Pacientes em quimioterapia, por exemplo, precisam passar horas no hospital nos dias de tomar a medicação. Nestes casos, é o serviço social que vai entrar em contato com as Prefeituras para solicitar o transporte.

"Então, esse é o nosso trabalho. Agilizar exames, atender a família que precisa de internação, encaminhar ao alojamento, providenciar recursos para quem tem que fazer exames em outras instituições que não o próprio Boldrini, enfim, trabalhar toda situação social que se apresente como entrave ao tratamento. Isso vai desde o preparo da família quanto às questões de higiene para visitantes, até à comunicação de um óbito e as orientações de como proceder."

Dentista

À primeira vista, a idéia de haver dentistas no quadro de funcionários do hospital surpreende. Mas questionada a esse respeito, Cappellari respondeu logo: "Em primeiro lugar, a boca faz parte do corpo e precisa estar saudável. Em segundo, temos que manter a qualidade de vida do paciente".

Com relação ao primeiro aspecto, ela explicou que boa parte dos pacientes no Boldrini recebe medicamentos que deprimem o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo às doenças. É o caso, por exemplo, de quem vai receber um transplante de medula: o sistema imunológico

é desativado para que o organismo não reaja às novas células.

"Neste momento, uma simples unha encravada representa risco ao paciente, porque ali tem uma bactéria, tem uma infecção, que pode levar até à perda do dedo ou do pé. Um dente infeccionado pode ser ainda pior, pois ele está dentro do osso e uma infecção no dente significa uma infecção intra-óssea em um paciente sem defesa. A boca é um meio riquíssimo de germes, os mais variados. Então, é preciso ter cuidados odontológicos rígidos, para minimizar os riscos ao paciente."

Quanto à qualidade de vida, a dentista afirma que alguns tratamentos para o câncer, principalmente a radioterapia, podem danificar os dentes, principalmente no caso de tumores de cabeça e pescoço, em que a boca recebe irradiação. Sem um preparo correto, pode haver destruições dentais severas num futuro bem breve. "Então, como fica o paciente para quem você devolve a vida, mas destrói o sorriso? Ele é nosso cartão de visitas."

Cappellari comenta que na área da hematologia, os cuidados devem ser ainda mais precoces, pois os pacientes têm dificuldade de coagulação, de modo que uma simples anestesia pode provocar hemorragia. "Nos dias de hoje, não justifica esses pacientes terem uma perda de dentes, porque eles vêm para o médico assim que nascem. Se os pais forem orientados quanto à higienização, com uso de selante e flúor e uma boa orientação de dieta, não existe porquê ele ter cárie."

Pensando nisso, foi criado o projeto Saúde Sorriso, que objetiva o paciente zero cárie, ou seja, sem cárie nenhuma. Para isso, a criança tem que ser tratada desde que nasce. Um programa que, na opinião da dentista, os Estados deveriam estender à toda a população, pois é um tratamento incomparavelmente mais barato que o curativo e absolutamente indolor.

Estudando no hospital

Manter a regularidade da criança na escola é outro objetivo do Boldrini. Isso vale tanto para os pacientes internados, quanto para aqueles que estão passando um tempo nos alojamentos porque moram em cidades distantes. Um trabalho que é feito em parceria com a Prefeitura de Campinas, que custeia os serviços de duas professoras especialmente para o Centro.

"Quem cuida de criança sabe que a escola faz parte da vida infantil. Ela não se assusta, por exemplo, diante de um diagnóstico, porque na realidade nem sabe do que se trata. Mas se você falar que ela vai ter que faltar à escola, isso vai ser pior que a própria doença. Aí ela percebe que realmente está acontecendo alguma coisa muito grave", observa Sílvia Brandalise.

Kátia Cappellari completa, lembrando que é preciso manter a rotina e as responsabilidades da criança para que ela possa amadurecer e acompanhar o desenvolvimento de seus coleguinhas.

Para isso, as pedagogas do Boldrini atuam fazendo uma ponte com a escola de origem da criança. Elas entram em contato para saber qual o currículo, quais matérias estão sendo ministradas e dão aulas de reforço ao paciente. Em épocas de prova, a escola envia a prova, o aluno faz no próprio hospital e as pedagogas remetem à escola, permitindo que o aluno tenha a continuidade em seus estudos, respeitando suas limitações. "A escolaridade é um direito dele e isso não pode ser negado", destaca Cappellari.

Com esse trabalho, quando a criança volta à sua cidade ou deixa a internação, ela tem condições de continuar acompanhando sua turma, sem prejuízos para seu aprendizado. E mais que isso: sem sentir-se atrasada ou segregada de seu meio, mantendo um "vínculo com a normalidade".

Conforme Cappellari, as doenças abordadas pelo Boldrini exigem tratamentos longos, com muitas idas ao hospital. "Dar

à criança um ambiente agradável é, no mínimo, nossa obrigação. Isso torna o ambiente mais salubre para todos: tanto para a criança, quanto para sua família e para os profissionais."