Polícia Civil de SP investiga e-mail de bauruense para Clinton
Texto: Adriana Rota
O Setor de Investigação de Crimes de Alta Tecnologia
(Sicat), ligado ao Departamento de Telemática (Detel) da Polícia Civil da Capital, está encarregado das investigações referentes ao envio de um e-mail de Bauru para o presidente norte-americano Bill Clinton, que teria teor de ameaça. Por questões de segurança, o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva preferiu não divulgar dados a respeito do caso. O provedor Adaptanet aguarda o recebimento de uma ordem judicial para liberar o cadastro do autor.
O assunto veio à tona na última sexta-feira, dando conta de que Clinton teria recebido ameaças de morte via Internet em abril deste ano. Como o serviço secreto norte-americano investiga qualquer tipo de ofensiva contra o presidente, o Federal Bureau Investigation (FBI) teria pedido à Polícia Civil de São Paulo que levantasse o assunto.
O delegado responsável pelo caso preferiu não fornecer detalhes, temendo que a divulgação resulte na multiplicação de atitudes do gênero. Ele afirmou, apenas, que desde a fundação do Sicat, em 1995, vários casos desse tipo já foram investigados, todos com sucesso. "Foram vários casos. Esse é só mais um, que não deveria ter 'vazado'", disse.
Segundo o entrevistado, o Sicat é formado por policiais que gostam de informática, não por especialistas. Na maior parte dos casos investigados até o momento, os
"criminosos" eram adolescentes que, por brincadeira, acabavam envolvendo-se com a Justiça. "A Internet dá uma sensação de impunidade muito grande", afirmou.
Quanto aos comentários de que não há a possibilidade de punir os responsáveis por falta de legislação específica sobre a Internet, o delegado esclarece que o impasse só ocorre em casos muito específicos, como invasões de sistemas. Para os crimes habituais, como estelionato, segue-se as determinações do Código Penal.
A Polícia Federal de Bauru e a Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (DIG/Garra), até a tarde de ontem não haviam recebido nenhuma incumbência referente ao caso, mas estão preparadas para possíveis diligências.
O provedor
O sócio-proprietário da Adaptanet, Airton Caetano, também preferiu manter sigilo sobre o assunto. Mas fez questão de esclarecer, logo no início da conversa, que as supostas ameaças de morte inexistem, embora não tenha tido acesso ao conteúdo do e-mail: seu teor seria de frases compostas por palavras de baixo calão.
Ele disse que o provedor recebeu um ofício da Polícia Civil da Capital, no início de maio, que solicitava os dados cadastrais do assinante. As informações, no entanto, só serão transmitidas mediante ordem judicial, como medida de resguardo, porque o usuário tem garantido o direito de sigilo sobre seus dados pessoais e, infringi-lo, pode resultar em sanções penais para o provedor.
Caetano explicou que cada conexão feita pela Internet carrega um IP, uma espécie de endereço que permite sua identificação. Foi essa informação, junto com o horário do acesso, fornecidos pela polícia, que permitiu aos profissionais do provedor chegarem ao acusado.
Indagado se teme represálias, Caetano afirmou que não.
"Não estamos indo contra a lei e temos mantido a ética profissional". Quanto a uma possível prejuízo para a imagem da empresa, decorrente da repercussão nacional do caso, o proprietário desconsidera essa possibilidade.
"Ao contrário, acho que vai pesar positivamente. Atuamos simplesmente como intermediários", completou.
Caetano não acredita que o episódio vá denegrir a imagem da Internet que, na sua opinião, continua sendo um meio absolutamente seguro. "O sigilo só foi quebrado porque quem recebeu o e-mail quis tomar a iniciativa". Ele avalia que a Rede tem vários aspectos hoje. "As pessoas estão usando mais, abusando mais e também protegendo-se mais, criando legislações".
Segundo Caetano, embora a idéia fosse não deixar a notícia vazar, acabou ficando uma lição: usando bem, a Internet não traz problemas. Caso contrário,
é sempre possível chegar aos responsáveis, que fatalmente seriam punidos.
Outras mensagens
Há informações não-oficiais de que outros dois e-mails brasileiros teriam sido enviados para Clinton: um de uma universidade da região Nordeste e outro de uma escola de Santos (São Paulo). O FBI estaria aguardando as identificações dessas pessoas que, independentemente dos resultados das investigações, ficariam proibidas de ingressar nos Estados Unidos.