Consumidor final ainda não tem juros correspondentes
à Selic
Texto: Paulo Toledo
A reunião do Comitê de Política Monetária
(Copom) foi dentro do esperado, ou seja, decidiu manter as taxas de juros básicas em 18,5% ao ano, com viés neutro, como previam os economistas. Pesou o quadro internacional e as projeções da economia brasileira para os próximos meses. Porém, apesar da manutenção da taxa Selic, os economistas não acreditam que a queda experimentada nos últimos meses vá chegar ao consumidor final.
O economista e chefe do Departamento de Economia da Faculdade de Economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE) Wagner Ismanhoto destaca que o problema é que os bancos se utilizam da desculpa que a inadimplência impede a queda dos juros. Segundo ele, do cobrado pelas instituições, somente uma parte é juros, o restante são os lucros e os valores embutidos para proteção contra a inadimplência, o chamado coeficiente de risco.
Ismanhoto disse que, pelo contrário, esse nervosismo do mercado pode fazer, até, com que haja um aumento das taxas de juros para os consumidores. Isso seria puxado pela alta do dólar e pelos reflexos da economia internacional.
O professor disse que o governo não interfere no assunto porque o crédito caro interessa, como forma de reduzir o consumo e segurar a inflação. Para ele, mesmo o aumento da dívida interna não assusta o governo, que acaba analisando como uma situação menos ruim.
Ismanhoto acredita que o Copom tomou a decisão certa em manter a Selic em 18,5% com viés neutro. Para ele, uma redução neste momento seria demagogia diante do quadro que se tem no mercado internacional. "Por outro lado, aumentar, no meu ponto de vista, seria demonstrar uma situação de não estabilidade, que não é a que o governo está passando", afirmou.
Porém, o professor acredita que, em meses anteriores, o governo perdeu a oportunidade de baixar a taxa Selic.
O economista e delegado do Conselho Regional de Economia, (Corecon) Reinaldo César Cafeo diz que a queda de juros não chegou ao consumidor final porque os bancos brasileiros são extremamente conservadores na concessão de crédito e os juros são apenas um dos componentes das taxas.
Cafeo lembra que, enquanto em países como os Estados Unidos o crédito representa cerca de 30% do Produto Interno Bruto
(PIB), no Brasil não passa de 10%. Portanto, analisa, existe um problema que envolve a liquidez do sistema. Os bancos preferem, neste momento, aplicar parte de seus ativos em moeda estável ou em títulos do governo, a estar oferecendo esse crédito.
"Então, você tem esse descompasso entre oferta e procura. Há mais demanda por crédito do que os bancos oferecem", afirmou.
Para Cafeo, mesmo o Programa de Geração de Renda e Emprego (Proger), que é um financiamento subsidiado, cobra uma média de 1,2% ao mês, que apesar de barato para a realidade brasileira, ainda é caro para a internacional. Ele diz que o consumidor final só vai sentir a redução na taxa de juros quando a Selic tiver uma redução mais drástica, o Banco Central desonerar o setor, inclusive com compulsório e, finalmente, quando houver uma clara disposição dos bancos de querer fazer com que esse dinheiro efetivamente saia de seus cofres e chegue ao público.
O delegado do Corecon acredita que alguns bancos estão segurando recursos para participar da privatização do Banespa.