07 de julho de 2026
Geral

Ocupação do câmpus

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

Alunos terão que desocupar a Fatec

Texto: Josefa Cunha

Os alunos da Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Jaú, que desde o dia 5 de maio último permanecem acampados no campus da faculdade, devem receber, na manhã de hoje, uma determinação judicial para desocupar o prédio. O pedido de reintegração de posse foi feito pelo diretor da instituição, Sérgio Lukine, através do Setor Jurídico do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, instituição mantenedora das unidades da Fatec em todo o Estado.

Os estudantes garantem que não vão resistir à ordem de desocupação, mas cogitam a possibilidade de prosseguir com a mobilização, agora nos arredores da faculdade.

O protesto dos alunos da Fatec de Jaú começou dias após o início da greve dos professores e funcionários da escola, que reivindicavam aumento salarial. Os estudantes se mobilizaram também em solidariedade aos professores, mas principalmente pelo interesse próprio de impedir a votação ou a aprovação de dois projetos, relativos às Fatecs, que tramitam na Assembléia Legislativa. Um deles, de autoria do governador Mário Covas (PSDB), propõe a desvinculação entre o Centro Paula Souza e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Na opinião dos alunos, o desligamento seria prejudicial em vários sentidos, especialmente porque perderiam a certificação do curso superior, atualmente emitida através da Unesp.

O outro projeto, de autoria do deputado Gilberto Kassab (PFL), prevê a vinculação permanente com a Unesp.

À primeira vista, a proposta parece ótima, mas os alunos temem problemas a médio e longo prazos. O vínculo permanente causaria a transferência, para a Unesp, da responsabilidade sobre as ETEs e ETAIs do Estado, que oferecem cursos profissionalizantes de segundo grau nas áreas de tecnologia e agricultura, respectivamente. Esses cursos, atualmente subordinados à Secretaria estadual da Educação, seriam transferidos

à Secretaria de Ciências e Tecnologia, e o receio

é de que esta pasta não tenha estrutura para manter o nível de ensino oferecido atualmente. "Para nós, somente interessa a retirada de ambos os projetos", enfatizou Carlos Eduardo Ruiz, um dos líderes da mobilização estudantil.

Segundo informações extra-oficiais, a discussão dos projetos referentes ao Centro Paula Souza poderia entrar na pauta da sessão de ontem, mas nada foi confirmado a respeito. Haveria, inclusive, especulações de que os projetos poderiam ser retirados da pauta, por seus autores, o que também não foi confirmado.

Reintegração

A decisão de pedir judicialmente a reintegração de posse do prédio da Fatec foi tomada há três dias, depois que os alunos acampados lá passaram a impedir a entrada dos funcionários e professores, por conta do retorno destes às atividades. "Até então, estávamos coexistindo no mesmo espaço. Eu mesmo havia cedido duas salas do prédio para os alunos ocuparem. Na quinta-feira passada, entretanto, resolvemos parar a greve, mas estamos impedidos de entrar na faculdade até agora.

É claro que não há qualquer tipo de animosidade, mas, enquanto diretor da faculdade, não posso permitir que o funcionamento da escola seja prejudicado", explicou Sérgio Lukine.

Desde a última terça-feira, funcionários e professores não conseguem entrar no prédio da Fatec. Os portões estão trancados com cadeados e não há permissão nem mesmo para que o cartão de ponto seja batido. A situação foi registrada em boletim de ocorrência policial e compôs-se uma lista com os nomes dos 31 manifestantes acampados. O procedimento teria sido solicitado pela diretoria do Centro Paula Souza. "Não sei para qual finalidade essa lista foi pedida. Talvez seja para futuras responsabilizações na esfera judicial, talvez apenas para facilitar a cobrança de gastos com telefone e Internet. Eles estão cientes das possíveis conseqüências", garantiu Lukine.

O diretor entende que as reivindicações dos alunos são justas, mas considerou exagerado o ato de tomar o prédio.

"Embora o manifesto seja pacífico, não podemos desconsiderar o fato de que eles estão impedindo o funcionamento normal da escola. Antes de entrar com o pedido de reintegração, eu tentei demovê-los dessa idéia, mas não consegui. Eles ainda têm a chance de rever a posição, antes da comunicação oficial do fato ao juiz. Se assim o fizerem, não terei problemas em abortar o processo", declarou Lukine.

O diretor disse que, pessoalmente, não acredita que a desvinculação com a Unesp venha causar prejuízos aos alunos - ao contrário, ele acha que o desligamento pode enaltecer o trabalho do Centro Paula Souza. "Os alunos temem que seus diplomas fiquem sem o nome da Unesp, mas a relação que temos com a universidade

é estritamente administrativa, ou seja, nada irá piorar. Nós, aliás, acreditamos que teríamos uma identidade tecnológica muito melhor definida se o vínculo deixasse de existir. Na verdade, faltou discussão e exposição sobre as conseqüências desse projeto; não foi deixado claro que não haverá privatização, que os recursos vão continuar e que o nível superior será mantido. A falta desse tipo de explicação acabou assustando os alunos", avaliou Lukine.

Férias já estão comprometidas

A greve dos professores da Fatec, aliada à paralisação dos alunos, já comprometeu o recesso previsto para ocorrer em julho. Mesmo se os estudantes resolvessem voltar hoje às atividades, não seria possível abrir mão do período de férias para a reposição das aulas, suspensas há 21 dias. A situação começa a preocupar o diretor Sérgio Lukine. "A partir de amanhã (hoje), a reposição começa a avançar o calendário do segundo semestre, que já é apertado - termina no dia 10 de dezembro", alertou.

A Fatec de Jaú ainda não calculou qual seria a data-limite para evitar comprometimentos no calendário letivo do próximo semestre, mas Lukine suspeita que mais dez dias sem aulas serão o suficiente para tanto. "Teremos duas opções de reposição: usar os sábados e domingos ou atrasar o início das aulas em agosto, o que não agradaria nem um pouco os calouros que ingressarão na faculdade", comentou, lembrando que, agora, a situação está nas mãos dos alunos mobilizados.