07 de julho de 2026
Geral

Obras embargadas

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 7 min

Prédios abandonados são dinheiro parado

Texto: Adriana Rota

Pendências judiciais, familiares, burocracia. Esses são alguns motivos que levam prédios antigos da cidade a ficar em estado de abandono, mesmo possuindo proprietários. Muitos deles já abrigaram companhias importantes, como as Indústrias Matarazzo, e colaboraram para o desenvolvimento da região onde estão estabelecidos. Outros, tornaram-se um problema para a vizinhança.

Um ponto importante desse impasse, destacado pelo tesoureiro da Associação das Administradoras e Corretoras de Imóveis de Bauru (Aciba), José Martinho Teixeira da Silva, 46 anos, é que independentemente do crescimento da região onde estão localizados esses imóveis, o fato de permanecerem abandonados resulta em perda de dinheiro, tanto pelo não-aproveitamento do espaço quanto pela continuidade do pagamento de impostos.

Geralmente parados nas mãos de grandes empresários ou dos governos municipal, estadual ou federal, eles poderiam promover geração de empregos e arrecadação de impostos, contribuindo, conseqüentemente, para o crescimento da cidade. Pendências judiciais, familiares (quando, por exemplo, um dos parentes é contra a venda) ou burocracia

(especialmente quando o imóvel é governamental), são alguns dos fatores que emperrariam as negociações.

Silva citou como um exemplo positivo em Bauru as obras executadas pela Construtora Assuã - o Residencial Vila Inglesa -, localizado na área da antiga fábrica de margarina Anderson Clayton, na Vila Cardia. "O local estava totalmente parado, mas agora está saindo um grande empreendimento. Eles tiveram até o bom senso de preservar grande parte das árvores originais", elogiou.

O proprietário da imobiliária H2, responsável pelas vendas do Vila Inglesa, João Assaf Hadba, disse que a restruturação das cidades, própria da modernização, deixa algumas indústrias obsoletas. "Aí, a primeira conclusão é que se deve fechá-las".

É o que teria ocorrido com a Anderson Clayton, dona de um imóvel que, por ser grande demais, chegou a ficar pelo menos cinco anos abandonado.

"Era necessário um empreendimento ousado", destacou. A região, na sua opinião, ganhou vida. "A princípio, imaginou-se um loteamento de terrenos, fechado. Mas os levantamentos feitos sobre o o preço de venda mostraram que seria inviável". Assaf admite que foi uma "tacada ousada", confessando que houve algum receio. Mas hoje, segundo ele, há satisfação de todas as partes.

A área comercial, projetada para atender aos moradores do conjunto e das imediações, deve estar em funcionamento ainda neste ano. De acordo com Assaf, 70% do espaço já teria sido locada. Ela é composta por 23 lojas, sendo 43 módulos. Minimercado, lanchonete, pizzaria, padaria, vídeo locadora e escola infantil são alguns dos benefícios que devem ser instalados.

Quanto ao residencial, lançado em 1995 e dividido em quatro etapas, a próxima entrega está programada para setembro de 2000 e, a última, maio de 2002. No total, são 384 apartamentos, dos quais 192 estão prontos. Assaf ressaltou a preservação de traços da antiga fábrica, como um barracão que deve tornar-se salão de festas, além da construção de uma bica para que a famosa água do local continue a ser consumida.

Valorização

O tesoureiro da Aciba explicou que, às vezes, é o empreendimento que valoriza um determinado espaço, não o contrário. Dessa forma, aumenta-se o valor do metro quadrado. Ele exemplificou com o caso das Indústrias Matarazzo, altamente valorizada na época em que estava em atividade e que, hoje, já não concentra nem movimento de pessoas nos seus arredores.

Nesse caso específico, o imóvel passou por um processo de tombamento, revertido pelo ex-prefeito Antonio Izzo Filho, cujo cargo garante poder para fazê-lo. De acordo com o funcionário de uma das empresas do grupo que adquiriu o imóvel, ainda não há definição dos proprietários sobre o que será feito no espaço.

Multa, somente se moradores forem prejudicados

Embora os prédios abandonados resultem, na "melhor" das hipóteses, somente num aspecto ruim para a região onde está situado, por tratarem-se de instalações antigas, sujas, às vezes pichadas, cercadas por mato, os proprietários só são acionados pela Prefeitura, através da Secretaria de Planejamento (Seplan), caso haja algum tipo de prejuízo aos moradores das imediações. Mesma coisa com relação à Polícia Militar, que só age nesses pontos quando há situações reais de ameaça à integridade das pessoas.

A titular da Seplan, Maria Helena Rigitano, afirmou recentemente ao JC que não existe um levantamento sobre o número de imóveis de Bauru em situação de abandono, mas estima que sejam centenas. Aqueles que causam problemas estão sujeitos a ser multados pelo órgão, caso seus proprietários não regularizem o espaço.

Desperdício

Além do prejuízo financeiro em manter um imóvel parado, existe também o prejuízo social. Um exemplo típico é a Casa do Jovem, também conhecida como Centro de Convivência Educacional de Jovens e Adultos, desativado há mais de quatro anos.

A princípio funcionando como extensão do Lar Escola Rafael Maurício, depois, abrigo para o Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips) e, finalmente, tornando-se a Casa do Jovem, administrada pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), ela é propriedade da Associação Bauruense do Bem-Estar Social do Menor (Abbem), cedida em regime de comodato pela Prefeitura.

A titular da Sebes, Sandra Rodrigues Scriptore, afirmou que, do jeito que está, o imóvel não teria serventia para a Prefeitura, porque não se enquadra nos programas da secretaria. O Conselho da Condição Feminina está interessado em ocupar o local e aguarda uma modificação no termo de comodato, onde existe uma cláusula que restringe o uso do imóvel para atendimento de crianças carentes.

Arquitetura não é aproveitada, diz especialista

O professor da área de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e ex-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac), Nilson Ghirardello, classificou como um erro o não-aproveitamento de alguns imóveis com rica arquitetura existentes na cidade. Na sua opinião, ainda há muita desinformação relacionada ao processo de tombamento: as pessoas acham que inutilizarão o imóvel, quando, na verdade, apenas a fachada e cobertura deve ser preservada, sendo permitidas alterações no interior.

Atualmente, Bauru conta com apenas dez imóveis tombados, dentre igrejas, hotéis e colégios, considerados símbolos importantes para a história e a cultura da cidade. Quase o dobro desse número está na "fila" pelo tombamento definitivo, que é determinado por decreto do prefeito municipal após passar pelas diversas secretarias.

"O que as pessoas não percebem é que, quando reciclados, esses imóveis tornam-se muito mais interessantes e charmosos, um diferencial que pode resultar em lucros para o estabelecimento", defendeu. O especialista disse, ainda, que os gastos com a preservação, na maior parte das vezes, é inferior aos da demolição e reconstrução.

Ghirardello destacou os benefícios para Bauru - cidade que pretende tornar-se pólo de atração turística

- na preservação desses imóveis. Um dos pontos de partida para conseguir esse intento, segundo ele, seria investir na revitalização da área central. No seu entendimento, o abandono é decorrente da zona em que o imóvel está inserido na cidade e, quando revitalizado, pode operar mudanças em todo o seu entorno, iniciando o processo contrário.

"A ocupação da antiga estrada de ferro Noroeste seria um bom começo. Na cidade de São Paulo há um movimento nesse sentido: por exemplo, há uma intenção do governador Mário Covas de tirar o Palácio dos Bandeirantes do Morumbi ir para o Centro, provavelmente, no prédio Caetano de Campos, na Praça da República", contemporizou.

Embora a conscientização sobre a importância de preservar as características da cidade através de seus imóveis esteja aumentando, de acordo com Ghirardello, ainda é necessário que, especialmente as instituições locais, empenhem-se nessa "luta". Existe, segundo ele, um caráter de urgência em salvar o patrimônio histórico, porque o que se perde não é possível recuperar. Para ele, essa "jóia" faz parte da imagem da cidade, da raiz das pessoas, fator de identidade que, quando perdido, ocasiona em descaso e conseqüente degradação.

"Se não começarmos agora, vamos começar quando? Para nós, é um sofrimento ver um imóvel desses deteriorando, pior ainda, vê-lo ser alterado grosseiramente, descaracterizando-o. Mas acho que a obsessão pelo novo, recém-construído, está acabando. A gente vê pelos cartões postais, por exemplo", finalizou, otimista.