08 de julho de 2026
Geral

Hospital referência

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Hospital psiquiátrico de Jaú se renova

Texto: Josefa Cunha

O hospital psquiátrico Thereza Perlatti, que já foi obrigado a fechar, tornou-se referência no tratamento de doenças mentais

Em maio de 1993, o sanatório Tereza Perlatti, hoje Associação Hospitalar Thereza Perlatti (AHTP), foi interditado pela Secretaria Estadual de Saúde em razão dos mais variados tipos de problemas: desvio de verbas, endividamento - que levou à hipoteca todo o patrimônio físico do hospital -, pendências trabalhistas, maus-tratos contra pacientes e uma seqüência de outras irregularidades. A má fase, entretanto, foi superada com a mudança do comando administrativo e, atualmente, o estabelecimento é tido pela Coordenadoria de Saúde Mental do Interior como um dos melhores do país no tratamento psiquiátrico oferecido dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

A recuperação do hospital foi uma missão

"insana" - como define, sem querer fazer trocadilho, seu atual presidente, Diogo Nery Sanches. "Às vezes, eu nem sei como conseguimos arrumar tanto dinheiro. Tínhamos R$ 300 mil de um terreno desapropriado pela Prefeitura de Ibitinga, promovemos eventos junto à comunidade jauense, que foi maravilhosa, mas acho que quem ajudou mesmo foi Deus", reverenciou. Sanches calcula que foram gastos quase R$ 2 milhões, em pagamento de dívidas e investimentos. Totalmente reformado, o Thereza Perlatti tem 358 vagas disponíveis, mas autorização para trabalhar com apenas 100 delas, cotidianamente ocupadas por pacientes de toda a região. Além dessas, 15 outras vagas são reservadas para atender o Ambulatório de Saúde Mental de Bauru.

As mudanças que ocorreram nesses últimos sete anos não se limitaram à troca do corpo diretor e às reformas físicas. Mais importante que isso, o que mudou foi a filosofia do hospital em relação ao tratamento psiquiátrico. "Não somos mais um manicômio, mas sim um centro de recuperação", diz uma faixa pendurada na entrada do estabelecimento. O método adotado hoje em dia surgiu na Itália e corresponde ao oposto da conduta que se adotava anteriormente. Isolamento, grades e uniformes deram lugar à abertura, à integração social e à identidade pessoal dos internados.

"O tratamento aqui era asilar, ou seja, a família vinha, deixava o doente e, muitas vezes, nunca mais voltava. Os doentes tidos como perigosos viviam isolados e eram punidos com a permanência em quartos trancados e com grades. Eu mesma cheguei a presenciar um funcionário colocando a comida por baixo da porta, como se estivesse lidando com um animal. Do mesmo jeito que a família, o hospital não se preocupava com o paciente, que, por sua vez, vivia alienado sem saber que dia era, se era noite ou dia", recorda Eva Torelli Martini, terapeuta ocupacional da AHTP.

A filosofia de agora, porém, colocou por terra toda a conduta opressora e cerrada que prevaleceu por décadas. É na integração social e na vivência fora do hospital, aliadas ao tratamento medicamentoso, que os terapeutas buscam equilibrar as doenças psíquicas. De acordo com Eva, "a rua é o lugar que oferece os melhores estímulos". "O doente mental sempre precisará de tratamento, mas essa nova linha de conduta melhorou muito os resultados. A valorização da identidade de cada um reduziu o problema da baixa estima. A troca de informações com o mundo lá fora, o trabalho com a família, embora esta ainda seja bastante relutante em participar, o contato com o real como um todo, são fundamentais", explicou a terapeuta.

Anteriormente, os pacientes ficavam internados por anos a fio, sendo que muitos acabavam morrendo dentro do próprio sanatório. Atualmente, o tempo médio de internação é de apenas 15 dias. Os alcoolistas e drogactitos (termos usados pelos profissionais para se referir aos popularmente chamados alcoólatras e drogados) também ficam internados por esse período. Eva explica que a permanência dos dependentes químicos é para a desintoxicação, já que o SUS não cobre tratamento de reabilitação. O Thereza Perlatti, entretanto, oferece a reabilitação no sistema de atendimento particular.

Embora o tempo de internação seja de 15 dias, cerca de 60 pacientes moram no hospital. São pessoas cujas famílias não foram encontradas, quando a nova administração assumiu o comando. Dessas, 12 estão instaladas no Lar Abrigado, uma ala especial que fica dentro dos 72 mil metros quadrados que pertencem à AHTP. Os pacientes que vivem nesse espaço têm autonomia e liberdade para fazer o que bem entenderem. Todos têm seu próprio apartamento - coisa simples, mas bem ajeitado e com banheiro - e chaves do portão que dá acesso à rua. "Foi uma idéia que nasceu de repente e que deu muito certo. Começamos com os homens, depois ampliamos para as mulheres. A experiência foi tão bem sucedida que nós acabamos surpreendidos diante da evolução que eles apresentaram. Houve um casal que acabou namorando e nós tivemos que orientá-los sobre o uso de preservativos e contraceptivos. Foi uma coisa muito positiva", contou Eva, acrescentando que o casal, assim como outros moradores do Lar Abrigo, viaja sozinho para visitar parentes.

A maioria das pessoas que procuram o Thereza Perlatti apresenta sintomas de psicose, sendo a esquizofrenia a doença mais comum. Não há um perfil definido dos pacientes, mas os homens com idades entre 20 e 40 anos predominam no hospital.

Atualmente, o estabelecimento é mantido com os recursos do SUS - insuficientes para cobrir o gasto per capita de R$ 720,00 por mês - e com a colaboração da comunidade, que doa alimentos, roupas e dinheiro. A AHTP não vive uma crise financeira, mas apela para a ajuda de quem mais possa colaborar.

Hospital Dia

Num prédio anexo ao hospital, mas dentro do próprio complexo da Associação Hospitalar Thereza Perlatti

(AHTP), funciona o Hospital Dia, um local construído e planejado para dar continuidade ao tratamento psiquiátrico.

"O Hospital Dia nasceu da necessidade que alguns pacientes apresentavam após ter alta. Nós percebemos que a pessoa ficava internada, recebia alta, mas voltava depois de alguns dias para novo período de internação, o que nós considerávamos desnecessário. Por essa razão, decidimos abrir um espaço para que esses pacientes pudessem continuar o tratamento sem a internação", contou Eva Torelli Martini, terapeuta ocupacional da AHTP.

No Hospital Dia, os pacientes chegam de manhã, realizam trabalhos e atividades durante todo o dia e depois voltam para suas casas. Nem todos os frequentadores do Hospital Dia passaram por internação. De acordo com Eva, o encaminhamento não é feito através do hospital, mas pelo Ambulatório de Saúde Mental da cidade. Há 30 vagas.

Os pacientes do Hospital Dia executam suas próprias tarefas do dia-a-dia, como cozinhar, lavar louça e limpar o espaço. Eles também têm hora e espaço para dormir. Durante as atividades supervisionadas, eles fazem trabalhos artesanais, que são expostos e vendidos durante a feira que acontece todos os domingos no centro de Jaú.