Na mira do povo
Texto: Gustavo Cândido
As autoridades que se cuidem! Nas últimas duas semanas o Governador do Estado, Mario Covas, foi atingido por uma "bandeirada", desferida por um manifestante num protesto de professores e servidores públicos e o Ministro da Saúde, José Serra, por uma "ovada", cortesia de um estudante de Sorocaba. Coincidência ou não, os dois casos refletem a falta de tolerância das pessoas com os seus governantes. O Caderno Ser saiu às ruas de Bauru para saber até onde a população concorda com esse tipo violento de protesto. A maioria das pessoas entrevistadas foi contra as "ovadas" e "bandeiradas", mas todas fizeram uma afirmação em comum: a paciência do povo acabou mesmo.
"Isso está acontecendo porque o povo está cansado", diz a dona de casa Maria Aparecida Passo, sobre os ataques contra o governador e o ministro, "mas não concordo com a violência", salienta. O estudante Antonio Almeida Castro, concorda com a falta de paciência do povo, mas ainda não tem uma opinião formada quanto a esse tipo de protesto,
"o que eu acho é desperdiçaram ovo jogando no ministro, ele não vale nem isso".
De onde vem essa revolta popular com as suas autoridades? As próprias pessoas dão respostas vagas nas ruas e não sabem explicar com 100% de certeza, porque gostariam de dar uma paulada na cabeça do Governador, a grande maioria simplesmente usa como justificativa a frase: "ele não está fazendo nada", o que não quer dizer muita coisa.
Na opinião da professora de História Terezinha Santarosa Zanlochi esse tipo de manifestação popular tem dois lados. O primeiro é a insatisfação do povo, com quem quer que seja, por causa de uma situação onde as pessoas se encontram pressionadas por salários baixos e alto custo de vida, enquanto estão se pagando dívidas lá fora e as prestações com o FMI estão em dia. Ou seja, existe uma visão de que o Brasil cumpre todos os seus compromissos externos, enquanto o seu povo fica sofrido, uma vez que toda a renda que é gerada no País vai para o exterior. "Nós estamos vendo que há uma produção nacional, que o País retomou o seu desenvolvimento, mas que todo o lucro desse desenvolvimento vai para o exterior e em função disso a população está sofrendo bastante. Principalmente 70% da população que é a mais pobre", diz a professora.
O segundo aspecto apontado por Terezinha Zanlochi é que essa manifestação popular vem se dirigindo aleatóriamente: atingem tanto aqueles que são responsáveis pelo processo, quanto os que são responsáveis pelos processos de corrupção, então não há só a insatisfação pela má distribuição da renda mas também pela corrupção de alguns setores da política nacional que agrava a situação.
Na opinião da professora, a resposta violenta que a população está dando a esses fatos, não está sendo dirigida para os setores que corromperam ou mudaram o destino dessa renda gerada no País e sim para pessoas que até então não são nem alvos de CPIs. "Então, por exemplo: quem deveria levar ovo ou varetada, são as pessoas que são responsáveis pela corrupção nacional, que estão sendo acusadas em CPIs. As pessoas que sofreram essa violência não têm nenhuma CPI contra elas, mas como a população está sofrida, insatisfeita e defasada em seu poder aquisitivo, ela perdeu a noção de quem deve agredir. Ela pega a primeira autoridade que aparece e bate, ou seja, não está tendo condições de discernir quem merece castigo ou não", explica Terezinha Zanlochi.
Indefinição
A psicóloga Salete São Bernardo Aversano acredita que as pessoas estejam passando por um momento de falta de definição de vários aspectos de suas vidas o que as deixam sem resposta para muitas situações. "Os professores são um exemplo. Há quanto tempo eles estão reivindicando situações melhores e ninguém se manifesta.
É como numa empresa onde você pede uma coisa e ninguém te dá satisfação. A situação fica sem definição e com isso um clima ruim vai se criando", diz.
O clima ruim, gerado por essa situação de indefinição,
é que causa atos violentos, segundo a psicóloga.
"As pessoas precisam ser mais ouvidas, ter os seus problemas solucionados, não podem ficar com a vida indefinida, sem saber se vão ter emprego amanhã ou não", diz Salete Aversano. A psicóloga acredita que as pessoas não conseguem sentir uma credibilidade no governo, ficam sem ter em quem acreditar e por isso a agressividade aflora com mais facilidade, "é por isso que o primeiro que aparece acaba apanhando, não importa se ele é o culpado ou não", afirma.
Pais do povo
Por que as autoridades? As pessoas na rua mostraram que consideram os governantes verdadeiros "pais do povo", que são responsáveis por tudo o que acontece na suas vidas. "Mas nós não os elegemos para isso", justifica a secretária Mariana Oliveira, de 27 anos, "se eles não são os responsáveis, quem vai ser", diz. Mesmo o ajudante de serviços gerais, Alcindo Correia, de 18 anos, que acredita não saber muito sobre política, pensa da mesma maneira, "a gente vota neles para que eles governem, façam as coisas para o povo". O corretor de imóveis Antonio Carlos Soares, de 34 anos, acrescenta:
"na realidade eles deveriam ser pais do povo, porque assim se importariam mais, mas na verdade eles agem como padrastos", diz.
Nas ruas
O que você achou dos ataques ao Governador Mário Covas e ao Ministro José Serra?
"Acho que não se justifica. Não há motivo para a violência"
Fernando de Mello, 16 anos, estudante
"Achei errado. Isso é falta da pessoa ser mais inteligente e tentar outras maneiras de se manifestar ao invés de jogar ovo. É ignorância, apesar do povo estar descontente"
Aparecido Baptista, 61 anos, aposentado
"Tá certo, merecia até ser pior. Os professores estão se manifestando e o que eles estão fazendo?"
Sherline da Silva Reis, 18 anos, estudante
"O Governador é um irresponsável, ele maltrata os professores. Um país é feito de crianças, educação, saúde e justiça e a gente não tem isso como os países do primeiro mundo. Não acho que a violência seja boa, mas ele é um irresponsável"
Hilda Aiello Gardim, professora aposentada
"Tá certo, tem que fazer isso mesmo. Se eu estivesse lá bateria também"
João Rodrigues da Silva, 28 comerciário
"Sou contra a violência, mas acho que a situação chegou a um extremo que o povo não aguenta mais. Onde já se viu o Mario Covas dizer que nós vamos ter de engolí-lo"
Ruth Tresso Terrin, 32, bancária