Pescaria: um mundo diferente
Texto: Roberta Mathias
Tem gente que pode não entender o porquê de tanta empolgação quando se marca uma pescaria. Aqueles que não são adeptos desta tão prazeirosa atividade não são capazes de aproveitar sequer os momentos fantásticos passados à beira do rio ou mesmo em alto mar.
Desde muito tempo, sempre me senti à vontade quando passeava com meu pai pelas matas da região do rio Mogi Guaçu. Se a época era de seca, a diversão era passar tardes inteiras brincando nas praias de areia branca que se formavam nas curvas do sinuoso Mogi. Mergulhar naquela água fresca, sempre sob o olhar dos adultos, era estar em perfeita harmonia com o meio. Apesar de criança, sabia como era importante aproveitar aqueles momentos às margens do rio.
Se o período era de chuva, outros atrativos. A cheia, que muito atrapalhava a produção de tijolos (principal atividade de meu pai), trazia para o pesqueiro uma infinidade de animais que fugiam das águas. Era possível observar macacos de diferentes espécies pulando de galho em galho, até bem próximo do rancho. Para a criançada, aquilo era uma diversão. E como havia borboletas lá, de todas as cores. Hoje, creio que não eram tão diferentes assim, nem tão numerosas. Mas naquela época, eram.
Com o tempo, apesar de nunca ter sido e nem ter a pretensão de ser pescadora, fui tendo a oportunidade de aproveitar esses momentos ao lado de pescadores. No mesmo rio Mogi, por muitas vezes acompanhei a caravana de pescadores, em silêncio, só observando e aprendendo com eles. Cada momento é mágico na pescaria. O cuidado em preparar as iscas para que satisfaça o apetite do peixe. O olhar paralisado do pescador, esperando um movimento em sua linha. O prazer da batalha e a alegria da fisgada.
Aprendi a ficar horas e horas ali, olhando o azul, o marrom, o verde... olhando o colorido das flores. Aprendi a ouvir as aves.
Às vezes, encontrava um ninho de passarinho quase à beira do rio.
E aí vem as corredeiras... Como é gostoso ficar olhando para a água que passa com velocidade. Ali, eles ficavam à procura de dourados e eu do brilho das águas, de seu reflexo. Talvez procurasse Iara, a mãe d'água, escovando seus longos cabelos.
Minha mãe nunca entendeu o que eu via naqueles dias de pescaria. Tem muita gente que não entende o que é estar em uma pescaria. Mesmo sem dizer nada, os pescadores se comunicam, se entendem, se convencem... ou não! Às vezes, uma isca diferente, ou a troca de tralha pode causar mal-estar entre amigos. Mas depois de alguns segundos de prosa e explicação, a pescaria volta à tranqüilidade.
Na verdade, os pescadores em muitos casos não se entendem. Eles fingem. Um diz que acredita no outro, que achou a idéia interessante, mas no fundo, lá no fundinho, ele acha que a "sua" técnica é "muito melhor" que a do companheiro. Chega a ser engraçado. Mas com o tempo eles se convencem. Você pode estar perguntado, a esta altura do texto, mas do que esta menina está falando hoje? Não tem nada com nada... Tem e não tem. Na verdade, imaginei que fosse importante falar para vocês como eu vejo a pescaria em alguns momentos. Apesar de não me considerar uma pescadora, vejo a pescaria como um sentimento mágico, e muitos pescadores devem concordar comigo.
Penso em pescaria sem sofrimento. Aproveitar o lugar, principalmente, e também a procura do peixe. É difícil para um pescador voltar sapateiro, mas o pior é ele voltar sem perceber por onde esteve pescando. A todo pescador é dada a obrigação de observar e vivenciar cada instante da pescaria. Se encontrar o peixe, melhor! E encontra...
No mar também é assim. Em algumas pescarias, milhas e milhas da costa, é possível que nada seja avistado a não ser o verde-azul do mar. E é nele que se escondem surpresas. A busca pelo peixe é mais um objetivo. Quando a pescaria envolve competição, aí não. Fica difícil desligar o pescador do tempo que está correndo. Mas se a pesca é por prazer, que seja completa, com todo a beleza que lhe é apresentada. Com direito a tartarugas, golfinhos, arraias, peixes e outros habitantes do mar... Até Netuno pode aparecer. Aí já é história de pescador.
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História de pescador
Pilintra, o cavalo pescador
Esta é uma das histórias que não aconteceu comigo, porém acredito piamente, uma vez que me fora contada por dona Benedita.
Dona Benedita, hoje é uma senhora setentona sacodida dentro de seus quase noventa quilos. Descendente de índios, negros e portugueses, nascida e criada durante muito tempo no Interior de São Paulo, lá pras bandas de Itaquaquecetuba. Casada com o seu João Coutinho, caminhoneiro famoso da região, teve vários filhos e dentre eles uma especial, de nome Paula, que é a mãe dos meus filhos.
Aconteceu no Sítio do Pinheirinho, de propriedade do João Coutinho, em Itaquá. O sítio era famoso nas rodas de conversa fiada dos finais de tarde, não por sua grandeza, produção de leite ou qualquer beleza
natural, mais principalmente pelo seu pequeno lago, ou melhor pelo grande peixe que vivia há muitos anos em suas águas e que jamais fora fisgado ou visto de corpo inteiro, porém muitos afirmavam que em finais de tardes de verão já tinham visto parte de sua calda batendo no espelho da água, que respingava até fora do lago.
Seu João nunca permitiu a pesca naquele lago, mais em algumas conversas em sua venda confessou para seus compadres mais próximos que já tinha visto o bicho na flor das águas em muitas ocasiões de noites de lua cheia.
Foi no verão, num mês de janeiro, bastante chuvoso, em que a água do lago trasbordou vindo a dar próximo
à soleira da casinha onde ficava o tanque de lavar roupa da dona Benedita. O quarador (gramado onde a roupa ensaboada era estendida para quarar) ficou submerso em mais ou menos um palmo de água e por sobre a lâmina desta água estavam brotando os tufos verdes da grama.
Pilintra, o cavalo do sítio, que não se sabe dizer ao certo se era um cavalo ou um daqueles superburros da região
(mistura de éguas de grande porte com jumentos espanhóis) encontrara o lugar ideal para pastar. Com as patas refrescadas dentro da água, saboreava os verdes brotos da grama que ali crescia. Naquele dia, dona Benedita estava no tanque batendo roupa com as costas viradas para o lago, quando foi surpreendida por um estardalhaço na água. Ao virar rapidamente a cabeça para verificar o motivo do barulho, notou de relance um grande vulto, como um pedaço de tronco, atirado em sua direção. Com muito reflexo e agilidade (na época ela não pesava os noventinhas de hoje), ela desviou a cabeça daquela tora que bateu na parede do rancho e caiu dentro do tanque.
Surpresa mesmo ficou quando a tora de imediato começou a debater-se jogando a água do tanque para todo lado. Ela gritou pelo seu João, que já veio de foice em punho
(ele tem a foice até hoje embaixo de sua cama) e tascou dentro do tanque. Aí foi só sangue e água de sabão. Não acreditando no que estava presenciando, seu João pediu para a Dita confirmar o que ele estava vendo e ela confirmou. Era uma traíra guaçu de aproximadamente uns oito quilos, o bicho devia de ter mais de dez anos.
Pilintra não parava de correr e pular sem parar quando seu João conseguiu segurá-lo e naquele momento notou que muito sangue escorria do focinho do cavalo. Dona Dita limpou o beiço do Pilintra com o avental e ficou bastante claro que os cinco cortes profundos que mostravam até os dentes do velho cavalo tinham sido feitos pelos afiados dentes de sabre do trairão.
Embasbacado com o ocorrido seu João, procurou explicação junto ao Zé Gaiola, um renomado pescador do Tietê, que com ar de profundo conhecedor da matéria, falou o que provavelmente havia acontecido.
Disse o Zé que a traíra é um peixe ovíparo que desova por época das cheias e em lugares rasos do lago. Após desovar, a traíra fica protegendo os ovos do ataque dos lambaris ou de qualquer outro predador. Pois bem, o Pilintra meteu o bocão no ninho da bruta que não teve dúvidas e cravou os dentes afiados em seu beiço. Num ato de puro reflexo e de defesa, o cavalo sacudiu a cabeça e arremessou a traíra pra fora do lago.
Todos em Itaquá aceitaram a explicação do Zé Gaiola e a partir deste fato o Pilintra passou a ser o único cavalo pescador.
Seu João Coutinho enjeitou muitos contos de réis pelo cavalo que morreu aos 17 anos de idade. Em sua sepultura lá no sítio do Pinheirinho, hoje recortado pela rodovia dos Trabalhadores, tem uma cruz com os dizeres "aqui está enterrado uma lenda, Pilintra, único cavalo pescador do mundo, nascido e morto em Itaquá".
Marcos Antonio Falcon é pescador e contador de histórias
* História retirada do The Fishing World (http://www.fishingworld.com.br)