07 de julho de 2026
Geral

Campanha eleitoral

Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Para sociólogo, televisão exerce papel determinante na eleição

Para o sociólogo, Murilo César Soares, professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação

(Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a televisão tem exercido papel determinante nas últimas eleições.

O esvaziamento do discurso ideológico dos partidos políticos atrelado ao crescimento do poderio das grandes redes de televisão e o diminuto acesso do eleitor a outras fontes de informação, como os jornais, têm contribuído para a valorização da propaganda televisiva no processo eleitoral.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Soares.

Jornal da Cidade - A propaganda eleitoral gratuita veiculada na televisão pode ser decisiva para a conquista da eleição?

Murilo César Soares - A propaganda eleitoral na televisão é, sem dúvida, um fator muito importante. Isso pode ser evidenciado pelas mudanças na legislação. De acordo com o quadro sucessório, o governo manipula a legislação, mandando ao Congresso novas lei, encurtando ou aumentando o período. Então, esse é um sinal evidente que a campanha televisiva tem um papel no processo eleitoral, mas se ela pode definir, é uma pergunta difícil de responder porque cada situação histórica precisa ser analisada.

Jornal da Cidade - O peso dessa propaganda muda conforme o pleito eleitoral?

Soares - Sim, em razão de uma campanha presidencial, por exemplo, ser mais importante que uma campanha municipal. As questões municipais são mais localizadas e as pessoas tendem a raciocinar de maneira mais pragmática e até pessoal. Em termos federais, isso não acontece, fora o fato de dificilmente você ter a chance de ver um candidato presidencial pessoalmente. Já na campanha municipal, não, você cruza com ele ou ele é seu vizinho. Quanto mais distante o eleitor do candidato, maior o papel da televisão.

Jornal da Cidade - Alguns profissionais de comunicação avaliam que a televisão está ganhando mais peso na medida em que o interesse pelo comício diminui. O que senhor pensa disso?

Soares - O comício é feito hoje em função da televisão. Ele serve para gerar imagens para a TV, então, não é um comício em si, mas um pretexto para uma cena televisiva. Nesse sentido, é importante que o comício seja em animado, tenha muito público para depois ser mostrado na televisão.

Jornal da Cidade - Isso reflete também o esvaziamento do discurso ideológico.

Soares - Também. Na televisão, o papel do visual e da encenação dramática é muito mais determinante do que as idéias, o conceito. E os partidos políticos, de modo geral, vêm se enfraquecendo historicamente desde a entrada da televisão. Tem sido observado em vários países que, a medida que a televisão vem se disseminando, a importância do partido na definição do voto vem diminuindo. Por quê? Por que aumenta o peso do candidato, ou seja, a personalidade, a maneira como ele usa a televisão, a mulher dele, o cachorrinho dele, essas coisas que dizem respeito à formação de uma imagem começam a suplantar o partido.

Jornal da Cidade - Nesse sentido, o político interpreta papéis diferentes no comício e na televisão?

Soares - É difícil responder em razão do comício ser um pretexto para gerar imagens para televisão, então, as coisas estão todas atadas. O efeito é diferente para quem vê o comício. Na televisão, você tem o close, já no comício você, muitas vezes, nem enxerga o político. Então, a presença das expressões facial e corporal são diferentes em um e outro. Acho que o resultado do desempenho dele é melhor mesmo na televisão.

Jornal da Cidade - O político constrói papéis para se apresentar à população?

Soares - Ele constrói um papel, o caso é que esse papel pode ter alguma verossimilhança ou veracidade ou não ter. E o grande problema é que o eleitor não tem condições de definir se esse papel

é verdadeiro ou não. Isso porque a propaganda não

é crítica e a maior parte dos eleitores, cerca de 80%, só vê a propaganda, não lêem jornal, não têm acesso a discussões políticas, então, daí o desempenho da televisão ter se tornado determinante. (DB)

Tempo é moeda de troca para partidos

Texto: Daniela Bochembuzo

Minutos na propaganda eleitoral ganham importância em negociações sobre coligação; campanha na TV não custa menos de R$ 60 mil

Na sucessão eleitoral, a imagem do político é tudo. Construi-la, no entanto, requer personalidade forte, discurso convincente e, sobretudo, espaço para veicular essa imagem. Por essa razão, os minutos na propaganda eleitoral gratuita têm sido usados ultimamente como argumentos tão valiosos nas negociações para coligações.

Hoje, acima das questões ideológicas e representações nas esferas políticas, os minutos na propaganda eleitoral têm ganho amplo espaço nas reuniões partidárias. O entendimento é de que, além de aglutinar forças, uma aliança deve somar tempo na televisão e no rádio.

Por essa importância, a Justiça Eleitoral tem se dedicado a emitir resoluções específicas sobre propaganda eleitoral, nas quais a propaganda na televisão e no rádio ocupa, a cada eleição, mais e mais páginas.

De acordo com a resolução de número 20.562, emitida há dois meses, os horários reservados à propaganda eleitoral devem obedecer os seguintes critérios: um terço deve ser igualitariamente dividido entre os candidatos a prefeito e os dois terços restantes distribuído proporcionalmente de acordo com o número de representantes de partidos na Câmara dos Deputados. No caso de coligação, soma-se o número de representantes das legendas que a compõem.

A divisão, no entanto, deve seguir a representação de cada partido na Câmara dos Deputados existente no último dia 15 de fevereiro. As frações de segundo que sobrarem serão adicionadas ao tempo destinado ao último partido político ou coligação que se apresentar a cada dia de propaganda.

Hoje, as representações do PSDB, PFL, PMDB, PT e PPB garantem, juntas, 80% dos dois terços da propaganda eleitoral, que terá duas veiculações diárias na televisão e duas no rádio a partir de 15 de agosto e até 28 de setembro, com exceção dos domingos.

Se coligado ao PSDB, o PDT garantiria 24,4% dos dois terços de propaganda. Aliado ao PTB, mais 4,9%. Já a Aliança XXI, formada pelo PSB, PV, PC do B e PMN, não teria mais que 4%. Se Tuga Angerami (PSB) obtivesse o apoio do PPB e do PL, como se cogita nos bastidores, poderia contar com mais 1,4%. Caso corra, Nilson Costa (PPS) pode somar aos 2,3% de seu partido mais 19,8% do PFL, que detém o segundo maior tempo de propaganda.

Para muitos candidatos, a divisão igualitária de um terço dos 30 minutos de propaganda eleitoral pode fazer ainda uma pequena diferença. Isso se partidos da região não requererem participação na propaganda eleitoral veiculada pelas emissoras de televisão e rádio de Bauru.

De acordo com o artigo 25 da mesma resolução, nos municípios onde não haja emissora de televisão, os órgãos regionais de direção partidária da maioria dos partidos políticos participantes da eleição poderão requerer ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que reserve 10% do tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita para divulgação, em rede, dos candidatos dessas cidades.

Investimento

Além das negociações para garantir a soma de valiosos minutos e segundos de propaganda eleitoral, vários partidos já estão levantando dinheiro para arcar com a elaboração, produção e veiculação de propaganda eleitoral. O investimento não é pequeno. Segundo Carlos Previdello, diretor comercial da TBR Produções, uma campanha televisiva não sai por menos de R$ 60 mil.

Previdello, conhecido como Billy no meio publicitário, diz que o valor pode aumentar caso a propaganda passe a agregar mais recursos tecnológicos, como câmeras e equipamentos de edição e áudio, e recursos cenográficos, além do número de profissionais envolvidos.

Para Billy, que prevê uma campanha com investimentos escassos, a sucessão eleitoral atual será diferente das anteriores.

"Estamos vivendo um período atípico. Há muitos candidatos e todos com potencial. A campanha será parelha e exigirá maior qualidade técnica, mais pesquisa e marketing do que antes", analisa.

Por essa razão, o diretor comercial avalia que a campanha televisiva terá peso maior do que o verificado nos anos anteriores. Pensando nisso, Billy acredita que crescerá a procura pelo "panfleto eletrônico".

Ao custo mínimo de R$ 2 mil, esse tipo de panfleto é um vídeo no qual o candidato pode gravar suas propostas políticas, cenas junto à comunidade e informações curriculares, e exibi-lo em reuniões comunitárias e, até mesmo, comícios.

"O panfleto eletrônico pode ser um suporte diferente na conquista de votos, principalmente nesse momento em que os eleitores querem ver mais do que o político discursando", explica.

Assim como a empresa de Billy, outras produtoras aguardam o período eleitoral com ansiedade em razão dos investimentos feitos em propaganda. Até o momento, os partidos apenas têm sondado custos e valores. O fechamento de contratos deve acontecer a partir das convenções, previstas para serem realizadas entre 10 e 30 de junho.

Até que as convenções não sejam realizadas, as negociações sobre minutos na propaganda eleitoral gratuita na televisão e no rádio continuarão a esquentar muitas discussões políticas.