07 de julho de 2026
Geral

Sexualidade

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 8 min

Virgindade: um tabu que vem sendo modificado

Texto: Fabiana Teófilo

Pesquisas apontam que a faixa etária mais comum em que os jovens brasileiros se sentem preparados e seguros para perder a virgindade é entre 15 e 17 anos

A palavra virgindade, muitas vezes, ainda provoca um certo rubor em algumas pessoas. Esse ainda é um tabu, mas com o passar do tempo vem se transformando e, para muitos, já é algo muito natural e não causa nenhum incômodo. Essa palavra é, na maioria das vezes associada ao ato sexual, mas o indivíduo está envolvido em instintos sexuais em todas as fases de sua vida.

O desenvolvimento, a maturação do sistema nervoso central e a gradual aquisição motora faz com que a criança se lance à descobertas de seu corpo e dos prazeres que este lhe proporciona.

De acordo com a psicóloga, Cláudia Tebet Gomes Manaia, quando o rapaz percebe que seu corpo está com características de adulto, passa a se preocupar com suas formas, em especial com o desenvolvimento muscular e o tamanho do pênis. Para as meninas, embora se possa observar os mesmos mecanismos gerais, o desenvolvimento acontece de maneira diferente, tendo em vista os diferentes papéis sexuais por elas vividos. De início apresentam as mesmas preocupações que os rapazes, quanto à "normalidade" de suas formas. Logo, entretanto, passam a se preocupar mais com os sutis aspectos dos jogos de sedução,

"brincando" muitas vezes de caça e caçadora.

Para os jovens, é de extrema importância pertencer a um grupo onde todos, em tese, têm as mesmas aspirações, gostam das mesmas coisas, e comportam-se de maneira

semelhante.

Cláudia destacou que por volta dos 12 ou 13 anos, surge a capacidade de formação de vínculos afetivos, e que, atualmente, os adolescentes criaram o "ficar" embora seja mais comum a partir dos 14 ou 15 anos. O namoro geralmente aparece dos 16 anos em diante.

Ela disse que, no que se refere a questão da iniciação sexual, ou melhor, a primeira vez, foi-se o tempo em que o rapaz tinha sua primeira relação sexual freqüentemente com prostitutas, e da moça predominantemente com o marido ou, no máximo, com o noivo.

Na maioria das vezes a iniciação sexual tem sido realizada aos pares, ocasionalmente até poucos dias após o início do namoro. "O que depende são as condições que propiciam o acontecimento, ou seja, o local, afetividade pelo parceiro, atração física, desejo de se emancipar, rebeldia, dinâmica familiar, necessidade de aceitação, entre muitos outros", explicou.

De acordo com Cláudia, as pesquisas já realizadas entre jovens brasileiros, apontam para a faixa de 15 a 17 anos como o período mais comum.

O pais ficam "perdidos" no meio de tanta mudança que são corporal, social e psicológica. "Naturalmente surgem aqui os maiores conflitos na relação pais e filhos. A questão do

"transar" é aceita sem preconceito antes do casamento somente para os homens", afirmou. Ela disse que para as meninas, isso já não acontece. "Historicamente sabemos que a repressão sexual existiu e existe para ambos os sexos

(de forma diferenciada, mas existe), mas para as mulheres sempre foi mais exacerbada", afirmou.

Cláudia explicou que para os pais é difícil perceber que os filhos cresceram, e que já estão tomando decisões importantes nas suas vidas, como, por exemplo, decidir que vai "transar".

Cada família tem sua própria dinâmica familiar

(valores, atitudes, crenças, situação sócio-financeira). Dentro da psicologia, segundo Cláudia, existem os norteadores comuns, ou características comuns, mas nada é via de regra, ou tem manual específico. Os pais, na grande maioria, até esclarecem à sua filha, sobre o sexo, mas sempre relacionado como algo proibido, com uma carga emocional pesada e imposta, e nunca como uma manifestação natural do corpo e que proporciona prazer. A orientação se restringe mais na questão da gravidez e Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), o que não deixa de ser pertinente, mas outros valores embutidos, geralmente, não são transmitidos, tais como: respeitar

seu corpo, suas emoções, respeitar os outros, se conhecer.

"O que vejo acontecer são adolescentes imaturas que transam com seus namorados ou com quem estejam se relacionando, muitas vezes, por auto-afirmação, por que quer ser aceita, por conflitos, para segurar o "parceiro" (que muitas vezes força a barra), e ela fica com medo de perdê-lo se não "transar" , para ser igual a suas amigas que já transaram, e lógico que não podemos esquecer o ponto fundamental que é o desejo, a atração e o fato de estar apaixonada", disse Cláudia.

A primeira vez, muitas vezes, acontece com o primeiro namorado firme, onde as carícias e os carinhos vão se tornando mais íntimos.

Os sentimentos, de acordo com Cláudia, após a iniciação, variam de culpa, onipotência, medo de ficar "falada", de ficar grávida, dos pais descobrirem, de ser deixada pelo parceiro, entre outras. Quando os pais descobrem, ou mesmo se a adolescente conta para eles, ou para a mãe, é sempre um susto, confusão de sentimentos como traição, culpa, e até aceitação. O mais aconselhável, segundo a psicóloga, é a comunicação, o diálogo, orientação, e em algumas vezes, ajuda de profissionais de saúde: ginecologistas e psicólogos.

Atualmente existem casos de mães que sabem que suas filhas transam com os namorados e levam ao ginecologista, mas não assumem atitudes punitivas. "O problema é que, ás vezes, os adultos esquecem que todos têm uma primeira vez. Todos nós", disse.

Não existe a idade ideal

De acordo com Cláudia, não é possível estabelecer qual idade seria ideal para a "primeira vez", pois, não é só uma questão de faixa etária, e sim de uma combinação de maturação biopsicossocial. "O que é ideal, é que a adolescente tenha tido oportunidade de amadurecer a idéia, pesar prós e contras, não se deixar levar pela onipotência de que, com ela, nada acontece (gravidez e doenças), ler a respeito, buscar pessoas de sua confiança para estar conversando e refletindo junto, saber "escolher" seu parceiro, para que se sinta respeitada e amada", explicou.

Para Cláudia, atualmente, há uma forma diferente, de encarar a virgindade, que não está sendo cobrada mais como antigamente, mas ainda tem seu peso.

Alguns aspectos tais como, crise dos valores morais e éticos, crise econômica, política, a rapidez com que tudo tem se transformado (tecnologia), urbanização, meios de comunicação em especial a televisão e a constituição familiar, contribuem para uma nova maneira de viver. "Não adianta fecharmos os olhos para algumas questões. O que acho importante é assinalar que a sociedade mudou e com ela mudamos todos nós adultos, crianças e adolescentes", afirmou Cláudia.

Educação familiar interfere na decisão

Próximo ao terceiro milênio, a virgindade ainda é um tabu para muitas famílias que têm dificuldade em falar no assunto. Apesar da globalização e do bombardeio de informações na televisão, a educação imposta, na maioria das vezes pela igreja, permanece forte. A repressão sexual que existiu e ainda existe também influencia muito. Mas, por outro lado, algumas posturas e tradições vêm se modificando com tempo. Se nota que há famílias que preferem aderir

à uma liberdade extrema e outras que cultivam o "socialmente proibido".

Para a família de Wellington Teixeira de Almeida, 37 anos, o importante é seguir as normas da igreja. "Nós somos católicos e seguimos o que manda o catolicismo. Sexo antes do casamento é pecado", afirmou. Ele se casou virgem com sua atual esposa, Maria Helena de Almeida, 32 anos. Os dois acreditam que é importante passar para os filhos, Renata, 13 anos e Rodrigo, 10 anos, a mesma educação que receberam dos pais.

Almeida afirmou que o aumento de transmissão de doenças vem acontecendo devido à liberdade atual que se permitiu há alguns anos. "Se as pessoas fossem mais crentes em Deus, não estaríamos diante desse caos", disse.

A estudante M.R.S.T., de 14 anos, contou que é virgem e que pretende se guardar para o homem que será seu marido.

"Eu acho que isso é uma coisa muito importante e só deve acontecer quando a gente ama de verdade e o dia que eu amar alguém vai ser para sempre, vou casar e é com ele que serei feliz", explicou.

O ajudante de serviços gerais, Hamilton Gomes da Silva, 22 anos, é evangélico e afirmou que segue a risca o que prega sua igreja. "Tenho uma namorada que faz parte da mesma congregação que eu e nós já conversamos sobre isso e decidimos que não temos motivos para desrespeitar a igreja. Uma das grandes virtudes é saber esperar", disse. Os dois se casarão em outubro e deverão passar a lua de mel no Nordeste. "Depois de fazer tudo direitinho, aí sim vamos nos amar", disse Silva.

Em contrapartida, o casal Roney Santos, 30 anos e Isabela Pontes Santos, 28 anos, acredita que a proibição é ruim. "Devemos ter abertura para o diálogo. Nós sempre conversamos de tudo com nossa filha e ela tem liberdade para perguntar qualquer coisa", disse Santos.

Eles têm uma filha de 14 anos e fazem questão de conversar sobre sexo e drogas. "É muito importante nós conversarmos com ela, porque se os filhos não encontram a resposta que querem dentro de casa, buscam com os amigos e estes nem sempre falam a coisa certa", afirmou Isabela.

Ela disse, ainda, que quando sua filha achar que é hora de perder a virgindade, dará apoio e levará a garota num ginecologista para que aprenda a se prevenir de doenças e da gravidez.

A estudante A.P.A.S., 17 anos, está grávida. Ela tem um namorado há um ano e três meses e contou que perdeu a virgindade com ele aos quatro meses de namoro. "Acho que idade não tem nada a ver. O importante é você gostar da pessoa e confiar", disse.

Para ela, o único erro foi não ter se prevenido. Os dois afirmam saber das dificuldades que irão enfrentar com a responsabilidade em ter um filho, mas decidiram "encarar" esse dilema da melhor maneira possível. "Nós sabemos que vamos ter que deixar muita coisa de lado, mas vamos saber fazer tudo direito e se um dia a gente resolver casar, vai ser melhor", contou. (FT)