07 de julho de 2026
Geral

Sexualidade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Em busca do prazer

Texto: Gustavo Cândido

A mulher conquistou muitos avanços nesse século. Brigou pelo espaço no mercado de trabalho e exigiu valorização pessoal. Entretanto, a insegurança e cultura ainda prevalecem na hora de ir para a cama. Um sinal claro disso pode ser percebido quando se pronuncia a palavra orgasmo, uma sensação que deveria estar presente na vida de todas as mulheres, mas ainda é envolta em uma aura de mistério e dúvida pela maioria delas. Um tabu.

Muitas mulheres, por uma razão ou por outra, não conseguem se satisfazer plenamente na relação sexual e não fazem muita coisa para sair dessa situação, preferindo ignorar o fato (quando se dão conta dele) e alimentando a frustração. Mas a preocupação com o seu próprio prazer tem feito esse número diminuir.

Essa preocupação marca um momento interessante na história da sexualidade feminina, uma história de muita repressão, como explica a psicóloga e terapeuta sexual Maria Lúcia Biem. "Antes, a mulher era criada para não sentir prazer, sua única função era ser mãe e o sexo era apenas para reprodução e não para o prazer. Hoje em dia, após toda a liberação feminina da década de 60, existe quase que uma exigência, uma necessidade de se ter um orgasmo e isso é muito cobrado da mulher, por ela mesma e pelo homem", diz. Resumindo: antes a mulher era proibida de sentir prazer no sexo, hoje se sente na obrigação de senti-lo. A pressão continua a mesma, mas trabalhando em lados opostos.

Uma das faces mais horríveis dessa ideologia que prega a mulher como uma criatura sem direito ao prazer sexual ainda existe em alguns países da África, onde as mulheres têm seus órgãos sexuais mutilados para nunca sentirem prazer na hora do sexo. Mas mesmo lá, felizmente, esse quadro está sendo revertido (leia no boxe).

"Uma das maiores queixas da mulheres, quando se trata de sexo, é a anorgasmia, a falta de orgasmo. E ultimamente as mulheres estão se abrindo mais e falando mais da sua realização sexual, procurando uma vida prazerosa melhor, investindo mais na sexualidade", revela Maria Lucia Biem. Mas a abordagem feminina ainda não é tão aberta, como diz a ginecologista Maria Cecília Sahade. "A falta de orgasmo é uma queixa bastante freqüente, mas geralmente ela vem velada, escondida atrás de outras queixas". A médica afirma que na maioria dos casos é preciso "forçar" uma situação, sendo mais direta para que a paciente, que se sente muito envergonhada, revele o seu real problema.

Mas o que é orgasmo?

Por mais incrível que pareça, muitas mulheres passam a vida inteira sem saber na realidade o que é um orgasmo. A culpa disso mais uma vez recai na ignorância e no preconceito em relação ao sexo de algumas mulheres causados pela educação reprimida e os conceitos de pecado na qual foram criadas.

A terapeuta sexual Maria Lucia Biem explica que o orgasmo é um reflexo do sistema nervoso que envolve dois componentes, o físico e o psicológico. "Toda pessoa sexualmente excitada chega num ponto de tensão tão grande que detona uma sensação de alívio e relaxamento que causa prazer, é o orgasmo", diz. A ginecologista Maria Cecília Sahade afirma que o orgasmo provoca uma sensação temporária de desmaio, com uma onda de energia que se irradia a partir dos órgãos genitais e causa uma sensação de latejamento intenso, que, em seguida, se transforma em uma sensação de paz.

A médica explica que com o passar dos anos a sensação do orgasmo varia por causa do nível de testosterona na mulher. "Uma jovem não tem um orgasmo tão intenso como uma mulher de 40, por exemplo", diz. "Existe ainda o conceito de orgasmo vaginal (que acontece só com a penetração) e o orgasmo clitoriano

(causado pela estimulação do clitóris), mas o que se sabe é que as mulheres sempre precisam de algum estímulo clitoriano para chegarem lá", completa Sahade.

"A maior facilidade que a mulher tem de ter um orgasmo clitoriano acontece porque o clitóris

é um órgão cuja função é

dar prazer à mulher por causa da quantidade de terminações nervosas que ele possui", explica Maria Lucia Biem. Se friccionado, o clitóris vai proporcionar um orgasmo mais fácil para a mulher. "Mas a sensação é mesma do que um orgasmo vaginal", diz.

Por que ele não vem?

As mulheres que têm dificuldade em ter orgasmos podem apresentar esse problema por várias razões diferentes. "Uma primeira causa seria a alteração sócio-cultural, onde podem ser fatores responsáveis uma educação familiar autoritária, a religiosidade com o sexo vinculado ao conceito de pecado e mesmo o meio social onde se vive", diz Maria Cecília Sahade. Outras possíveis causas apontadas pela ginecologista são as causas orgânicas, como problemas hormonais, traumas na região genital e drogas hipotensoras ou diuréticos, que podem ser redutores do desejo sexual.

Por se um componente psicossocial, o orgasmo também é muito afetado por distúrbios psicológicos. Deste modo, uma pessoa que tenha sofrido violência sexual ou fracassado em outros relacionamentos pode manifestar no sexo essas frustrações e temores e não conseguir ter prazer.

"A mulher também tem uma diferença muito grande em relação ao homem nesse aspecto", diz Maria Lúcia Biem. Segundo a terapeuta, uma mulher precisa muito mais de se sentir confiante com o seu parceiro (e isso significa se sentir segura e amada), do que ele. "A mulher não consegue separar uma coisa da outra, o sexo do sentimento", diz. No momento da relação, um homem demora de quatro a seis minutos, em média, para ter um orgasmo, enquanto uma mulher leva de dez a vinte minutos, ou seja, precisa ser muito

"trabalhada" para chegar "até lá", precisa de carinho e excitação, o que muitas vezes não acontece. "Muitos homens têm a sua ejaculação e depois viram de lado para dormir, deixando a mulher lá", afirma Maria Lucia Biem.

Mas a terapeuta não culpa os homens por isso. "É preciso haver uma troca, não se pode ser egoísta no sexo, é importante conversar. Toda relação sexual requer uma reflexão sobre o que se viveu e se sentiu ou então a frustração vai aparecer", diz. "É importante que o homem aprenda mais sobre a sexualidade feminina e a mulher esteja despida de preconceitos para atingir o prazer na sexualidade". (GC)

Proibida a mutilação genital feminina

O Senegal proibiu a mutilação genital das mulheres, ou infibulação, que se pratica, como em muitos outros países africanos, por motivos religiosos. A decisão do parlamento senegalês foi divulgada em Nova York por fontes das Nações Unidas, que sempre apoiaram a luta feminina contra esta prática bárbara e higienicamente perigosa.

A infibulação, também chamada 'circuncisão feminina', consiste no corte do clitóris na base, acompanhado pela remoção dos lábios maiores da vagina, e a costura dos lábios menores. O pior

é que na maioria dos lugares onde isso acontece essa "cirurgia"

é realizada em condições precárias, muitas vezes com lâminas de barbear e até cacos de vidro como instrumentos de corte.

"A proibição desta prática", frisa o "New York Times", "é fruto de uma ampla campanha de alfabetização do setor feminino da população senegalesa, promovida pelo grupo Tofhan (Mudança)".

"Não se trata do resultado direto desta campanha", frisou Rana Badri, coordenadora em Nova York das atividades do grupo civil internacional Equality Now, dedicado à assistência das mulheres nos países subdesenvolvidos. "A proibição surgiu muito mais da educação de base - como o é aprender a ler e a escrever, que levou às próprias mulheres a se conscientizarem de seus direitos humanos e civis". (Ansa)