Problemas unem o Brasil e Paraguai
B. Requena é editor de Internacional do Jornal da Cidade
A prisão efetuada durante o último final de semana, em Foz do Iguaçu, no Brasil, do ex-general paraguaio Lino Oviedo, refugiado aqui e nos países da região, desde que a Justiça guarani decretou a sua detenção, será, com certeza, um dos capítulos mais problemáticos nas relações entre os dois países. Mas problemático de maneira latente, pois tudo deve permanecer normal, por enquanto, no diálogo Brasília-Assunção. As questões mais difíceis deverão aparecer a médio ou longo prazo. Por ora, o que nos resta é um balaio lotado de problemas nada fáceis e aguardando solução da Polícia Federal, da Justiça e, principalmente, do Itamarati.
O general Lino Oviedo, como se sabe, com o apoio de um bom número de militares, há poucos anos tentou aplicar um golpe de Estado no então presidente Juan Carlos Wasmosy, em cujo governo comandava as Forças Armadas, e de quem passou a ser o inimigo número um. O golpe fracassou, mas mesmo carregando essa marca nada democrática, Oviedo passou a ter, na condição de oposicionista, a simpatia de grande parcela da população. Foi preso e por este motivo teve sua candidatura à presidência barrada pela Justiça. Oviedo designou então um amigo de sua confiança, Raúl Cubas, para encabeçar a chapa, que saiu vencedora. Cubas colocou seu líder em liberdade.
Entretanto, dentro da situação caótica no aspecto político que vivia o Paraguai, o militar, que teve sua patente cassada, passou a ter sérias divergências com o vice-presidente, Luis Maria Argaña. Em meio a esse contexto, Argaña acabou sendo assassinado por um grupo de homens que montaram uma armadilha num bairro de Assunção, disparando contra ele e seu motorista.
Embora as evidências apontassem o mando do crime para Lino Oviedo, a polícia e a Justiça paraguaias demoraram um certo tempo para incriminá-lo. Ele teve decretada a sua prisão, mas por mais de uma vez conseguiu fugir das grades, no próprio Paraguai e na Argentina.
O ex-general, desde sua última fuga, da Argentina, onde se encontrava asilado, era procurado em vários países da região, mas era tida como certa a sua presença no Brasil, onde chegou a conceder entrevista para um canal de televisão.
A sua prisão, em solo brasileiro, no último final de semana, não deixa de representar uma situação complicada para a nossa diplomacia. Figura muito forte entre setores das Forças Armadas do Paraguai, Oviedo tem seguidores em todas as camadas da população e ninguém ousará fazer um prognóstico de que jamais virá a presidir a nação vizinha. Daí o quebra-cabeça que foi imposto à nossa diplomacia nas últimas horas pelos agentes federais, prendendo-o aqui.
É curioso que ao longo do tempo, e, agora, de maneira crescente, o Brasil tem se unido ao Paraguai pelos problemas políticos surgidos na nação vizinha. Além de Oviedo, estão exilados no Brasil os ex-presidentes Raúl Cubas e Alfredo Stroessner, este último ditador que conduziu o país sob regime militar por várias décadas.
(*) B. Requena é editor de Internacional do JC