07 de julho de 2026
Geral

Agronegócios

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 8 min

Secretário da Agricultura prega revolução cultural

Texto: Josefa Cunha

O titular da Secretaria Estadual da Agricultura defende a mudança do conceito popular sobre o setor rural como caminho para viabilizar o agronegócio

O secretário estadual da Agricultura e Abastecimento, João Carlos de Souza Meirelles, tem planos ousados e bem fundamentados para devolver às pequenas e médias cidades paulistas as vagas de emprego e a renda perdidas durante os últimos 50 anos de êxodo rural. Ele defende a incrementação do setor de agronegócios, responsável pela considerável fatia de 41% do PIB no ano passado, como o caminho a ser seguido pelos municípios preocupados em restabelecer a economia. Para tanto, ele prega a necessidade de uma revolução cultural, a qual teria o objetivo de incutir na consciência coletiva da sociedade a noção clara da importância do rural na edificação das cadeias produtivas que resultam no agronegócio. Em palavras mais simples, seria derrubar a vergonha e o preconceito do povo em relação

à zona rural. "As pessoas estão há 50 anos atrás do urbano, da indústria convencional, se esquecendo que a verdadeira vocação da nossa economia é outra. Querem que o prefeito seja exclusivo da cidade, se esquecem que a área rural é também o município. Isso é um entrave cultural que precisa ser abolido", prega. A seguir, confira entrevista concedida por Meirelles ao JC na manhã de ontem, após o encerramento do I Seminário de Administração Rural e Agronegócios realizado no câmpus da Unip.

Jornal da Cidade - Temos ouvido falar muito em agronegócios e eu gostaria que o senhor explicasse exatamente qual sua importância.

João Carlos de Souza Meirelles - O agronegócio é o resultado do conjunto de atividades que são feitas a partir do produto rural, ou seja, é o transformar da soja, que é apenas um o produto agrícola comercializado em grão, em óleo, em farelo, que por sua vez alimenta o frango, o porco. A cadeia produtiva de cada produto constitui o universo do agronegócio. O agronegócio é transformação dos produtos agrícolas agregada a valores, como transporte, industrialização, embalagem, certificação de qualidade e armazenagem. Todas essas ações são agronegócios. Para se ter uma idéia de sua importância, podemos partir da representação dos agronegócios no Produto Interno Bruto. Em 1999, ele representou 41%, enquanto a agropecuária ficou com apenas 8%. Portanto, quando um produto sai da porteira agregando valores cresce de 8% para 41%, ou seja, o agronegócio é hoje o setor mais importante da economia nacional.

Jornal da Cidade - Diante disso, quais os planos para se fomentar o setor?

Meirelles - Primeiramente, temos que mostrar toda essa importância para a população, seja ela urbana ou rural. Na verdade, o que se tem é um entravamento cultural extremamente prejudicial. Nos últimos 50 anos, o Brasil tem revelado vergonha de ser um país rural. Em todas essas décadas, as pessoas buscaram a cidade, a indústria convencional. O resultado é que o Brasil se industrializou, mas esqueceu da agroindústria, de investir no produto que sai do campo. Também temos que mostrar às pequenas e médias cidades do Interior de São Paulo - e para todas do país - que elas estão murchando. As pessoas saíram em busca dos grandes centros, deixando esses locais sem condições de empregar seus próprios filhos. O emprego industrial não veio e nem virá para as pequenas e médias cidades, e o problema é que até hoje ninguém pensou na agroindústria, mas está mais do que na hora de pensar. Hoje, estamos trabalhando coordenadamente, tanto com os agricultores quanto com os industriais, no sentido de criar nos pequenos municípios oportunidades de agroindústrias que possam esgotar a transformação do produto rural.

É isso que irá gerar os empregos perdidos ao longo desses anos todos.

Jornal da Cidade - A volta das pessoas à residência rural também é importante? Qual o percentual de pessoas instaladas na zona rural atualmente?

Mirelles - Eu posso usar o exemplo da própria regional de Bauru, onde o índice da população rural

é de apenas 10%. Apesar disso, nós não estamos somente preocupados em fazer os indivíduos voltarem a morar no campo, até porque achamos que isso não é o mais importante, mas sim criar condições para que o homem do campo não precise migrar para a cidade. Isso é o primeiro passo. O segundo, é criar um conjunto de atividades rurais que realmente maximize a utilização do potencial agrícola ou pecuário de cada região.

Jornal da Cidade - Que tipo de atividades seriam essas?

Meirelles - A fruticultura e a olericultura, por exemplo. Pode parecer brincadeira, mas se você for a um supermercado aqui em Bauru, hoje, você vai encontrar legumes importados e, principalmente, frutas. Nós temos condições de produzir quaisquer desses produtos nesta região, ou melhor, temos condições de cultivarmos o que bem entendermos, especialmente as frutas que o mundo mais cobiça, que são aquelas típicas do clima temperado-quente. Temos talento, competência, qualidade e programas da Secretaria da Agricultura para apoiar esse tipo de iniciativa. Para os produtos que já estão sendo produzidos, do tipo boi de corte e leite, o importante é fazermos um diagnóstico para definitivamente impedirmos que esses produtos sejam comercializados apenas da mesma maneira que saíram da roça. Queremos que eles sejam transformados. Isso irá devolver o emprego e a rendas às pequenas e médias cidades, aumentando gigantescamente a possibilidade da exportação que tanto o Brasil precisa.

Jornal da Cidade - Então, mais importante do que recursos

é a mudança do conceito das pessoas, a cultura.

Meirelles - É exatamente isso. Temos dois temas centrais. O primeiro chama-se agronegócio, porque o Brasil não pode ser mais um país agrícola, mas a grande nação do agronegócio. Não podemos mais mandar o tomate numa caixa de madeira; temos que classificá-lo na origem e aquele que tiver defeito deverá ser transformado em suco, em tomate seco, em extrato. O segundo tema é o fator cultural. Nós estamos precisando fazer uma revolução cultural, porque nós nos tornamos pessoas urbanas. Exigimos que os prefeitos sejam prefeitos exclusivos da cidade e não mais do município. Nós nos esquecemos das estradas e da infra-estrutura rural, e precisamos urgentemente reverter esse pensamento.

Jornal da Cidade - O senhor falou em estradas rurais e me parece que a Secretaria tem projetos para recuperá-las ...

Meirelles - Nós temos talvez o maior programa do mundo em termos de estradas rurais de terra - eu ouvi isso de americanos. Só o Estado de São Paulo possui 240 mil quilômetros de estradas rurais, o que significa o tamanho de seis vezes a volta ao mundo. Essas vias estão sob a responsabilidade das prefeituras, mas é raro se ver iniciativas de recuperação, especialmente pela falta de maquinário e pela própria despreocupação que atinge a todos quando o assunto é a zona rural.

Jornal da Cidade - Como que é esse programa?

Meirelles - Na verdade, são três programas. O primeiro chama-se "melhor caminho" e através dele nós objetivamos fazer a melhoria das estradas de terra, recuperando os piores trechos. A idéia é criar um modelo e treinar os funcionários das prefeituras para segui-lo. O segundo, é um programa de pontes metálicas, porque não adianta ter a estrada em boas condições se não há a ponte. A partir deste mês, começaremos a distribuir duas mil pontes de aço aos 500 municípios agrícolas do Estado. Cada um deverá receber quatro ou cinco delas, e a Prefeitura ficará responsável apenas pela construção das cabeceiras. O terceiro e último programa inova sob o ponto de vista do modelo de gestão do Estado. Vamos exigir a organização de grupos de seis municípios em consórcios e depois entregaremos a eles a chamada patrulha mecanizada, que inclui trator de esteira, motoniveladora, pá-carregadeira e retroescavadeira. Essa patrulha será gerida pelos prefeitos, que deverão priorizar os trabalhos da melhor forma. Esperamos com essas três ações conjuntas resolver, dentro dos próximos três anos, o drama de pelo menos um terço das estradas do Estado. Passamos a adotar, com isso, uma postura não mais paternalista ou política. Entregamos a vara, a linha, o anzol, a isca e as técnicas de pesca. O peixe fica para cada um pegar.

Jornal da Cidade - Qual o investimento?

Meirelles - Só neste ano, esses três projetos deverão envolver alguma coisa em torno de R$ 200 milhões.

Jornal da Cidade - Diante dessa política, qual será o papel dos Conselhos Regionais daqui por diante?

Meirelles - Nós criamos em todo o Estado os conselhos municipais de desenvolvimento rural, que têm o papel de representar os produtores e os trabalhadores rurais, bem como o pessoal da indústria, comércio e serviços da cidade, para definir a política agrícola das cidades. Em cada uma das 40 regiões que o Estado se divide para efeitos de agricultura, criamos o conselho regional, que, agora, tem a participação obrigatória dos prefeitos. Afinal, não dá para impor nada a um município que não tenha a concordância do prefeito. O resultado disso é um plenário extremamente democrático e moderno, com o papel de definir o desenvolvimento das regiões. Na prática, os conselhos estarão definindo quais são seus principais produtos, a infra-estrutura necessária e organização da agroindústria, que é a grande nova missão. Os conselhos também terão o importante papel de discutir a revolução cultural, ou seja, de devolver à consciência coletiva da sociedade a noção clara da importância do rural na edificação das cadeias produtivas que resultam no agronegócio.