07 de julho de 2026
Geral

Enxaqueca

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 5 min

Especialista faz simpósio sobre enxaqueca

Texto: Adriana Rota

A doença afeta 30 milhões de pessoas, somente no Brasil, e sua incidência vem aumentando em decorrência do estilo de vida inadequado. O médico veio falar sobre as novidades relativas ao tema

O médico responsável pelo Ambulatório de Cefaléia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Getúlio Daré Rabello, esteve em Bauru, recentemente, participando do simpósio intitulado "Novas Perspectivas no Tratamento da Enxaqueca", na sede da Associação Paulista de Medicina (APM).

O evento, promovido pela indústria farmacêutica Merck Sharp & Dohme, foi direcionado a especialistas da área e clínicos gerais, com o objetivo de apresentar as novidades em estudos relativos ao tema. Rabello, doutor em Neurologia pela Faculdade de Medicina da USP, ministrou a palestra "Impacto, diagnóstico e tratamento das crises".

O médico procurou abordar o assunto cefaléia (dor de cabeça) de forma geral, afunilando o assunto até falar, especificamente, sobre a enxaqueca. Nos últimos dez anos, segundo ele, a sociedade mundial assistiu a grandes avanços referentes ao tema, especialmente sobre os fatores responsáveis por sua alta incidência.

O interesse pelo problema estaria crescendo na mesma proporção, tanto por parte de indústrias - como a Merck Sharp & Dohme, que patrocinou o evento com entrada franca para os médicos

-, quanto pela própria Sociedade Brasileira de Cefaléia, promotora de cursos freqüentes em diversas cidades do País.

Mesmo já tendo sido descrita em textos romanos da Antigüidade, a enxaqueca nunca chamou tanto a atenção. O motivo, de acordo com Rabello, é o aumento de sua prevalência, decorrente do desregrado estilo de vida atual. O detalhe é que a enxaqueca tem caracteres genéticos, o que tende a prolongar o ciclo.

O problema pode ser causado por uma combinação de fatores, como luz forte, ruídos altos, alterações climáticas, de comportamento - por exemplo, dormir demais ou de menos, jejum, alteração na dieta -, estresse e consumo de determinados alimentos - os mais comuns são chocolate, queijo, cafeína, frutas cítricas, bebidas alcoólicas, enlatados e glutamato monossódico (substância que acentua o sabor dos alimentos).

Vários especialistas defendem que a dor é causada por um distúrbio na circulação do sangue nas artérias cerebrais, que ficariam mais estreitas, reduzindo a passagem do sangue. A dilatação repentina o traria com grande pressão, causando a dor - "aviso" do organismo de que algo não está bem em determinado ponto.

De acordo com Rabello, um dos assuntos de maior controvérsia, por enquanto, continua sendo a cura. Há uma tendência dentre os especialistas de que é possível apenas o controle, até que se atinja o quadro de remissão, quando o indivíduo chega a uma determinada idade e o problema

é resolvido pelo próprio organismo.

Diagnosticar e controlar o problema é importante

Como existem mais de cem tipos de cefaléias (dores de cabeça),

é importante consultar um médico para saber exatamente qual o problema. Através de conversas, pode-se identificar os fatores desencadeantes, que podem ser diferentes para cada pessoa. Anotar tudo o que aconteceu durante o dia é um bom ponto de partida.

O controle é importante porque a enxaqueca pode ter um efeito negativo sobre a qualidade de vida, uma vez que é difícil comportar-se normalmente sob dor intensa. Muitas pessoas perdem dias de trabalho, estudo e outras atividades sociais em decorrência dos sintomas.

Estima-se que os custos médicos diretos da enxaqueca, que são devidos principalmente ao atendimento médico, sejam pequenos em comparação com os custos indiretos, provocados pelos dias de trabalho perdidos em decorrência da redução de produtividade.

Os especialistas acreditam que a enxaqueca é subdiagnosticada em todo o mundo, porque apenas uma minoria de pacientes consultariam médicos para diagnóstico e tratamento. A estimativa

é de que uma em cada cinco pessoas no mundo tenha esse tipo de dor de cabeça intensa. No Brasil, seriam 30 milhões de pessoas.

O problema afeta, aproximadamente, 6% dos homens e 15 a 18% das mulheres (especialmente entre 25 e 55 anos de idade). Uma das hipóteses é que as oscilações hormonais do organismo feminino tornem esse sexo mais propenso à enxaqueca.

Muitas crianças e adolescentes também podem sofrer de enxaqueca, com sintomas diferentes daqueles dos adultos: a dor, freqüentemente, é bilateral, a crise pode durar de 30 minutos a 48 horas e eles ficam mais irritados com a luz ou os sons fortes. Na avaliação, o médico obterá o histórico dos pais e da criança para fazer o diagnóstico correto.

Auto-medicação

A freqüência das dores de cabeça pode resultar na auto-medicação, especialmente pelo uso de analgésicos. Além de mascarar os problemas mais graves, adiando a cura ou agravando o quadro, eles podem causar outros distúrbios, como no estômago. Indagado sobre possíveis terapias alternativas, o palestrante disse que existem muitas controvérsias a respeito da eficácia dessas substâncias, por falta de evidências científicas.

*Colaborou o site www.msdonline.com.br.

Estágios da enxaqueca

O paciente pode passar por até cinco estágios distintos:

*pródromo - sinais de alerta, que podem ocorrer várias horas ou dias antes da crise, como alterações de humor, comportamento, nível de energia e apetite;

*aura - geralmente desenvolve-se entre 5 e 20 minutos e dura menos de uma hora, podendo ocasionar distúrbios visuais, auditivos, sensitivos ou motores, cefaléia, náusea e/ou sensibilidade

à luz;

* cefaléia - geralmente ocorre após os sintomas de aura ou após um intervalo sem sintomas de menos de uma hora, com sintomas como cefaléia unilateral, dor pulsátil ou latejante, dor agravada pela atividade física rotineira, sensibilidade à luz ou ao barulho, náusea e/ou vômito;

*resolução - a cefaléia pode demorar de 4 a 72 horas para cessar;

*término - ocorre após a fase de cefaléia em muitas pessoas e pode durar de horas a dias, resultando em exaustão, fraqueza, inquietação, letargia ou exaltação.