08 de julho de 2026
Geral

Controle da poluição

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Raspa de couro pode deixar de poluir

Sobras da raspa de couro, classificadas como resíduos perigosos ao meio ambiente, podem ser usadas na construção

Docentes da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru estão há dez meses trabalhando em uma pesquisa que visa acabar com um problema ambiental vivido pelo município de Bocaina e evitar que dezenas de microempresas fechem suas portas em função dos detritos que despejam no meio ambiente.

Uma das principais atividades econômicas de Bocaina, cidade com aproximadamente 10 mil habitantes, são as quase 100 microempresas fabricantes de aventais e luvas de alta resistência, feitas de couro curtido, que são usadas por trabalhadores da indústria como equipamentos de proteção individual.

As sobras das raspas do couro utilizado pelas empresas, no entanto, representam uma ameaça ao meio ambiente. É que o cromo e o sal, substâncias contidas no couro em grande quantidade, são classificados como resíduos não degradáveis e, portanto, perigosos, já que contaminam o solo e até o lençol freático.

Preocupado com a questão ambiental e buscando uma solução para o problema, o prefeito de Bocaina, Donizete Gimenez, procurou ajuda dos pesquisadores da Faculdade de Engenharia da Unesp.

Tijolos e divisórias ecológicas

Através de diversos estudos e pesquisas, os professores do Departamento de Engenharia Civil, Adilson Renófio e Jorge Akutsu, já obtiveram resultados positivos e apontam caminhos para a solução do problema com a utilização do material em outros produtos.

Adilson Renófio explicou que a primeira preocupação foi com a questão ambiental e as pesquisas foram direcionadas no sentido de buscar uma forma de neutralizar a ação do cromo no meio ambiente.

Os docentes descobriram que o resíduo pode ser utilizado na fabricação de materiais de construção, como o tijolo, por exemplo. Segundo eles, ao misturar as raspas de couro com o cimento e resinas, o cromo praticamente desaparece.

Depois de alguns testes e ensaios, os professores concluíram que, apesar da ótima qualidade do produto, o tijolo feito com cimento não é viável economicamente,

"o custo é muito alto em função da utilização do cimento", revela Renófio.

Porém, os pesquisadores trabalham agora com a utilização de materiais de baixo custo, como a terra, e aguardam o resultado dos ensaios. "Já sabemos que com a utilização da

terra apropriada, o custo final do produto torna-se bastante atrativo e dentro de três semanas poderemos obter o resultado final de resistência e de conforto ambiental do produto na construção civil", conta Jorge.

Além dos testes com a produção dos tijolos, os pesquisadores também estão estudando autilização das raspas de couro na fabricação de divisórias, placas e painéis. Materiais que podem ser aplicados tanto em paredes divisórias como em forros. Para Adilson, a utilização das raspas de couro nesses materiais acaba sendo ainda mais interessante. Acontece que para a produção das placas, o aproveitamento dos resíduos de couro é de cem por cento, "o material absorve muito mais resíduo com texturas e propriedades diferentes".

Os professores apontam ainda que esse material é um isolante térmico-acústico de ambientes, "é um produto mais nobre para a construção civil", ressalta o docente.

Verbas

Até agora, os docentes da Unesp, com a participação dos alunos de graduação, têm trabalhado sem apoio financeiro de nenhuma entidade. Além de alguma colaboração da Prefeitura de Bocaina e da utilização dos laboratórios da FE, os professores Adilson e Jorge desenvolvem a pesquisa com recursos próprios, mas para a obtenção de melhores resultados estão em busca de parcerias e de investimentos.

Segundo os docentes, a pesquisa chegou ao ponto crucial, que é o de resultados finais para a viabilização de produção dos materiais em escala industrial.

Renófio argumenta que são materiais de grande consumo, tendo em vista que vão atender à construção civil "e além disso, com certeza, podem obter o selo verde, que caracteriza os produtos que não causam prejuízo ao meio ambiente".

De acordo com os docentes, seriam necessários cerca de R$100 mil para a conclusão da pesquisa. "Precisamos de equipamentos para produção dos materiais e realização dos ensaiosfinais, para a avaliação de outras vantagens, como conforto ambiental , durabilidade, viabilidade econômica, etc.".

Os pesquisadores acreditam que a partir da conclusão dessa pesquisa, outras vertentes se abrem com a utilização de diversos outros resíduos. Eles contam com o interesse de pequenos e microempresários, dos órgãos governamentais e não governamentais para continuarem suas pesquisas. "Além de estarmos apresentando uma solução para o problema ambiental que esses resíduos podem causar, também estamos apontando mais uma viabilidade econômica para a região e assim um aumento de oferta de vagas no mercado de trabalho", salientam.