07 de julho de 2026
Geral

Sambista

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

O poeta do samba

Texto: Gustavo Cândido

Quem vê Elionai de Lima trabalhando no Laboratório de Bauru e no Instituto Adolfo Lutz entre tubos e amostragens de exames não imagina que por traz do dedicado funcionário da área da saúde (sua profissão há 18 anos), está uma das figuras mais importantes do carnaval bauruense da atualidade. Leo do Rasi, como é conhecido,

é um dos mais famosos compositores de samba-enredo da cidade e região. Ele falou ao JC sobre seu dom, seu método de composição e o orgulho de ter uma música sua na casa de Dona Zica, uma das figuras mais tradicionais e queridas do samba brasileiro de todos os tempos.

Jornal da Cidade - Quando você descobriu que tinha o dom de compor?

Leo do Rasi - Acho que isso vem desde pequeno. Meu pai

é alagoano e fazia repente, rimando as frases, acho que veio do sangue dele. Na escola, com 7 ou 8 anos, eu já escrevia as minhas redações com rima, tudo tinha rima. Nas rodas de amigos também, sempre que ia brincar, falar de alguém, fazer paródias, usava rimas, Daí percebi que tinha jeito para coisa, facilidade para fazer poesias, sonetos...

JC - Quando se deu o encontro do dom com o samba?

Leo - Quando eu ouvi o samba "Memórias de um Sargento de Milícias", achei muito legal e pensei que podia fazer música. O mais difícil foi aprender a lidar com a melodia, mas a letra sempre foi fácil para mim.

JC - E para pôr o samba na avenida?

Leo - Eu via as escolas de Bauru colocando aqueles sambas na avenida e ficava imaginando quando teria minha chance. Como naquela época existiam Madeirinha, Maurinho do Santo, Mamede, os compositores que sempre colocavam seus sambas na avenida, eu ficava só olhando para descobrir como eles faziam, a metragem da música que não pode ser muito grande, o refrão que tem de ser forte. Passei a inscrever minhas músicas todos os anos nos concursos das escolas, mas nunca ganhava porque não tinha aquela manha.

JC - E quando você conseguiu colocar sua música na avenida?

Leo - Foi em 92, na Mocidade Independente da Vila Falcão. Foi na época em que o saudoso Queté, que sempre me influenciou e incentivou, morreu. Ele não viu eu colocar o meu samba na Mocidade, que era a escola dele. Uma semana depois que ganhei o concurso na Mocidade, me inscrevi no concurso da Cartola em parceria com o Guto do Banjo, ganhei também. Ai vieram os concursos para a Imperatriz da Bela Vista e eu ganhei de novo, para a Águia de Ouro também e nesse ano, surgiu a Coroa Imperial, concorri com um samba lá e ganhei também. Quer dizer, em 92, todos os sambas da avenida eram meus, nunca tinha posto um samba antes e de repente todos eram meus.

JC - Desde então seus sambas têm estado na avenida todos os anos?

Leo - Todos os anos. Em 93 eu fiz o samba da Águia de Ouro, da Impertriz da Bela Vista e da Coroa Imperial, depois acabei indo para Jaú, fazer sambas para a Cruzeiro do Sul e fomos campeões por dois anos seguidos lá. Depois o pessoal da Cruzeiro montou a Unidos da Vila XV, continuei fazendo sambas para eles e fomos campeões também. Então hoje, eu faço sambas para a Cruzeiro e para a Unidos em Jaú e para a Coroa aqui em Bauru onde eu também puxo o samba. Só faço samba para as outras escolas quando um parceiro vem me procurar, mas já faz três anos que só faço samba para a Coroa.

JC - Você já compôs outro tipo de música ou só samba?

Leo - Já, 7 das 12 músicas do CD do Lucas e Augusto são minhas. São composições sertanejas, country, românticas.

JC - E como foi o encontro com a Dona Zica da Mangueira?

Leo - Foi em 98, quando ela veio até Bauru. O pessoal da Secretaria da Cultura pediu um dia antes, que eu fizesse uma composição para homenageá-la, que falasse da Mangueira e do seu marido, Cartola. dei muita sorte e fiz uma canção muito bonita. Quando ela chegou, eu primeiro li o que tinha escrito antes, depois cantei para ela, que chorou como criança. Ela disse: "Leo, essa letra vai estar na minha casa, num quadro na minha sala" e isso foi um motivo de grande orgulho para mim. A Celina da Mocidade está sempre com ela no Rio e até no último Carnaval ela me mandou um abraço, me convidando novamente para ir à sua casa. Quer dizer, eu não sou "aquele compositor de Bauru", para ela, sou o Leo, ela me chama pelo nome. A Celina contou que o quadro está na sala da casa dela e que ela quer muito que eu vá até lá para cantar a música para ela porque muita gente vai lá, gente do nível de Martinho da Vila, Almir Guineto e Zeca Pagodinho, vê a letra na parede, gosta, mas não sabe cantar a música. Então vou ter de ir lá ou mandar uma fita. Para mim é um prazer saber que lá na casa da Dona Zica, quem entrar vai ver uma letra minha na parede.

JC - Você já é um compositor famoso em Bauru?

Leo - É, da pra dizer que eu já fiz o meu nome, mas não foi fácil. Ainda temos bons compositores como o Madeirinha, Maurinho do Santo e Mamede... Eu dei sorte porque já existiram mais compositores e muitos foram parando, foi o que abriu uma brecha pra mim

JC - Desde quando você "puxa" o samba na avenida?

Leo - Desde 92 quando o pessoal da Coroa me convidou e eu estou lá até hoje como compositor e cantor

JC - Mas como você começou a cantar?

Leo - Antes de sair nas escolas de samba, eu já colocava o bloco do Clube das Nações, que era o

"Bloco do Prazer", na rua. Naquele tempo o Queté tinha o bloco "Ginga Brasil", que era quase uma escola de samba e para mim o bloco tinha de ser como o dele, organizado, com as pessoas bem vestidas. Isso foi em 86 ou 87, eu fiz um samba homenageando Mãe Menininha do Gantois e saimos na avenida. O Queté homenageou Adoniram Barbosa. Foi ali que me realizei, porque sai cantando e todos tiveram que me ouvir. Sai no "Bloco do Prazer" por três anos, depois sai no "Vem Comigo", que também era muito grande, fiz samba lé e sai cantando. Dai fui em frente, quando eu vi já estava na avenida e sendo conhecido por isso.

JC - Você sempre gostou de Carnaval?

Leo - Na verdade não muito, brincava no salão no Clube das Nações, mas não era um grande folião.

JC - Como você faz o samba especialmente para escola, como desenvolve o tema?

Leo - Depois que a escola escolheu o tema, o carnavalesco passa para mim a história, os dados, a cronologia dos fatos, tudo. Em cima disso vou fazendo a letra. Na verdade não importa o tema, ele pode ser o mais variado possível. Quando já vem a história eu já sei como a escola vai sair na avenida, como vai ser cada ala. Eu gosto de compor em cima disso, para a hora que eu escrever, saber como vai estar a escola.

JC - Quanto tempo você demora para fazer um samba?

Leo - Depende da inspiração, às vezes

é rápido, outras demora mais, depende da inpiração. Primeiro eu espero todo mundo dormir e, de madrugada, preparo a mesa, deixo o cigarro do lado (às vezes fumo uns dois maços até a composição ficar pronta), a cerveja ou o uísque e me concentro. Não gosto que ninguém me interrompa, nem o latido cachorro. Dai páro, dou uma olhada, dou uma volta e vou escrevendo. Às vezes, no caso de um samba-enredo, em duas horas ele fica pronto. Quando eu sento decidido a fazer o samba, só páro quando ele termina mesmo. Sempre escrevo com a melodia já na cabeça. Quando termino, vou dormir e no outro dia leio de novo e faço algum acerto necessário.

JC - Qual o seu samba-enredo favorito?

Leo - O samba desse ano da Coroa Imperial, que contava a história do samba, desde o Rio até Bauru, é um dos que eu gosto mais em termos de linha melódica e letra. Mas também gosto muito do meu primeiro samba na Mocidade que falava sobre a Rua 1º de Agosto. Eles são muito exigentes na Mocidade e se um samba é escolhido lá

é porque é muito bom, então é um samba que eu gosto, eu fui muito feliz na poesia, é um samba muito bonito.

JC - Nesses anos de avenida você já deve ter vivido algumas histórias curiosas ou engraçadas. Qual episódio vem à sua cabeça agora para contar?

Leo - Faz uns quatro anos, nossa escola foi uma das últimas a desfilar e estava chovendo muito. Na concentração, antes de entrar, a gente fica chamando a escola, cantando. E o povo na arquibancada ouve também. Eu estava com um microfone na mão e, com toda aquela água, estava tomando choque na mão, na boca e sem querer reclamava dos choques e soltava um palavrão. E todo mundo escutando. Quando eu desci a avenida a curiosidade gerla era saber porque eu estava xingando na concentração. Mas depois de me deram um microfone sem fio e tudo deu certo, mas foi engraçado.

Mangueira

Negra -Verde e Rosa

"Cartola, poeta menino

Que o ingrato destino

tão cedo levou.

E que foi se encontrar com Noel

E compor lá no céu para o Nosso Senhor.

Mas deixou uma rosa que fala

uma rosa que exala perfume de flor

Dona Zica, negra-verde e rosa

pedra preciosa e de raro explendor"

Trecho da composição que Leo do Rasi fez em homenagem

à Dona Zica, seu marido Cartola e à Mangueira