Geração distribuída ganha espaço
Texto: Paulo Toledo
A crise energética que se desenha no Brasil, fruto da falta de investimentos em geração, está levando muitas empresas, que têm necessidade da energia elétrica para seus trabalhos ou serviços, a pensar na geração própria, para evitar surpresas em caso de racionamento. Só no mês passado, a procura por esse tipo de solução dobrou em uma das principais empresas fornecedoras de equipamentos. Além disso, há um lado social nesta atitude, que é sair da rede pública, aliviando o sistema e adiando um possível problema para todos.
Para driblar a possível falta de energia, o governo vem aprovando, a toque de caixa, a instalação de usinas termelétricas, que funcionarão com o gás natural importado da Bolívia. Porém, não há uma garantia de que o problema vai estar resolvido a tempo. Neste ano, por exemplo, a falta de chuvas está colocando os reservatórios das hidrelétricas em uma posição difícil. O governo informa que não devem ocorrer problemas, porém, 2001, como se diz no futebol, "será uma caixinha de surpresas".
Em Bauru, a Universidade do Sagrado Coração
(USC) contratou a Clic Energia para realizar um estudo para implantação de um grupo gerador para substituir os cerca de 1,3 megawatts
(MW) que utiliza, no chamado horário de pico - das 18 às 21 horas, quando a demanda é maior em todo o País
- e em caso de emergência.
Rui Negreiros, gerente de vendas de motores e grupos geradores da Caterpillar, destaca que a economia atingida por um grupo gerador diesel, no horário de pico, pode chegar a 35%, em relação ao preço que uma empresa paga à distribuidora nesse horário crítico, que tem tarifa diferenciada, bem mais cara.
Esse tipo de geração localizada e alternativa, chamada de geração distribuída,
é muito comum nos Estados Unidos. Há inclusive, os produtores independentes de energia, que são empresas privadas que produzem energia, em mini-usinas, pequenas termelétricas e hidrelétricas e é comum a venda da energia produzida a diesel. Na região de Miami, na Flórida, por exemplo,
é possível acionar, em 30 segundos, uma geração de 58 MW, em comando à distância.
A distribuidora local utiliza o sistema compartilhado, no qual o consumidor passa a comprar energia dessas independentes para enfrentar o chamado "peek shaving" (o horário de pico deles). A energia é "exportada" da unidade para a concessionária.
No Brasil, aponta Negreiros, clientes consumidores finais estão adquirindo grupos geradores a diesel ou a gás para fazer geração própria no horário de pico, para obter redução da conta a ser paga. Segundo ele, já descontados os gastos com manutenção, a redução no valor pago chega a 35%. "Em muitos casos, essa economia chega a autofinanciar o equipamento", afirmou.
Das 18 às 21 horas, essas empresas se desconectam da companhia distribuidora - há um dispositivo que coloca em funcionamento o grupo gerador, enquanto vai saindo gradativamente da rede pública, sem que ocorra qualquer oscilação - e passam a consumir a energia gerada a um custo de R$ 0,18 por quilowatt (KW), enquanto que o custo da companhia chega a ser de R$ 0,40 neste horário.
Esses equipamentos são comprados de forma financiada e, muitas vezes, chegam a ter um valor de prestação inferior ao valor economizado. Para se ter uma idéia, um gerador de 1,2 MW custa algo em torno de US$ 450 mil instalado. A projeção de Negreiros é de que um equipamento desses é pago em 60 meses com a economia produzida. "Depois disso, a economia é total para o cliente", afirmou. Diesel
As contestações sobre a geração a diesel, que os ambientalistas chamam de energia não-limpa,
é menos poluente do que a emissão de gases por algumas indústrias e automóveis. Porém, ele diz que a limitação da energia produzida por hidrelétrica
é a questão da água. Gás
Negreiros explica que os geradores movidos a gás tem um poder calorífico menor e, por isso, desenvolve uma potência inferior ao motor diesel. Um equipamento diesel que forneça 600 KW tem uma redução para 350 KW a 400 KW quando é feita a transformação. Com isso, o custo do equipamento à gás é muito superior, se comparado por quilowatt produzido.
Por isso, a fornecedora só indica o uso a gás para casos de co-geração, como
é o caso da Coca-Cola de Jundiaí, que tem dez unidades da Caterpillar movidas a gás, das quais são retiradas a energia elétrica, o CO2 (do gás de escape), que
é tratado para ser usado, além da água aquecida do radiador, que é utilizada para aquecer o xarope para produção do refrigerante. "A eficiência térmica do equipamento chega a 90%, que é fantástico. Esses motores a gás costumamos ofertar para empresas que possam aproveitar o subprodutos, pois aí, o custo mais elevado é compensado", afirmou.
A Eletronorte, para enfrentar o aumento de demanda na região amazônica, seguiu o modelo americano e instalou 58 equipamentos em conteiners com rodas, distribuídos nas cidades que se tem necessidade, para suprir o crescimento dos parques industriais da região. A geração distribuída foi a solução para baratear o fornecimento de energia na região amazônica. De acordo com Negreiros, já foram encomendadas mais 30 unidades.
A Caterpillar é a maior fabricante de grupos geradores no mundo, com 134 GW instalados em vários países. Para se ter uma idéia, o Brasil todo tem uma geração instalada de 70 GW. No Brasil, a empresa tem cerca de 10% de market share (participação de mercado) na área de grupos geradores. O maior fornecedor do país de geradores é a empresa gaúcha Stemac.
Cerca de 35% do faturamento da Caterpillar no mundo, que chega a 24 bilhões vem dessa área de equipamento de geração de energia. A empresa tem a meta de elevar esse índice para 50% em cinco anos.