07 de julho de 2026
Geral

Estresse

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

O organismo em estado de alerta

Texto: Sabrina Magalhães

Instinto animal que garante a sobrevivência e evolução das espécies

Apelidado recentemente de "a doença do século" por acometer uma porcentagem muito alta da população mundial, o estresse nada mais é do que um conjunto de alterações orgânicas, mentais, psicológicas e/ou comportamentais promovidas instintivamente no organismo de todo animal sempre que ele se vê em situação de perigo. É a forma mais primitiva de defesa, em que quase toda a energia do corpo é mobilizada para uma iminente luta ou fuga. Apesar de ser hoje considerado um dos maiores vilões da vida moderna, foi graças ao estresse que o homem venceu seus predadores e evoluiu.

"Imagine um gato permanecendo totalmente apático ao aparecer-lhe um cachorro. Sua sobrevivência estaria seriamente comprometida", observa o psiquiatra Geraldo José Ballone, em seu site Psiqweb - Psiquiatria na Internet (www.psiqweb.com.br). Ele afirma que a função do estresse é preparar o corpo para toda e qualquer situação nova ou ameaçadora. Portanto, é um mecanismo normal, necessário e benéfico ao organismo.

O problema é que na vida moderna, tais mudanças adquiriram uma velocidade excessiva e esse conjunto de alterações provocadas pelo estresse se repete inúmeras vezes ao dia, causando um certo esgotamento ao indivíduo. Hoje, as mudanças estão em todas as partes: na tecnologia, na ciência, na medicina, no ambiente de trabalho, nos valores e costumes, filosofia e religião. Enfim, de certa forma, pode-se dizer que se não fosse o estresse, não sobreviveríamos a tantos desafios e, provavelmente, ainda viveríamos como

"homens das cavernas".

Para explicar, Ballone cita o exemplo do gato diante de um cachorro. Instintivamente, seus pêlos ficam eriçados, a musculatura toda se contrai e as pupilas se dilatam, em absoluto estado de vigília. Se o cão esboça qualquer movimento, o gato reage, mostrando suas garras e dentes afiados.

Com o ser humano, é a mesma coisa. Graças ao estresse, ele consegue agilidade suficiente para pular um muro de dois metros apenas com o apoio das mãos, ou força para derrubar um "inimigo" maior e supostamente mais forte do que ele. Segundo Ballone, a ausência total do estresse equivaleria

à morte, de modo que não se deve tentar eliminá-lo, mas sim, reduzir os efeitos danosos que ele pode provocar quando mal administrado.

Neste sentido, vale lembrar que os estímulos estressores existem para todas as pessoas igualmente. É a maneira como cada uma interpreta tais fatores que vai fazer do estresse algo bom ou ruim. Então, uma pessoa que perde o emprego pode tanto apresentar um quadro depressivo, como pode aproveitar a oportunidade para "chacoalhar" e dar um rumo novo à própria vida. Ordem cerebral De acordo com o neurologista Luiz Carlos Garcia Betting, na maior parte do tempo, o organismo mantém um equilíbrio perfeito entre todos os seus órgãos. Tudo funciona seguindo um determinado padrão: pressão arterial, batimentos cardíacos, respiração, hormônios, etc. Quando a pessoa (ou animal) é submetida a alguma situação de estresse, o cérebro dá início a uma série de transformações.

É como o trabalho dos bombeiros: cada um tem uma tarefa; quando soa o alarme, eles rapidamente se movimentam para desempenhar seu papel. Um assume o volante, outro cuida de sinalizar a saída do veículo e assim por diante, de modo que o socorro chega ao seu destino em pouquíssimos minutos. Com o cérebro também é assim, só que as alterações são infinitamente mais rápidas.

"Essas transformações ocorrem no que nós chamamos de mediadores químicos, como a serotonina e a 5-hidroxitriptamina. São substâncias sempre presentes no organismo, mas que têm seu nível aumentado no momento do estresse, desencadeando todas as alterações. O coração, cujo batimento normalmente gira em torno de 80 por minuto, passa a bater 100-110 vezes. A respiração, que normalmente é entre 20-22 por minuto, passa a 26-28. Os vasos sangüíneos se contraem (espasmo vascular), deixando a pessoa pálida, mãos e pés frios. A boca fica seca, porque as glândulas passam a secretar menos. É o que nós chamamos de estado de ansiedade. Um estado em que o organismo se prepara para enfrentar alguma coisa, uma agressão que parece iminente", explica Betting.

Quando o estresse é persistente, o funcionamento dos órgãos pode ficar comprometido, a pessoa pode sentir dores, ter diarréia, problemas digestivos. Daí passa a ficar nervosa, irritada, descontrolada, o raciocínio fica confuso, ela se torna insegura, com dificuldade de encontrar soluções, passa a ter insônia e vai se deteriorando.

"Isso pode acontecer por motivos reais, como a morte de um parente, uma doença séria, um acidente. O que acontece

é que hoje o estresse é crônico, contínuo, pelas dificuldades do dia-a-dia. Problemas de emprego, de horário, correria, dificuldades financeiras... estamos sempre correndo atrás de alguma coisa e não sobre tempo para o relaxamento", destaca. Agente estressor

É o nome que se dá a todo estímulo (acontecimento, situação, pessoa ou objeto) capaz de provocar tais alterações no organismo. Para os animais, só existem estressores externos, sejam eles inatos (como o 'medo' que o gato tem do cachorro) ou adquiridos (como os cães, que atacam um invasor quando são treinados para isso).

Para o ser humano, no entanto, além dos estímulos externos, que são as ameaças concretas do cotidiano, também existem os estímulos internos, que surgem dos conflitos pessoais e refletem a sensibilidade emocional de cada um. Infelizmente, os estímulos adquiridos (traumas, experiências) e os internos são os que mais desencadeiam o estresse nos dias de hoje. E pior: eles contribuem para que o estado de estresse se perpetue por muito tempo. "São ameaças abstratas, continuamente presentes e freqüentemente invencíveis", destaca Ballone.

Um exemplo é o estresse pela doença. A possibilidade de ficar doente é uma ameaça séria, um estímulo estressor importante. Então, um sintoma suspeito (fator externo e concreto) gera estresse. O estímulo interno seria a pessoa estar muito bem de saúde e, ao ver alguém espirrar, sentir um forte medo de adoecer.

O estresse patológico está diretamente ligado à maneira como cada pessoa encara e reage a esses estímulos.

"Mesmo em se tratando de um eventual estímulo externo, proveniente do mundo objetivo e concreto, sua natureza agressiva poderá ser mais traumática ou menos traumática, ou seja, mais estressante ou menos estressante, dependendo da conotação mais agressiva ou menos agressiva a ele atribuída por nossa sensibilidade (afetiva)", diz Ballone.

É o caso da perda do emprego, que pode ser vista como uma alavanca para uma mudança de atitude ou um pontapé para a depressão. "Tais coisas podem representar uma ameaça maior ou menor dependendo da circunstâncias pessoais: da segurança, auto-estima, preocupação exagerada com os outros, etc.", conclui.