Após desconto de dias de greve, reposição divide professores
Texto: Ieda Rodrigues
Professores, diretores e demais funcionários do magistério da rede estadual de ensino que fizeram greve por reajuste salarial entre 4 de maio e 14 de junho ficaram indignados, ontem, ao receber seus salários: os dias parados foram descontados e alguns profissionais não tinham quase nada a receber. Como houve o desconto, a orientação do Sindicato dos Professores da Rede Oficial de Ensino do Estado de São Paulo (Apeoesp) e do Centro do Professorado Paulista (CPP) é para que os professores não reponham as aulas, mas a questão está dividindo a categoria.
Apesar de indignados, boa parte dos professores estaria propensa a fazer a reposição das aulas por causa da dificuldade financeira que estão vivendo, segundo informações colhidas nas escolas. A reposição começa no próximo dia 17, nos horários normais de aula. A dirigente regional de Ensino, Edinéa Sita Cucci, em entrevista anterior ao JC, afirmou que se os professores efetivos não fizeram a reposição, serão contratados professores eventuais.
A Apeoesp e o CPP são contrários à reposição por causa do valor que a Secretaria Estadual de Educação vai pagar por aula. O professor efetivo irá receber como eventual, ou seja, apenas pelas aulas dadas, não ganhando pelos finais de semana e feriados. Já o Sindicato dos Diretores do Ensino Médio Oficial do Estado de São Paulo (Udemo) está recomendando a reposição das aulas, para que os alunos não sejam ainda mais prejudicados.
A liminar obtida pelo CPP anteontem, e que garantia o pagamento dos salários professores associados à entidade sem desconto, foi cassada anteontem à noite. Tanto CPP quanto Apeoesp aguardam, agora, julgamento do mérito da sentença que questiona a legalidade do desconto dos dias de greve.
O diretor e coordenador da Apeoesp de Bauru, Duílio Duka de Souza, ressaltou que a decisão de não repor as aulas caso houvesse desconto dos dias parados foi tomado em assembléias gerais da categoria. Sobre a probabilidade de boa parte dos professores fazer a reposição, ele disse que, como a greve, participa quem quer.
Na próxima quarta-feira, será realizada um ato público pelo pagamento dos dias parados e contra a reposição de aulas na Praça da República, em São Paulo. A Apeoesp convoca dos professores para participarem do movimento. Os interessados devem fazer reserva de lugar no ônibus na entidade.
A diretora regional do CPP, Vera Lúcia Duran, disse que muitos professores ligaram para a entidade ontem, reclamando dos descontos dos dias parados. Ela disse que alguns professores, desde o dia que receberam seus holerites - segunda-feira - já não estão dormindo direito, preocupados com as contas a pagar.
A presidente da Udemo, Maria José de Oliveira Faustini, no entanto, disse que a orientação da entidade é pela reposição das aulas, apesar de os diretores, vice-diretores e coordenadores de escolas não terem direito ao recebimento das aulas repostas. Futuramente, a Udemo pretende impetrar ação contra o Estado, segundo Maria José, para retirar as faltas injustificadas nos prontuários dos grevistas.
Outro motivo que levou a entidade a decidir pela reposição
é para não prejudicar ainda mais os alunos. Os profissionais do magistério reivindicavam 54% de reajuste salarial, mas só conseguiram apenas abono que varia de R$ 48,00 a R$ 80,00 - dependendo da carga horária do professor.
Professores já recorrem a empréstimos
Em função do desconto dos dias parados dos salários pagos ontem, vários professores já recorreram a empréstimos pessoais para poder quitar as dívidas contraídas. Um exemplo é o da professora Nilza Mara da Luz Garcia Santos, que tomou emprestado junto a uma instituição bancária R$ 1,6 mil, que devem ser pagos em oito parcelas.
Ela contou que precisou fazer o empréstimo para pagar aluguel, contas de água, luz, telefone e supermercado. A professora, recebeu apenas R$ 116,00 de seu salário de R$ 1.114,00. Ela não trabalhou durante toda a greve - de 4 de maio a 14 de junho - e disse que não teve outro jeito a não ser fazer o empréstimo. Só de aluguel, ele paga R$ 440,00. Apesar da dificuldade financeira, Nilza não pretende fazer a reposição de aulas.
O professor Osvaldo Altafin Júnior recebeu R$ 283,00 dos R$ 915,00 do seu salário. Ele disse que sua situação financeira só não é pior porque dá aulas em outros lugares. Osvaldo ainda não sabe se vai ou não fazer a reposição, mas acha que a categoria sairá perdendo com o valor a ser pago por aula.
A professora Márcia Cristina Cerigato só recebeu R$ 65,00 do seu salário R$ 725,00, e se não fosse seu outro emprego, também não teria condições de pagar as contas. Ela acredita que os professores estão divididos em repor ou não as aulas, mas está propensa a não fazer a reposição. (IR)