Ambiente de trabalho merece atenção
Texto: Sabrina Magalhães
Avanços tecnológicos, relacionamento pessoal, níveis de ruído, higiene e até postura física são ameaças constantes
O local de trabalho é onde a maioria das pessoas permanece por pelo menos um terço do seu dia. É ali que entramos em contato com boa parte dos estímulos estressores no dia-a-dia. Fatores que vão deste o medo de perder a hora e chegar atrasado até o medo do desemprego. Situações que precisam ser bem administradas para não levarem o indivíduo
às fases patológicas do estresse. É exatamente no ambiente de trabalho que se deve aproveitar ao máximo a Síndrome Geral de Adaptação para alavancar o sucesso e evoluir.
Dentro de uma empresa, sintomas de ansiedade são praticamente inevitáveis. Um colega que chega mau humorado traz o medo de desentendimentos. A quantidade de tarefas do dia sempre parece ser maior que a jornada de trabalho. O salário quase nunca
é suficiente para passar o mês. Em alguns lugares, a pressão exercida pelo relógio ou pelo chefe são quase insuportáveis. E até a campainha do telefone ou o toc-toc dos teclados de computador parecem ensurdecedores.
Na filosofia moderna, o funcionário tem que desempenhar o maior número de papéis possível dentro de uma empresa. Hoje, buscam-se profissionais multi-uso, do tipo que trabalha por dois e ainda ajuda o outro setor quando acaba mais cedo. Esta sobrecarga e a necessidade de se batalhar para não perder a vaga para outro é o principal fator estressor na vida da maioria dos trabalhadores.
Tecnologia
Internet, CD-Rom, Multimídia, Download são termos que invadiram a vida do trabalhador quase sem pedir licença. E a cada dia descobrem-se mais novidades. As máquinas vão ficando menores e mais potentes. Mas é preciso que alguém saiba mexer com elas, pois não funcionam sem que seus botões sejam pressionados.
A maioria das empresas, grandes ou pequenas, tem que trocar seus equipamentos de tempos em tempos e, quase sempre, isso acontece antes mesmo que seus funcionários conheçam completamente os recursos daquele que já está ultrapassado. Só a idéia de apertar o botão errado já causa um estresse tão grande quanto ter que enfrentar o lobo na floresta. E a cada mudança, surgem novos problemas.
Nas grandes empresas, então, as mudanças são ainda mais freqüentes: muda o equipamento, muda o horário, muda o chefe. E quem tem um mínimo de dificuldade de adaptação já se prepara para travar uma grande batalha.
Segundo Geraldo Ballone (www.psiqweb.med.br), uma pesquisa realizada na Inglaterra mostrou o impacto destas mudanças sobre a ansiedade e, conseqüentemente, sobre o estresse. "A pesquisa foi feita entre trabalhadores de uma refinaria de petróleo e de uma central telefônica, ambas submetidas à mudanças tecnológicas radicais. Na refinaria, apesar das mudanças para automação terem sido profundas, como o sistema de craqueamento do petróleo é sempre o mesmo, a incidência de estresse foi mínima entre os funcionários, inclusive entre os mais antigos. entretanto, na telefônica, a situação foi muito diferente O novo sistema não tinha nenhuma analogia com o anterior e os funcionários mais antigos tivera que ser transferidos ou demitidos."
Mudanças auto-impostas
Além das exigências empresariais, existem ainda exigências que as pessoas fazem de si mesmas. Ballone salienta é extremamente sadio estarmos sempre inconformados com o que fazemos e sempre buscando melhorar. Entretanto, é preciso também estar adaptado às circunstâncias, por mais adversas que sejam. Ou seja, procurar melhorar, mas considerando as limitações e sem querer se matar porque a perfeição não foi atingida.
"Sadio seria reclamar do trânsito quando este está ruim, para podermos buscar opções que melhorem nossa vida em relação a ele (mudar itinerários, horários, etc.), outra coisa é estarmos padecendo de hipertensão, úlcera ou enxaqueca por causa desse trânsito ruim. Essa é a diferença", exemplifica o psiquiatra.
Ele defende que o profissional, bem como todas as pessoas, devem estar em constante trabalho de reciclagem, exigindo mudanças e adaptações. Mas todas estas mudanças devem ser vistas sob a perspectiva do crescimento, não como uma obrigação tediosa, inútil e humilhante, que favoreça o descontentamento e o estresse patológico.
Porque, afinal, como diz o ditado, "nem tanto à terra, nem tanto ao mar". Se pessoas super atarefadas correm sérios riscos de ter um infarto repentino, pessoas que se aposentam e param de repente também correm. Porque o tédio, a sensação de impotência e a solidão são tão prejudiciais quanto a cobrança do chefe.