Jovem do campo conquista seu espaço
Texto: Adriana Rota
Eles demonstram que os preconceitos não têm razão de existir e que as vantagens de ser "da roça" supera as dificuldades
Quantos jovens já ouviram falar de Amácio Mazzaropi, artista nato que, dentre outras coisas, destacou-se no cenário nacional como ator, autor, diretor e produtor de filmes especialmente a partir da década de 50? Provavelmente, uma minoria. Mas sua figura tornou-se o estigma do que seria o homem do campo: o típico "caipira", mais esperto do que inteligente, que tinha como trunfo conseguir manter a simplicidade e a humildade apesar das adversidades.
A carga de preconceito das pessoas "da cidade" contra as pessoas "da roça" permanece hoje, mas a grande surpresa é que a juventude desse meio está aprendendo a impor suas qualidades, sem perder a identidade. A reportagem do JC conversou com alguns jovens do campo e constatou que o famigerado fascínio da "cidade grande" está perdendo lugar para a busca pela manutenção da qualidade de vida.
A Fazenda Shangri-lá, localizada no quilômetro 358 da rodovia Bauru, nas proximidades da Associação Atlética Banco do Brasil, mantém uma colônia composta por 16 famílias de funcionários. Dentre os moradores, estão cerca de 14 crianças na faixa etária de zero a dez anos de idade e dez até os 18 anos. Eles costumam sair da fazenda diariamente, mas só para freqüentar as escolas dos bairros mais próximos, em Bauru.
Fora isso, os passeios à "cidade" são esporádicos, em companhia dos pais. Para a escola a Prefeitura fornece condução mas, para o lazer, a dificuldade de locomoção é muito grande. Assim, os jovens precisam encontrar alternativas de diversão dentro da própria fazenda. Para os meninos é mais fácil: jogo de futebol, pesca, videogame na casa de um deles. Para as meninas é mais complicado: pouco resta além do bate-papo.
Nos últimos tempos, no entanto, as coisas parecem estar melhorando na fazenda, porque padres e bispos têm comparecido para ministrar missas e cultos e grupos ligados às igrejas fazem palestras para pais e filhos. Em breve, uma capela será construída para as celebrações. Os entrevistados estão vibrando com as novidades.
Num ritmo de vida que acompanha o da natureza que os cerca, o grupo costuma acordar por volta das 5 horas, demorando aproximadamente uma hora para chegar à aula. A maior parte deles dorme
"depois da Uga Uga", conforme relatou, exceto quando o time do coração vai jogar.
Apesar do poder de penetração que a televisão tem, especialmente nesses lares, os entrevistados garantem que
é possível apenas "ver por ver", sem frustrações.
"As roupas, por exemplo, são legais, as pessoas são bonitas. Mas a gente tem noção de que os atores vivem para isso e, mesmo que a gente tivesse uma roupa daquelas, para onde iria?", questionou Ana Paula Gonçalves dos Santos, 17 anos.
Esse posicionamento, no entanto, não impede que os jovens da fazenda façam planos para o futuro: todos demonstraram interesse em estudar, ter uma profissão, "ser alguém na vida", nas palavras deles. O apoio dos pais, que tiveram pouca ou nenhuma possibilidade de mudarem de vida, é irrestrito, apesar do medo de os filhos "saírem debaixo de suas asas", devido à violência.
O gerente agrícola da Shangri-lá, Marcelo Lima, 33 anos, explicou que as possibilidades de crescimento dentro da fazenda são limitados: os filhos dos funcionários são admitidos somente após os 18 anos e, geralmente, começam trabalhando na lavoura. Aos poucos, atingem postos mais altos, como de tratorista, fiscal, encarregado de campo, operador de máquina.
Nada impede, no entanto, que eles saiam para estudar e voltem para trabalhar, o que geralmente ocorre com os técnicos agrícolas, cuja formação demora apenas três anos. Na opinião de Marcelo, os que conseguem sair são os mais ambiciosos, os mais "sapecas". Foi o que ocorreu com um dos rapazes recentemente. Ele gravou um CD com músicas evangélicas.
O gerente disse perceber que existe uma "febre" entre os meninos de se tornarem peões de rodeio, o que os faz insistir em começar a lidar com o gado o quanto antes.
"Eles querem começar a trabalhar cedo para ganhar dinheiro. As meninas têm mais o desejo de estudar".
Ainda assim, segundo ele, os casamentos costumam ocorrer cedo. O casal Janete de Almeida e Devanildo Damico, ambos com 21 anos, por exemplo, pretendem "juntar as escovas de dentes" em breve. Eles se conheceram em Piratininga, onde Janete morava. Mais tarde, ela também começou a trabalhar na fazenda e, em seguida, seus pais mudaram-se para lá, o que contribuiu para firmar o namoro, que já dura quase dois anos.
Janete confessa que não pretendia casar cedo. "Era ficar por ficar", mas acabou se apaixonando. Não sabe, ainda, se o destino do casal será permanecer na fazenda, mas confidenciou que é "menos complicado" ficar lá. "Dá medo de arriscar outra coisa".
Namorar numa comunidade tão pequena, segundo ela, não dá a sensação de que todos estão vigiando, como pode parecer. "Depois que assume o namoro, fica tudo bem". Mesmo o relacionamento com os pais, no que tange a sexo, não é tão difícil, embora eles ainda "peguem no pé", principalmente das meninas, para tentar evitar que elas adiantem as coisas. "Acho que está certo. Começar a namorar cedo atrapalha os estudos", disse Ana Paula, com a concordância da irmã Andressa, de 14 anos. Para os entrevistados, na cidade, os pais são liberais demais.
Os jovens também avaliam que a probabilidade de envolvimento com drogas, mesmo as lícitas (cigarro e bebidas alcoólicas)
é menor para eles, porque na cidade elas podem ser encontradas em qualquer lugar. Hueliton Rafael Fantino Pereira, 11 anos, destaca uma desvantagem "básica" dos jovens urbanos.
"Lá, eles têm que achar piscina, pagar para ir ao clube. Aqui, é só ir no (rio) Batalha", brincou.
Lidando bem com o rótulo de "caipira" que os colegas da cidade colocam neles, os jovens da fazenda fazem questão de ressaltar que dificilmente seria possível encontrar um lugar tão agradável para morar, e com tamanha qualidade de vida. Eles se queixam somente da falta de opções, como cursos, por exemplo.
Destacam, ainda, que o modo de vida do campo permite estreitar os laços, criando-se uma grande família.
"Umas pessoas visitam as outras. Na cidade, você só conhece os vizinhos da direita e da esquerda, e olhe lá. Quando vê a pessoa caída, além de não socorrer, ainda pensa que está bêbada. No máximo, avisa a polícia. Geralmente, desvia e vai embora. Aqui, há preocupação com o outro", disse Marcelo, sob concordância dos demais.
Se tem algo que ainda "pega" no meio rural, talvez em conseqüência da mentalidade arraigada na sociedade de modo geral, é que os meninos ainda têm algumas vantagens em relação às meninas. Por exemplo, quando voltam da aula, eles brincam enquanto elas limpam a casa, fazem comida. "É mulher, né!? Tem de cozinhar, lavar", disse Hueliton, enquanto as meninas clamavam por direitos iguais.
Congresso discute jovem do campo
A Pastoral da Juventude Rural, organismo ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizará de 24 a 28 de julho o 1.º Congresso Nacional da Juventude Rural, em Brasília (DF). Os temas abordados serão "Conjuntura do País", "Qual projeto queremos para o Brasil",
"Novo milênio e os cristãos" e "O campo e seu específico". A data do evento coincide com o Dia do Agricultor, comemorado no dia 25.
De acordo com o secretário executivo do Congresso, Ivo Lourenço da Silva, a intenção do evento é sensibilizar a sociedade para os problemas sociais, econômicos, religiosos e sociais dos jovens do campo.
As exclusões social e cultural impulsionariam a migração para as cidades, fenômeno que pode prejudicar especialmente o jovem, que não raras vezes acaba indo morar em favelas ou nas periferias e envolvendo-se no mundo do crime. A idéia central é que a juventude rural organize-se para permanecer no campo.
Mais informações sobre o 1.º Congresso Nacional da Juventude Rural podem ser obtidas pelos telefones (41)224-7512 ou (41) 222-7824. O e-mail é eduardomadruga@terra.com.br.