07 de julho de 2026
Geral

Educação sexual

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 7 min

Discussão sobre o uso da camisinha atinge todas as comunidades religiosas

Texto: Fabiana Teófilo

A polêmica em torno da Igreja Católica, iniciada no mês passado, sobre o uso da camisinha, alerta às comunidades religiosas para a educação sexual

O uso ou não da camisinha nas relações sexuais desencadeou uma discussão entre os representantes de diferentes religiões sobre a realidade vivida atualmente. As opiniões são divergentes, mas, em suma, todos acreditam na importância da educação sexual, que deve ser o ponto de partida para uma preocupação de um bem maior, que é a defesa da vida.

Por hierarquia, a Igreja Católica precisa seguir as recomendações do Vaticano, que impede o uso do preservativo, apesar de que o assunto está sendo discutido cada vez mais dentro da Igreja, por teólogos e moralistas.

Para os mórmons, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos

Últimos Dias, o uso é permitido, mas somente dentro do casamento, como método anticoncepcional. Os evangélicos concordam e, apenas, não permitem os métodos abortivos.

Para os espíritas, o uso da camisinha é um mal menor e, portanto, permitido, com responsabilidade e consciência.

No início do mês passado, quando durante a abertura do 1.º Encontro sobre DST-Aids, promovido pela Pastoral da Saúde, em Indaiatuba, no Interior de São Paulo, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) adotou uma postura mais flexível em relação ao uso de preservativos, reconhecendo que o uso da camisinha é necessário, pelo menos em relação aos chamados grupos de risco.

A partir daí, várias discussões foram realizadas sobre a polêmica. O padre Valeriano Paitoni, por exemplo, foi punido pela Arquidiocese de São Paulo por defender o uso da camisinha.

De acordo com o bispo de Goiás, dom Eugênio Rixen, a "tolerância" do uso da camisinha não significa que os padres irão pregar nas missas essa prática. Para ele, entre o uso do preservativo e a expansão da Aids, a obrigação é escolher o mal menor.

Para o bispo de Ilhéus, dom Mauro Montagnoli, o veto ao uso da camisinha não é uma questão fechada dentro da Igreja Católica. Ele afirmou que cada pessoa deve agir de acordo com sua consciência e que a Igreja deve lutar muito para evitar a liberdade sexual desvairada.

Cristãos opinam sobre a polêmica

De acordo com o bispo emérito de Bauru, dom Cândido Padin, a Igreja reconhece que a função sexual faz parte da vida humana, mas tem o dever de acentuar que a relação sexual deve corresponder ao verdadeiro amor entre as pessoas e não reduzida a uma aventura ou divertimento sem responsabilidade.

"O relacionamento sexual deve estar unido a um sentido de união verdadeiramente humana e fiel entre o homem e a mulher", disse.

Ele explicou que a Igreja, ao contrário do que muitos pensam, não exclui o prazer ao ato sexual, mas exige o respeito e a responsabilidade pela realização de uma união.

"O prazer existe e está diretamente ligado ao ato sexual, mas isso dentro de um relacionamento responsável, legítimo e fiel à Igreja", afirmou.

Dom Cândido deixou claro que a liberação do uso da camisinha pela Igreja Católica, poderia acarretar na prática indiscriminada do ato sexual e é, exatamente contra isso que os católicos lutam. Ele acredita que a educação sexual deveria ser mais explorada dentro da Igreja para conscientizar cada cristão sobre a importância de se ter uma preparação antes do casamento e, conseqüentemente, antes da primeira relação sexual.

A católica bauruense, Cristina Fernanda de Almeida Mogollón, 32 anos, acredita que a Igreja Católica deveria considerar a liberação do uso da camisinha aos pertencentes aos grupos de risco. Para ela, eles também são cristãos, apesar de viverem em pecado, de acordo com as leis da Igreja.

"Mesmo cometendo pecados, alguns homossexuais e prostitutas acreditam em Deus", disse.

Cristina, que namora há dois anos, disse que ainda é virgem e pretende se guardar para depois do casamento. "Não temos necessidade de mantermos uma relação sexual agora, podemos esperar e respeitar a nossa religião. Vamos nos amar por prazer, mas com respeito e fidelidade", afirmou.

Ela disse, ainda, que depois de casada pretende ter apenas um filho e, para evitar outros irá usar o método Billings

(tabelinha), que é o único permitido pela Igreja. Questionada sobre a não segurança do método, Cristina afirmou: "Se vierem outros filhos será pela vontade de Deus e iremos aceitá-los com muito amor."

O missionário mórmon, Élder Whimeiy, 20 anos, disse que o homem e a mulher, depois de casados, podem optar pelo uso ou não da camisinha, desde que seja usada para o controle da natalidade. Ele afirmou que a virgindade deve ser mantida até a união matrimonial e a fidelidade dentro do casamento

é primordial. "Por isso, um homem e uma mulher devem estar certos do que querem quando decidem se casar", disse. A pílula anticoncepcional, de acordo com Whimeiy, também

é permitida dentro do casamento.

O presidente do Conselho dos Pastores Evangélicos de Bauru, pastor Édson Valentin de Freitas Filho disse que o principal

é dar princípios aos jovens para que cresçam sem se desviar do caminho. "Se a criança tem como princípio, manter o seu corpo, a virgindade até o casamento e após casar manter a fidelidade, pode existir o apelo que for que ela não vai se desviar", disse.

O pastor explicou que a partir do momento em que os cristãos vivem de acordo com o que se prega dentro da Igreja Evangélica, que é a fidelidade, o uso da camisinha se exclui apenas para evitar filhos.

O relacionamento sexual para os evangélicos, de acordo com Freitas Filho, é um ato, também de prazer, mas somente dentro do casamento. "A partir do momento em que há fidelidade dentro do casamento não há o perigo de se contrair Aids", afirmou.

De acordo com o pastor, o problema maior é o apelo pornográfico que a mídia realiza, incentivando a promiscuidade. Ele explicou que dentro da Igreja há um trabalho de conscientização para um controle contra esse apelo.

"Posso citar o meu caso como exemplo dentro da Igreja Evangélica. Eu não tive relação sexual antes do meu casamento e sou fiel a minha esposa e igualmente ela. Portanto, é possível", contou.

Para o espírita, Richard Simonetti numa sociedade cristianizada, imperará a monogamia, regida pelo amor legítimo, que transcende a mera atração física, sustentado por compreensão, respeito e fidelidade mútuos. O sexo será apenas parte do amor, exercitado nos limites do método natural, quando o casal pretenda evitar a concepção.

"A pílula e a camisinha se impõem como males menores, evitando o comprometimento do aborto e a tragédia da Aids", afirmou.

O também espírita, Nélson Bastos explicou que o uso de métodos contraceptivos devem ser usados quando se há razões justas para evitar a procriação e não para satisfazer a vontade erótica.

Ele disse, ainda, que atualmente, se sabe que a iniciação sexual é prematura, mas é necessário ter responsabilidade sobre o ato. "Nesses casos temos que aceitar o uso da camisinha, mas também realizar o trabalho de esclarecer que o uso indiscriminado não se deve acontecer", afirmou.

Debates são importantes, diz professor de teologia

Após a 1.ª Guerra Mundial, a teologia católica começou a aceitar o sexo como parte do processo amoroso entre casais heterossexuais, constituídos de acordo com as normas da Igreja. O professor de teologia e jornalista, Luís Henrique Marques explicou que dentro da Igreja Católica existe a obediência ao Vaticano que impõe a fidelidade

à Igreja, seus estudos e declarações.

Mas isso, de acordo com ele, não impede que haja debates.

"A posição oficial dentro da Igreja é contra, mas há pessoas que têm provocado dentro da própria Igreja se essa questão não deve ser revista", disse.

De acordo com Marques, o problema para a Igreja não é apenas o uso ou não da camisinha, e sim a visão da sexualidade que as pessoas têm. "O que a Igreja quer é que as pessoas tenham uma visão diferente da sexualidade. Fazer sexo com alguém deveria ser fruto de uma experiência pensada, escolhida. Implica num equilíbrio de emoções em uma opção racional", disse.

Ele afirmou que a Igreja Católica pode estar errada por querer impor o que é certo e o que é errado. "É preciso conversar e discutir sobre o sexo, seu significado. Eu acho que é isso o que falta, discutir sobre o assunto", disse.

Marques, apesar de dizer que ainda não possui uma opinião formada sobre o assunto, concluiu que é preciso fazer com que as comunidades eclesiais promovam mais debates sobre o assunto para discutir alternativas sobre a sexualidade.