07 de julho de 2026
Geral

Frio

Por Rita de C. Cornélio | Tânia F
| Tempo de leitura: 8 min

Bauru vive maior frio dos últimos 12 anos

Texto: Rita de Cássia Cornélio

O IPMet registrou 1,7ºC na madrugada, mas sensação térmica foi de 0ºC. O frio castiga mais moradores das favelas, que têm no sol e no fogo seus aliados para se aquecerem

O Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp registrou, ontem, a mais baixa temperatura dos últimos 12 anos em Bauru: 1,7ºC contra os 3ºC do dia mais frio até então, registrado em 1981. Mas a sensação térmica foi de mais frio, 0ºC, conforme marcaram termômetros instalados no Calçadão e avenida Nações Unidas. A queda na temperatura, segundo o IPMet, foi provocada por uma forte massa de ar frio, que atingiu o Estado de São Paulo. Em vários pontos do município e da cidade, como no bairro Águas Virtuosas, houve queda de geada na manhã de ontem. Na cidade, quem acordou cedo ontem pôde verificar camada fina de gelo sobre superfícies que ficaram ao relento, como veículos. A técnica especialista em meteorologia, Giorgia Pellegrina, explica que a temperatura de 1.7º C foi verificada na estação do IPMet. "Pode ter sido maior ou menor em outras regiões da cidade. A temperatura pode variar dependendo do relevo", ressaltou. Para quem quer se livrar do frio, péssimas notícias: ele não vai embora tão cedo. As baixas temperaturas devem continuar ou até aumentar, essa é a tendência. Para a madrugada e manhã de hoje, o IPMet previa temperaturas mínimas entre 0ºC e 2ºC e máximas entre 16ºC e 18ºC. Hoje à noite outra frente fria deve atingir o Estado de São Paulo, vinda do Paraná. Na quarta-feira, a frente fria deve provocar chuvas no Estado de São Paulo e durante a tarde as chuvas se dissipam, iniciando nova queda das temperaturas. Na quinta-feira, a massa de ar frio ocasiona tempo bom, sem chuvas e baixas temperaturas para todo o Estado. Ontem pela manhã, quem não pôde ficar na cama até mais tarde tirou os casacos, luvas e gorros dos guarda-roupas para enfrentar o frio. Apesar das baixas temperaturas na noite e madrugada, o Albergue Noturno do Centro Espírita Amor e Caridade não registrou aumento na procura por pernoite. Frio conforme o cobertor

O sol e o fogo são aliados importantes para os moradores de favela, que vivem em casas com frestas e têm poucos cobertores e roupas para se aquecerem. Durante o dia o sacrifício é menor. As temperaturas sobem e o sol ajuda a esquentar. Mas à noite a alternativa para enfrentar o frio, a fogueira, é um pouco arriscada. Se fazem uma fogueira, correm o risco de provocarem um incêndio na casa. Se não usam o fogo, passam frio. Os cobertores, geralmente finos, não ajudam muito a população carente a enfrentar as baixas temperaturas. Os barracos possuem frestas e aberturas muito grandes, por onde entra o vento e o frio. Frestas de barraco são tapadas com lençóis

Eliana Soares da Silva, 28 anos, mão de três crianças pequenas, usa lençóis para tentar conter o vento frio que insistentemente entra em sua casa, no Parque Jaraguá. "São muitas frestas e eu decidi fazer um "revestimento" com lençóis e colchas. O vento é muito frio e os cobertores são poucos", explicou. Para piorar a situação de Eliana, ela e as crianças moram na beira do córrego da Grama, que passa pela favela do Parque Jaraguá. "Aqui é muito mais frio. Quando chega a noite, eu esquento leite para as crianças e coloco uma roupa sobre a outra, para que elas não passem muito frio", contou a mãe. Ela já tentou revestir o barraco com lona preta. "O vento leva. Não dá certo", reclamou. A hora do banho é outro desafio. "Não temos chuveiro quente. Tomamos banho de canequinha e esquentamos a água no quintal. Tivemos que mudar o horário. As crianças tomam banho antes do escurecer", disse Eliana. Solange Lopes de Souza é vizinha de Eliana e sofre com os mesmos problemas no inverno. Com três filhos pequenos, ela acha que o inverno é pior estação do ano. "O pé congela. Nós estamos fazendo fogueira no quintal para enfrentar o frio durante a noite", contou. Frestas e aberturas não faltam no barraco de Solange. Na sala da casa, um vitrô, sem vidro, permite a entrada do vento frio durante a noite. No quarto, as aberturas são grandes e não há como fugir do frio. Mesmo, com os restos de papelão e revestimento interno improvisado, a situação é crítica. Maria Aparecida Paulina, 28 anos, também mora na beira do Córrego da Grama, do lado da favela do Jardim Andorfato. Ela enfrenta os mesmos problemas. "Temos cobertores, mas o frio está intenso e eles acabam não esquentando muito. Já enchi as frestas com jornal e papelão, mas o vento ultrapassa", disse. Para dormir quentinha, Márcia R. Silva Lopes coloca seus dois filhos pequenos para dormir junto com ela. "Temos alguns cobertores, mas não são suficientes, por isso, eu coloco as duas menores para dormir comigo. Durante o dia, nós ficamos no sol para nos aquecer", ressaltou. Venda de aquecedores dispara

O frio dos últimos dias e principalmente de ontem fez disparar a venda de aquecedores de ar em Bauru. Em uma das lojas consultadas pela reportagem ontem à tarde, 25 aparelhos haviam sido vendidos ontem e o estoque estava zerado. Em outra loja de eletrodomésticos da cidade foram vendidos cerca de 40 aquecedores de ar apenas ontem, número bem acima da média dos invernos dos anos anteriores. A loja há havia feito novo pedido, acreditando que a procura por aquecedores vai continuar alta nos próximos dias, em função da previsão de mais frio. Nas lojas pesquisadas pela reportagem, o preço de aquecedores de ar varia de R$ 59,00 a R$ 128,00, dependendo da marca e da potência. A preferência dos bauruenses é pelo aquecedor que funciona a energia elétrica - o aquecedor a óleo é pouco procurado. Conforme explicou uma vendedora de uma das lojas, os aquecedores mais baratos são aqueles de menor potência, indicados para ambientes pequenos. Já os mais caros, mais potentes, aquecem ambientes maiores. (IR) Geada deve trazer reflexo imediato

Texto: Tânia Fonseca

Pastagens e hortaliças foram as culturas mais afetadas. Preço de verdura pode sofrer alterações já a partir de hoje

A geada que se formou na madrugada de ontem destruiu parcialmente culturas de hortaliças e legumes em vários municípios da região. Para as pastagens, em muitos casos, os danos chegam a 100% e o reflexo desse prejuízo será imediato, com o provável aumento no preço do leite, avalia Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru (SRB) e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp). Estima-se que a madrugada de ontem foi a mais fria dos últimos seis anos. O frio foi tão intenso, que em várias localidades houve perdas de 50% nas culturas de alface, rúcula agrião dentre outras. Ontem, algumas plantações já apresentavam a folhagem marrom-escuro, queimada pelo gelo. Muitos canteiros de hortaliças amanheceram cobertos de gelo. "Quando o sol apareceu, as folhas das verduras derretiam junto com o gelo", disse aborrecido, ontem, Miguel dos Santos, um pequeno produtor de Botucatu. A geada de ontem, segundo Lima Verde já será suficiente para provocar alta no preço do leite. E o pior, lembra ele, é que as previsões meteorológicas indicam que ela deve se repetir, entre hoje e amanhã. As pastagens que já estavam prejudicadas pela estiagem, somada à geada, deve provocar a escassez do alimentos das vacas e consequentemente o aumento no preço do leite. Segundo Lima Verde, a perda na pastagem a foi quase que total e uma nova gaeda pode acabar com o que restou. A escassez de alimento para o gado deve afetar, principalmente o pequeno produtor, aquele para quem é mais difícil estar adquirindo o alimento de confino. Além do aumento no preço do leite, outro detalhe observado por Lima Verde será um provável aumento na oferta do boi gordo, já que produtores estarão receosos com a falta de pastagem. Café

Para a cafeicultura da região, segundo a Cooperativa de Cafeicultores de Garça (Garcafé), apesar da geada ser uma ameaça muito séria, ainda não há como dimensionar as consequências, mesmo porque, se as previsões se confirmarem, com novas ocorrências de geada hoje e amanhã, o quadro já estará alterado novamente. Na opinião do sindicalista Lima Verde, culturas perenes, como o café, cana, abacaxi e fruticultura em geral não foram tão afetadas como a horticultura e pastagens, mas também sofrerão as consequências da geada de ontem. O café pode ter a próxima safra prejudicada. Reflexos imediatos

As perdas nas plantações de hortaliças na região podem chegar até a 50%, segundo expectativa do presidente do Sindicato Rural de Bauru e hoje, os produtos mais afetados já podem amanhecer com preços alterados nos mercados. Com a menor oferta, estima-se que os preços devem subir em até 30%. Pode ser esperada ainda uma queda inicial dos preços das hortaliças, devido a menor qualidade do produto, seguida de uma alta em torno a partir da quarta e quinta-feira. Para as folhas, espera-se uma perda de 50% ou mais, segundo Lima Verde. Alguns produtos, como a cenoura e a uva, apesar das geadas, podem ter sua oferta menos afetada, porque podem ser trazidas do sul do Mato Grosso e do Nordeste, respectivamente, cobrindo o abastecimento do Estado. Mais frio

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) divulgou ontem à tarde o Aviso Meteorológico Especial informando que o frio continuará intenso no centro-sul do País até 25 de julho em função da previsão de chegada de mais duas massas de ar polar do Brasil. O Aviso Meteorológico Especial pode ser encontrado na página do Inmet na Internet (www.inmet.gov.br).