A dama das artes
Texto: Gustavo Cândido
É difícil encontrar uma pessoa com mais de trinta anos em Bauru que não tenha ouvido falar no seu nome. Celina Lourdes Alves Neves é sinônimo de teatro e cultura na cidade e na região, além de ter sido a proprietária de uma das mais famosas escolas de datilografia da cidade, a Progresso, por onde passaram centenas de pessoas durante as várias décadas que esteve em atividade. Nascida em Taquaritinga, em 1920, ela veio para chegou a Bauru em 1933, depois de ter vivido com a família em diversas cidades da região e no Mato Grosso do Sul. O pai, ferroviário da Araraquarense e depois da Noroeste, foi quem lhe ensinou as primeiras lições, mas durante grande parte da vida Dona Celina foi mesmo auto-didata, aprendendo sozinha a escrever peças e tocar instrumentos. Bem-humorada, mesmo sem poder se locomover, ela recebeu o JC em sua casa (na histórica sala onde foi fundada a Academia Bauruense de Letras e onde, até pouco tempo, ela organizava serestas durante as tardes), para falar da sua vida, sua paixão pelos livros e a vontade de não parar de escrever nunca.
Jornal da Cidade - A senhora estudou só até a 5ª série do primário, seus pais foram seus verdadeiros professores?
Celina Lourdes Alves Neves - Minha mãe lia histórias para mim, quando eu era pequena. Ficava encantada querendo saber ler. Aprendi ler quando estava morando em Miranda, no Mato Grosso. Meu pai me levava para o armazém me mandava sentar numa caixa para ficar na altura da mesa dele e me ensinava, usando a cartilha da época. Tudo isso porque lá não tinha professora. Ele ia passando as lições e eu acompanhava. Ele foi me ensinando a fazer contas também. Mas eu não tinha muita noção do que era ler, meu pai tomava as lições, eu respondia e ele acreditava que eu já estava sabendo. Até que chegou na letra P. Ele me fez juntar as letras e formar a palavra "papai", foi ai que tive noção da maravilha que é ler. Ele ficou muito contente porque a primeira palavra que eu li foi papai. Dai comecei a ler. Li a cartilha e tudo o que podia. Meu pai me incentivava a ler os jornais, inclusive os de São Paulo que chegavam. Acabei me apegando aos livros.
JC - Quando a senhora começou a escrever?
Celina - O meu pai, que sempre tinha escrito para jornais, estava no Correio da Noroeste quando foi chamado pelo doutor Otávio Pinheiro Brisolla para trabalhar no seu jornal. Eu já tinha escrito um artigo para um jornal do Rio de Janeiro, chamado "13 de Outubro", sobre a Revolução de 30 e sobre seus heróis. O doutor Brisolla foi com a minha cara e perguntou para o meu pai se eu não tinha o interesse de me tornar repórter. A primeira matéria que eu fiz foi sobre a inauguração de uma escola rural. Mas como era a primeira matéria, escrevi pouco, de medo, e eles disseram para escrever mais, me abrir. Dai percebi que começava a ter algum valor. Depois meu pai começou a trabalhar em outro jornal, chamado Folha do Povo, onde ele ficou por mais de 20 anos. Eu continuei trabalhando, escrevendo matérias, mas não assinava. Pedi muitas coisas para a cidade através do jornal. Esse foi o meu primeiro trabalho.
JC - E depois?
Celina - Aprendi datilografia e, segundo o diretor da escola, era uma datilógrafa perfeita, então ele me convidou a dar aula na escola dele. Fiquei um certo tempo mas depois nos desentendemos e pedi demissão. Mas ai a fama de boa professora já havia se espalhado e logo começaram a aparecer pessoas em casa querendo aprender datilografia. Eu não tinha máquina, então meu pai me deu uma e comecei a dar aulas, apesar de achar datilografia uma coisa insignificante. Quando morei em São Paulo, durante o período em que meu pai ficou preso, acusado de ser comunista, que ele não era, aprendi taquigrafia, no Colégio Matoso, que era mais difícil. Mesmo assim, achava que saber datilografia e taquigrafia era muito pouco. Depois que comecei a dar aulas as pessoas apareciam como formigas na porta de casa querendo aprender. Me casei, com o intuito de ser dona de casa e não trabalhar, mas a rebelde que existe dentro de mim se negou a fazer isso. Um dia apareceu na minha porta uma moça que queria aprender e voltei a dar aula. Naquela época não era comum a mulher trabalhar, eles achavam que isso podia estimular o marido a "ficar vagabundo" e não trabalhar porque a mulher já estava fazendo isso. Tinha alunos todas as horas do dia e comecei a dar aulas de taquigrafia também para a primeira turma de alunos da ITE. Tudo isso na minha sala de jantar. Mas como a fama cresceu, tivemos que reformar a casa para eu ter uma sala só minha. Dai veio a segunda máquina, a terceira e chegou uma época em que eu tinha cem máquinas, depois tive também as elétricas e eletrônicas. Mas eu não me considerava feliz dando aula de datilografia e taquigrafia, achava insuficiente.
JC - O que a senhor fez?
Celina - Montei um curso de Português, de Matemática que logo se tornou Secretariado, com aulas de Cultura Geral, Alemão, Inglês, Ética, História e Etiqueta. Tudo isso fazendo exames em São Paulo, na Superintendência Geral do Ensino. Aprendia lá para ensinar aqui. Também lia muito, nunca parei de ler. Depois que fiquei viúva fui demolindo as paredes da casa e aumentando a escola, que se chamava Progresso. Logo tive a chance de abrir uma escola em Agudos com o curso de Secretariado, depois abri uma também em Avaí, Presidente Alves, Paulistânia e mais outras aqui em Bauru. Chegou uma época que eu tinha de 8 a 10 escolas.
JC - E o teatro, como surgiu na sua vida?
Celina - Em 1956, no dia do meu aniversário, recebi a ordem dos meus alunos, de não entrar na escola a não ser às sete horas da noite. Era uma festa que eles tinham organizado. Tinha um aluno de Garça, chamado João José de Oliveira Júnior que organizou uma pantomima na sala de aula, com monólogos, diálogos. Isso foi no dia 6 de abril. Ele então pediu para fazer uma peça para o dia 13 de maio, que naquele ano coincidia as comemorações do Dia das Mães e da Libertação dos Escravos. Eu me entusiasmei e fomos atrás de uma peça para as mães. Nessa ocasião eu trabalhava no Senac, onde fiquei por 25 anos e eu gostava muito de Paulo Setúbal, que tinha uma antologia escolar onde tinha um texto que se chamava
"Minha Mãe Deus Lhe Pague", que ele fez para a posse na Academia Brasileira de Letras para agradecer a sua mãe. Me inspirei naquele texto e escrevi uma peça de um ato e duas cenas. Todos gostaram, acharam bonito, mas faltava algo para homenagear o Dia da Libertação dos Escravos. Então sentei na máquina e escrevi "Senzala", minha segunda peça. Depois escrevi "E Assim Nasceu Bauru". Ao mesmo tempo, como sou descendente de portugueses, decidi criar um grupo folclórico Luso-Brasileiro em Bauru. Nessa época ninguém falava em fazer um clube. Pesquisei o folclore português e fizemos o grupo. Nós nos apresentávamos só nas escolas porque eu tinha muita vergonha do outros. Mas ai decidimos fazer um Festival Luso-Brasileiro em Bauru. Apresentamos uma peça de Machado de Assis, que falava da vida de Camões e o grupo folclórico. Depois fizemos o segundo festival, onde apresentamos "A Ceia dos Cardeais", foi um sucesso, assim como o folclore. Fomos convidados para ir a Ribeirão Preto, na 1ª Festa Nacional do Café de Ribeirão. Brilhamos lá, como todas as meninas e meninos vestidos de portugueses. Dai vieram representantes da Comissão Estadual de Teatro para fundar a Federação e eu fui primeira presidente da Federação Bauruense de Teatro Amador, a famosa FEBATA e eu dirigi a federação por onze anos. O teatro foi uma coisa instintiva ma minha vida, natural. Também fui atriz, meu primeiro papel foi em uma peça que apresentamos no 2º Festival de Teatro Amador de Botucatu. Fiz a Maria Caxuxa, que era uma mulher paranóica. Fomos muito aplaudidos mas não ganhamos o festival. Ribeirão venceu.
JC - Até quando a senhora esteve envolvida com o teatro?
Celina - Até 1996, foram 40 anos de teatro. Escrevi apenas seis peças mas montei muitas de outros autores e fizemos muito sucesso por ai. Ainda outro dia eu recebi um troféu vindo de Presidente Prudente pelos 40 anos de teatro.
JC - E os livros?
Celina - Escrevi um livro sobre a história de Bauru, com crônicas do Correio da Noroeste, mas esse livro não existe mais, todos foram vendidos. Nem eu tenho uma cópia. Agora saiu uma antologia da Academia Bauruense de Letras, da qual eu sou uma das fundadoras e presidente de honra. Fui a primeira presidente da Academia, hoje eu brinco que eles me colocaram para escanteio com esse título de presidente de honra, mas continuo colaborando com a Academia. Também escrevo para o Jornal da Cidade, desde a edição nº 52, escrevo o "Bom Dia Bauru". Tenho procurado, dentro dos campos da cultura, fazer o que eu posso.
JC - A senhora não está pensando na possibilidade de parar de escrever, está?
Celina - Não, eu tenho muito ainda para escrever e, se eu tornar a andar, vou voltar a fazer teatro. Fiz 85 peças, trabalhei 72 vezes com meu filho Carlos e 25 vezes com meu filho Paulo, que também escreve peças muito bem. O Carlos
é mais de representar...
JC - A senhora que atuou em diversas áreas culturais, como vê essas pessoas que justificam a falta de sucesso na vida pela falta de estudos. O que diria a elas?
Celina - Acho que é preguiça. Tendo vontade e disposição a pessoa pode chegar a ser muita coisa na vida. Machado de Assis só tinha grupo escolar, no entanto, ele é o fundador da ABL. Acho que as pessoas não podem ficar sem estudar, principalmente no mundo de hoje. É preciso sempre estudar e ler muito, livros e jornais, para saber o que está acontecendo no mundo. É preciso sair de dentro de si. Eu que era acanhada, fui candidata a vereadora e enfrentei dez mil pessoas na Praça da Bíblia, falando em público, é preciso sempre se superar, ter olhos para ver, ouvidos para ouvir e inteligência para desembaraçar as coisas difíceis da vida.
JC - Muitas pessoas se manifestaram quando o teatro foi construído, dizendo que ele deveria levar o seu nome, o que a senhora acha disso?
Celina - O prefeito na época (Tidei de Lima), disse que o teatro não podia ter o meu nome porque eu estava viva. Eu digo que não quero morrer para virar nome de teatro, apesar de ser conhecida como uma mulher de teatro.
Curiosidades
* Dona Celina Alves Neves também fez parte da Escola Superior de Guerra, numa época em que poucas mulheres tinham esse privilégio e, pela escola, teve a oportunidade de conhecer vários lugares no Brasil
* Quando era adolescente, logo que se mudou para Bauru com a família, ela aprendeu a tocar bandolim. Mais tarde aprendeu a tocar piano e violino. Além disso, também cantava, "tinha uma voz de soprano, vivia cantando e alegrando a vizinhança", conta.